O que o 7MARGENS deve a Vicente Jorge Silva

| 8 Set 20

Vicente Jorge Silva: um jornalismo moderno, ao nível dos melhores do mundo, não poderia prescindir da informação religiosa.  Foto © Alfredo Cunha, cedida pelo autor.

 

Não fosse Vicente Jorge Silva e o Público não existiria. Provavelmente também o 7MARGENS não teria surgido. Esta experiência pequena, débil e frágil deve muito à mestria, argúcia, inteligência e contemporaneidade do olhar que aprendemos com Vicente Jorge Silva, que morreu na madrugada desta terça-feira, em Lisboa.

Certo que o Vicente – assim o tratávamos, entre camaradas de profissão e redacção – também tentou voos enquanto cineasta e fotógrafo (há poucos anos, mostrou várias e belas fotos funchalenses em Lisboa) e fez ainda uma breve incursão na política, como deputado pelo PS. Mas foi pelo seu percurso no jornalismo que muitos ficaram marcados por ele. Nascido no Funchal a 8 de Novembro de 1945, cresceu no estúdio fotográfico da família, o Atelier Vicente’s (hoje Museu de Fotografia da Madeira), fundado pelo bisavô Vicente Gomes da Silva em 1846, continuado pelo avô Vicente Júnior, e pelo pai e tio, Jorge Bettencourt e Vicente Bettencourt, como recorda o Público.

Depois de uma breve passagem por Paris e Londres, Vicente voltaria ao Funchal em 1966, entrando com um pequeno grupo na aventura de refundar o Comércio do Funchal, tinha então 21 anos. Depois do 25 de Abril de 1974, mudou-se para Lisboa, integrando a redacção do Expresso. Aqui chegaria a chefe de redacção e director-adjunto. Mas foi a recriação que fez da Revista, em 1981, como produto autónomo do jornal, e nela publicando grandes textos sobre cultura, actualidade internacional ou sociedade, que provocou o primeiro grande sobressalto na forma de fazer jornalismo em Portugal. Nessa altura, com sete anos de democracia, o jornalismo português ainda não perdera muitos dos atavismos que o tolhiam no cinzentismo e na subserviência ao poder – aos poderes, quaisquer que eles fossem.

Na Revista, trabalhei algumas vezes com o Vicente, e não esqueço um “puxão de orelhas” que me deu por causa de um erro básico que eu, ainda a entrar na profissão, cometera num texto. Mas imediatamente incentivou a que continuasse a sugerir outros temas, textos, trabalhos…

O segundo agitar de águas foi com o Público, fundado em 1989 e cujo primeiro número veio para a rua a 5 de Março de 1990. Ele e o Jorge Wemans convidaram-me para a redacção que iria lançar o jornal, na consideração de que um jornalismo que se pretendia novo, moderno, ao nível dos melhores do mundo, não poderia prescindir da informação religiosa. Já então o Vicente percebia que é impossível entender muitos dos acontecimentos do mundo contemporâneo sem dar conta dos fenómenos religiosos que frequentemente os explicam e provocam.

Pressenti que era imenso o desafio, mas a atenção crítica do Vicente à cultura, à política, à economia e à sociedade, incluía a questão religiosa. O modo como ele ligava com tanta inteligência acontecimentos aparentemente sem relação uns com os outros era brilhante – e acontecia também quando o tema tocava o religioso e a fé.

O seu rasgo criativo, mesmo distante do universo crente e católico, permitiu ter com ele algumas conversas estimulantes, bebendo muitas formas de abordagem dos trabalhos ou do entendimento das pessoas, logo desde a primeira reunião que tivemos, meses antes de o Público aparecer. Tenho presente a forma como ele, quando eu hesitava sobre o título para um trabalho que eu escrevera sobre o II Concílio do Vaticano, se saiu com a solução, logo depois de o ler: “Quando a Igreja desceu à Terra”! Ou como, distante da instituição, observava com argúcia o xadrez, a personalidade e os modos de agir de vários responsáveis, por vezes abrindo-me os olhos para leituras que eu não via e, outras, vindo com humildade conversar comigo sobre algum editorial que tocava a questão religiosa. Um gesto que, a alguém que inicialmente olhava para ele quase com um respeito reverente, dizia muito sobre a sua personalidade, no fim amiga, confiante e próxima.

A memória que hoje, 8 de Setembro de 2020, Portugal e o jornalismo português fazemos sobre Vicente Jorge Silva não ficaria completa sem este detalhe. E os detalhes são aquilo que faz a diferença nas personalidades que marcam uma época e um estilo.

 

Novo Pacto para as Migrações: Igrejas reconhecem “boas intenções”, mas continuam “muito preocupadas”

Novo Pacto para as Migrações: Igrejas reconhecem “boas intenções”, mas continuam “muito preocupadas” novidade

Depois de terem emitido um comunicado em que diziam “esperar melhor da Europa e dos seus líderes” em relação à política de acolhimento de migrantes e refugiados, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a Conferência das Igrejas Europeias (CEC) e a Comissão das Igrejas para os Migrantes na Europa (CCME) fizeram questão de entregar o texto em mãos, na passada sexta-feira, 25 de setembro, na sede da Comissão Europeia, em Bruxelas. Recebidos por Vangelis Demiris, membro do gabinete da vice-presidente da comissão, Margaritis Schinas, os representantes das igrejas cristãs em todo o mundo disseram acreditar que há espaço para melhorias no novo Pacto para as Migrações e Asilo apresentado pela Comissão Eurorpeia a 23 de setembro.

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Breves

“Basta. Parem estas execuções”, pedem bispos dos EUA a Trump

O arcebispo Paul Coakley, responsável pelo comité de Justiça Interna e Desenvolvimento Humano na conferência episcopal dos EUA (USCCB), e o arcebispo Joseph Naumann, encarregado das ações pró-vida no mesmo organismo, assinaram esta semana um comunicado onde pedem , perentoriamente, ao presidente Donald Trump e ao procurador-geral William Barr que ponham fim às execuções dos condenados à pena de morte a nível federal, retomadas em julho após uma suspensão de quase duas décadas.

ONGs lançam atlas dos conflitos na Pan-Amazónia

Resultado do trabalho conjunto de Organizações Não Governamentais (ONGs) de quatro países, o Atlas de Conflitos Socioterritoriais Pan-Amazónico será lançado esta quarta-feira, 23 de setembro, e irá revelar os casos mais graves de violação dos direitos dos povos da região, anunciou a conferência episcopal brasileira.

Papa apoia bispos espanhóis para ajudar a resolver estatuto do Vale dos Caídos

O Papa Francisco recebeu os novos responsáveis da Conferência Episcopal Espanhola, com quem falou sobre o papel da Igreja Católica no apoio aos mais pobres e mais fragilizados pela pandemia e sobre dois temas que esta semana estarão em debate nas Cortes de Espanha: eutanásia e lei da memória histórica, com o futuro do Vale dos Caídos em questão.

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O Sea Watch 4 resgatou, de manhã cedo, neste domingo, 23 de Agosto, 97 pessoas que viajavam a bordo de uma lancha pneumática sobrelotada, já depois de ter salvo outras sete pessoas noutra lancha. A presença do navio desde há dias no Mediterrâneo central, é fruto da cooperação entre a Sea Watch, os Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a Igreja Protestante alemã, que promoveu uma campanha de recolha de fundos para que ele pudesse zarpar.

É notícia

Mais de 220 milhões de crianças são vítimas de exploração sexual

No Dia Internacional contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Pessoas, assinalado esta quarta-feira, 23 de setembro, as Missões Salesianas alertaram para o facto de existirem atualmente no mundo mais de 150 milhões de meninas e 73 milhões de rapazes vítimas de exploração sexual, ou obrigados a manter relações sexuais sem o seu consentimento. Outros dois milhões de menores são ainda vítimas de tráfico para fins de exploração sexual, de acordo com a Organização Internacional de Trabalho. Para combater esta “forma de escravidão do século XXI”, os Salesianos têm em marcha projetos de educação e prevenção em diversos países, nomeadamente na Nigéria, Índia e Gana.

Cardeal Tolentino recebe o hábito dominicano

O cardeal José Tolentino Mendonça vai receber o hábito dominicano, no próximo dia 14 de novembro, no Convento de São Domingos, em Lisboa. A iniciativa surgiu da Ordem dos Pregadores (nome pelo qual são conhecidos oficialmente os dominicanos), devido à amizade de longa data que os une ao cardeal e ao reconhecimento da sua forte identificação com o carisma dominicano. “Foi um convite que lhe fizemos e ele aceitou de imediato por se identificar com o carisma de São Domingos, e deu-se a feliz coincidência de, quando ele foi feito cardeal, ter ficado titular da igreja de São Domingos e São Sisto, em Roma. Ele próprio assumiu nesse dia a sua ligação aos Dominicanos”, recordou frei Filipe Rodrigues, mestre de noviços e dos estudantes à agência Ecclesia.

Padre polaco acusa cardeal Dziwisz de encobrir abusos de menores

O padre polaco Isakowicz-Zaleski divulgou no seu blogue pessoal a carta que terá entregue em mãos ao cardeal Stanislaw Dziwisz, arcebispo de Cracóvia, em 2012, na qual denunciava a prática de atos de pedofilia por parte de um outro padre, Jan Wodniak. Zaleski acusa Dziwisz de ter encoberto tais atos, o que o levou a traduzir a carta para italiano e enviá-la, um ano depois, diretamente à Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano. Wodniak viria a ser condenado em 2014. Dziwisz diz nunca ter recebido a carta de Zaleski.

Justiça angolana encerra todos os templos da IURD no país

No mesmo fim de semana em que foram retomados os cultos religiosos em Luanda, suspensos desde março devido à pandemia de Covid-19, a justiça angolana iniciou um processo de encerramento e apreensão de todos os templos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no país. Desde novembro do ano passado que a IURD tem estado envolvida em diversas polémicas em Angola. Em agosto, a Procuradoria-Geral da República tinha já apreendido sete templos em Luanda, no âmbito de um processo-crime por alegadas práticas dos crimes de associação criminosa, fraude fiscal e exportação ilícita de capitais.

Entre margens

A trama invisível da cidadania e o valor de educar

“Em Ersília, para estabelecer as relações que governam a vida na cidade, os habitantes estendem fios entre as esquinas das casas, brancos ou pretos ou cinzentos ou pretos e brancos, conforme assinalem relações de parentesco, permuta, autoridade, representação. Quando os fios são tantos que já não se pode passar pelo meio deles, os habitantes vão-se embora: as casas são desmontadas; só restam os fios e os suportes dos fios.”

Cultura e artes

Encarnando o irmão Luc

Michael Lonsdale era, naquele final do dia, em Braga, o irmão Luc, assim dando corpo e espírito ao monge com o mesmo nome que foi assassinado na Argélia, em 1996. E é inesquecível a sua participação no filme Dos Homens e dos Deuses, que evoca a vida dos monges do mosteiro argelino de Tibhirine, sete dos quais (Bruno, Célestin, Christian, Cristophe, Michel, Paul, além de Luc) raptados e assassinados por um grupo de islamitas.

Michael Lonsdale: “Gostaria de morrer tranquilamente. Em Deus sobretudo”

Um dos mais fascinantes actores franceses, Michael Lonsdale morreu na passada segunda-feira, 21. Uns lembrar-se-ão de ele ter sido o vice-cônsul de Lahore no filme India Song, de Marguerite Duras, outros não ignorarão o facto de ele se ter empenhado em fazer a vida negra a James Bond. Mas Michael Lonsdale participou em filmes de Truffaut, Malle, Buñuel, Spielberg e outros realizadores não menos relevantes.

Sete Partidas

A reunião de trabalho

A reunião de trabalho convocada pela chefe chegou sem surpresa. Mais uma entre tantas. Comparecemos todos. Através do ecrã, a expressão no rosto e o tom da voz denotavam, no entanto, uma intenção outra. Um assunto especial. Havia efectivamente um assunto especial a abordar. Abertamente. Uma autenticidade sem pudor marcou o tom da conversa. Um cuidado humilde e generoso revelado sem condicionamentos.

Aquele que habita os céus sorri

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