Há mais de um mês que em Luanda e creio que um pouco por todas as localidades por onde o Papa Leão XIV irá passar, existe um frenesim diferente que só acontece quando o país recebe visitas importantes como foi a do presidente norte-americano, Joe Biden, em 2024; agora, com a visita do Papa, as ruas voltam a ser varridas e lavadas, o lixo é recolhido, os pedintes são confinados, as fachadas dos prédios são pintadas de fresco, os pisos asfálticos esburacados são renovados, isto apenas e só no trajeto que as visitas irão percorrer.
Nas últimas semanas, os relatos noticiosos das estações públicas de rádio e de televisão dão conta dos trabalhos de preparação para a vinda do Papa Leão XIV. No meio do entusiasmo, tanto os responsáveis públicos como religiosos, sublinham inúmeras vezes palavras como limpeza e remodelação, sem perceberem o que denunciam nas entrelinhas ao tornarem notícia a limpeza e a remodelação.
Sem visitas importantes, Angola continua a ser profundamente desigual e pobre; neste momento, é época de chuvas e já 46 pessoas morreram, segundo o balanço oficial, e acima de 51 mil pessoas foram afetadas. Sem contar com as recentes cheias em Benguela que originaram cerca de oito mil desalojados, dezenas de desaparecidos e, até ao momento, cinco a oito mortos.
Enquanto os preparativos para receber o Papa avançam no centro, em toda a periferia de Luanda, a chuva produz águas paradas e fétidas, ruas secundárias e terciárias enlameadas, lixo acumulado em montes e resíduos que enchem as praias de Cacuaco até à ilha de Luanda.
No entanto, a chuva não é a principal causadora das calamidades. Todos os anos chove, há cheias, inundações, desabamentos, vítimas mortais e milhares de desalojados. Os recém-desalojados em Benguela, como se diz na gíria, vão encontrar os desalojados dos anos anteriores… E somam-se as dificuldades que a maioria da população enfrenta: desumanização, fome, desemprego e condições precárias de habitabilidade.
“País com assimetrias muito acentuadas”, dizem bispos

“As recentes cheias em Benguela originaram cerca de oito mil desalojados, dezenas de desaparecidos e, até ao momento, cinco a oito mortos.” Foto © Administração Municipal de Benguela
Apesar de reincidentes, estas calamidades nunca sensibilizaram suficientemente quem governa para investir em medidas estruturantes que preservem a vida; aliás, é o contrário. O Papa Leão XIV visitará um país onde sobreviver é um milagre e viver é um luxo. Não há muitos dados oficiais publicados sobre a mortalidade adulta, há sobretudo relatórios sobre mortalidade infantil, financiados pelas Nações Unidas e revelam que Angola é o terceiro país de África com maior taxa de mortalidade por cólera, assim como consta entre os países com maior índice de mortalidade infantil.
Continua a ser a malária a principal causa de morte em Angola e imagine-se o que acontecerá depois das chuvas de abril com mais águas paradas e a proliferação de mosquitos…
A mortalidade pode ser aferida empiricamente através de uma ilustração macabra, mas real. Basta ficar 20 minutos à porta de qualquer um dos cemitérios periféricos (Benfica, Mulenvos, Sanzala) para registar, nesse tempo, uma média de entre dez a 15 caixões a entrarem. A facilidade com que se morre em Angola não incomoda os governantes que culpam a população e a sociedade em geral “aceita” por medo e normaliza todos os dias violações de direitos e agressões físicas e psicológicas exercidas por quem tem tanto pequeno como grande poder.
O presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, D. José Imbamba, revelou no passado domingo, 12, que “o país está excessivamente partidarizado, o país está empobrecido, o país está com assimetrias muito acentuadas”; referiu o bispo que espera que a visita do Papa Leão XIV desperte consciências e ajude a superar tensões do passado, tendo em mente as tensões criadas hoje pela forma como o governo negligencia o povo.
Governo legitima violação de direitos e liberdades

Centros de Tratamento da Cólera (CTCs). Foram inaugurados em várias zonas de Luanda. Estes centros têm sido uma linha de defesa essencial para garantir que os pacientes infectados recebam o tratamento de emergência necessário na sua localidade. Foto © UNICEF / Angola/ 2025
2026 é ano pré-eleitoral e desde o ano passado que o governo angolano se dedica a produzir leis que inviabilizam ou dificultam a participação cívica na fiscalização das eleições gerais e prepara-se para uma campanha de provocação e diabolização do maior partido da oposição. Já começou a instrumentalizar partidos pop-up para dispersar os votos na oposição e garantiu, pela quinta vez, a mesma empresa espanhola (Indra) para registar e contar os votos em 2027.
Neste ambiente “minado”, há pouco jovem não alinhado com vontade de votar no próximo ano. Sobretudo depois de nas eleições de 2022, pela primeira vez, jovens por todo o país se terem movimentado para fotografar actas-sínteses afixadas nas assembleias de voto, possibilitando uma contagem paralela em alguns lugares. A recente revisão do pacote eleitoral acabou com a afixação das actas-sínteses e propôs proibir que os cidadãos permanecessem a menos de 1000 metros da assembleia de voto…
A participação cidadã voltou a ser atacada com a lei contra o vandalismo de bens públicos que passou a inibir a organização de manifestações e, com o intuito de travar o desenvolvimento da Sociedade Civil, a Lei 2/26, denominada Lei das Organizações Não Governamentais. Mas apesar dessa designação, a Lei 2/26 vai além das ONG’s, inclui associações, grupos e movimentos organizados, tanto nacionais como comunitários. Sem importar o foco a que se dedica, desde lúdico, a religioso, ambiental, desportivo… Esta lei obriga a que as associações, ONG’s, grupos comunitários e movimentos prestem contas com regularidade, algo que o governo não faz; e a pedido do Instituto de Supervisão das Atividades Comunitárias, ao qual a lei dá poder discricionário, pode suspender a atividade de uma associação, de forma administrativa sem tramitação processual. Este instituto pode ainda, entre outras coisas, determinar que temas e em que áreas as associações podem operar em alinhamento com o programa governamental.
Este é o breve retrato do país que o Papa Leão XIV não vai ver e, possivelmente, os jornalistas que o acompanham não terão acesso, porque os preparativos garantirão que vejam angolanos e angolanas sorridentes, tenham contacto apenas com os que se dizem elite e, mais ao longe, avistarão os habitualmente usados para fazer número nestas ocasiões; muitos deles, genuinamente esperançados numa intervenção divina que os salve do inferno diário de não ter o que comer, morrer por falta de condições básicas e de ver um futuro ininterrupto de miséria de geração em geração.
Verónica Pereira foi jornalista e é colaboradora do Mosaiko – Instituto para a Cidadania
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