O que pensar da meritocracia?

| 22 Fev 2021

“Essa consciência de humildade e gratidão, contra a ilusão da auto-suficiência e contra a divisão entre vencedores e vencidos”. (Foto © Aarón Blanco Tejedor / Unsplash Commons)

 

São hoje correntes as alusões à meritocracia como algo de positivo. Ou seja, como um sistema assente na justa e merecida recompensa do esforço e do trabalho, para além dos privilégios do nascimento e da classe social e dos favores políticos, um sistema que premeia os melhores e, por isso, favorece o progresso. Confesso que nem sempre compreendia as críticas à meritocracia que se encontram, por exemplo, nos escritos de Luigino Bruni, economista que foi o diretor científico do evento A Economia de Francisco.

Michael Sandel é um professor de filosofia política da Universidade de Harvard cujo pensamento tem tido ampla divulgação em todo o mundo. Entre os seus livros mais famosos, e justamente apreciados, contam-se What Money Can´t Buy – The moral limits of markets (O que o dinheiro não pode comprar – Os limites morais dos mercados) e Justice – What´s the rightt thing to do (Justiça – O que devemos fazer?). No seu último livro, The Tyranny of Merit – What´s became of common good (A Tirania do Mérito – O que foi feito do bem comum?), dá-nos uma interessante reflexão que nos leva a questionar os verdadeiros “méritos” da meritocracia.

A tese central do livro é a de que a meritocracia leva a uma ética do sucesso que corrói a coesão social e o empenho pelo bem comum. Leva a pensar que quem tem sucesso, económico ou de outro tipo, recebe uma justa recompensa pelo seu trabalho, esforço e criatividade e que quem não tem sucesso sofre as consequências das suas faltas de empenho e diligência. Compreende-se que desta forma se aceitem as desigualdades de rendimentos e de reconhecimento social e a coexistência de dois mundos paralelos que não formam uma verdadeira comunidade. De um lado, temos a soberba (a hubris) dos vencedores, que olham com indiferença a sorte dos vencidos. De outro lado, temos o ressentimento e revolta dos vencidos. A tendência será a da indiferença perante a pobreza e até a culpabilização dos pobres pela sua situação, como tem sublinhado Luigino Bruni.

Para Michael Sandel, a globalização económica tem seguido esta lógica da meritocracia, com os seus vencedores e vencidos. As políticas seguidas por políticos de centro-direita e de centro-esquerda, com maior ou menor confiança nas regras do mercado, também têm seguido essa lógica (mais nos Estados Unidos, mas também na Europa): há que garantir uma igualdade à partida, uma igualdade de oportunidades, sem que daí tenha que resultar uma igualdade de resultados. Importante é garantir a possibilidade de cada um “subir na vida” (a famosa imagem do “elevador social”). Este fenómeno explica a atração que as propostas populistas têm tido junto dos vencidos da globalização, que em grande medida coincidem com as pessoas com menos qualificações académicas.

O livro questiona que a meritocracia corresponda à aplicação de verdadeiros critérios de justiça. Não apenas porque é muito difícil garantir a igualdade de oportunidades (a igualdade à partida); ou porque nenhum sucesso individual ocorre sem contributos da comunidade no seu todo; nem também por o valor económico dado pelos resultados do mercado não coincidir com o valor moral; mas, desde logo, porque os talentos (intelectuais ou físicos) são um dom natural e gratuito. É verdade esses talentos podem, ou não, ser desenvolvidos e postos a render pela iniciativa, pelo trabalho e pelo esforço, mas a iniciativa, o trabalho e o esforço nunca anulam diferenças naturais e inatas. Este facto deveria gerar a humildade e a gratidão da parte de quem tem sucesso, mais do que a soberba e a ilusão de auto-suficiência geradas pela meritocracia.

Essa consciência de humildade e gratidão, contra a ilusão da auto-suficiência e contra a divisão entre vencedores e vencidos, são essenciais para cimentar a coesão social e gerar a consciência de um projeto ao serviço do bem comum no âmbito de uma democracia autêntica. Não pode surgir um projeto comunitário comum entre grupos sociais que vivem em universos separados.

Uma leitura da tese deste livro à luz dos princípios da doutrina social da Igreja, sugere-me os comentários seguintes:

Ao analisar a génese histórica da meritocracia, Michael Sandel alude às suas raízes teológicas. Alude à ética do trabalho influenciada pelo pensamento protestante, na linha da tese de Max Weber sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo, com a tendência para ver no sucesso económico um sinal da recompensa divina (apesar de esta consequência contrariar a ideia luterana e protestante da salvação como dom imerecido). Alude também às mais recentes correntes da “teologia da prosperidade” que inspiram setores evangélicos e algumas seitas. Justificar-se-ia, a este propósito, referir como a mensagem bíblica, do Antigo e do Novo Testamento, contraria uma visão do sucesso mundano como sinal da recompensa divina: quando se proclamam “bem aventurados os pobres” e “os que choram” e quando se revela um Deus que se identifica com os pobres e experimenta o mais absoluto insucesso mundano ao morrer crucificado.

Para além dos capítulos relativos ao diagnóstico dos males da meritocracia, no capítulo das propostas alternativas (que, devo dizer, poderia ser mais desenvolvido e completo), Michael Sandel destaca a importância do reconhecimento social da dignidade do trabalho (de todo e qualquer trabalho) como modo de realização da pessoa. Cita a propósito, e oportunamente, a encíclica Laborem Exercens de São João Paulo II e o documento dos bispos norte-americanos Economic Justice for All (Justiça Económica para Todos), de 1986.

A noção de “bem comum” de Michel Sandel, e o relevo que este lhe dá, de algum modo se aproximam (sem com eles se identificar) da noção da doutrina social a Igreja e do relevo que, nesta, o bem comum assume como princípio fundamental. Michael Sandel rejeita uma noção de “bem comum” como soma de preferências e interesses individuais de simples consumidores, que se limita à atividade económica. Alude a uma conceção cívica do “bem comum”, como projeto comunitário de uma sociedade boa e justa, de finalidades partilhadas, que cultiva virtudes cívicas e que permite a cada um viver vidas valiosas e realizadas (worthwile and flourishing lives). Na visão da doutrina social da Igreja, e segundo a definição da Gaudium et Spes (n. 26), o bem comum é “o conjunto das condições da vida social que permitem a todos, aos grupos, como a cada um dos seus membros, alcançar mais fácil e plenamente a sua perfeição”.

Em suma, estamos perante uma reflexão que, apesar de bastante centrada na realidade norte-americana, merece toda a atenção e destaque, como merecem os anteriores livros de Michael Sandel.

 

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica

 

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