O que podemos aprender com a derrota da abstenção

| 13 Mar 2024

Voto. Eleições

“Curiosamente, e independentemente de tudo o que alguém possa pensar sobre cada partido que assumiu alguma preponderância, a abstenção mais reduzida dos últimos 20 anos mostrou uma tendência: a diversidade política. E essa tem uma exigência.” Foto © Tumisu / Pixabay

 

Após as eleições de dia 10 de março, não estou tão feliz por quem ganhou quanto estou feliz por quem perdeu: a abstenção. Nunca apreciei quando alguém nos nossos grupos apela ao voto num determinado partido sob o pretexto de que esse seria o voto cristão porque os cristãos deviam estar presentes em todos os partidos. Mas o que procurei fazer desta vez e vi outros fazerem também, foi um apelo sensato ao voto em si para dar sinal ao mundo de uma democracia saudável. Curiosamente, e independentemente de tudo o que alguém possa pensar sobre cada partido que assumiu alguma preponderância, a abstenção mais reduzida dos últimos 20 anos mostrou uma tendência: a diversidade política. E essa tem uma exigência.

Há décadas que os governos oscilam sistematicamente pelas duas maiores forças políticas em Portugal (PSD/AD e PS), mas nestas eleições surge o Chega como terceira força política, e com visões muito distintas dos outros dois. Muitas pessoas temem pelo aumento daqueles que partilham de uma visão a que chamam de extrema-direita, cujo nacionalismo vai contra o espírito tipicamente português e que o Papa Francisco expressou tão bem durante as Jornadas Mundiais da Juventude quando disse — «Todos. Todos. Todos.» — Imagino o multiplicar das leituras deste resultado, referindo que a emergência de uma terceira força política deve-se a uma nova forma de protesto, ou que as pessoas estão cansadas deste ping-pong político que dura há demasiado tempo, sem que sintamos que o país está melhor. A leitura que faço vai no sentido daquilo que durante o processo de reflexão mais pensava: a exigência da diversidade política está na capacidade de dialogar.

O medo pela instabilidade que podemos sentir neste quadro político poderá relacionar-se com a gradual diminuição do exercício de diálogo autêntico que temos assistido nos últimos anos. Há tempos, quando um amigo ateu dizia que num diálogo todos temos de chegar à mesma conclusão, eu rebatia que não me parecia ser necessariamente assim. Num diálogo aprofundamos mais a nossa visão com a diferença da visão do outro, independentemente de chegarmos ou não à mesma opinião ou conclusão. O desafio em política é que o diálogo visa chegar a uma decisão e uma boa parte das pessoas tem dificuldade em conceber que nem sempre é a opinião de um, ou de outro, ou ainda de um terceiro que deve vingar, mas antes a quarta opinião que emerge do diálogo entre as três visões distintas. E relativamente a esta experiência de diálogo criativo, a política portuguesa parece ter pouco treino. Nesse sentido, tenho alguma curiosidade em saber se aproveitaremos esta oportunidade para amadurecer a capacidade para o diálogo, ou incrementaremos ainda mais aquilo que nos divide, perdendo demasiado tempo com banalidades.

Quando estava no 7ºano, um amigo incitou-me a lutar com alguém que conhecia de vista, mas muito pouco. Quando chegou o intervalo, combinámos a luta no pátio e lá fomos nós feitos garimpeiros à procura do ouro estupidificante do murro na cara do adversário. A memória que guardo daquela luta é a de uma verdadeira comédia de esmurrarmos e pontapearmos mais o ar que o outro. Talvez porque interiormente sentíamos a incomensurável inutilidade daquele desentendimento sem préstimo. A verdade é que depois daquela idiotice nos tornámos grandíssimos amigos, pelo que há males que vêm por bem. Estaremos diante de uma situação semelhante?

Por que razão temos tanto receio da diversidade política? Por que razão não haveria espaço para uma quarta ou até quinta força política? Posso estar errado, mas um país que sente estabilidade apenas com maiorias absolutas, parece-se cada vez mais com uma criança que tem 50 anos e vive ainda a rebeldia da adolescência. Se a abstenção sai derrotada, ainda não é certa a vitória do diálogo político criativo como chave de amadurecimento de qualquer democracia, a começar pelas nossas comunidades de vida e de fé.

A Igreja Católica está a trilhar um caminho luminoso com a sinodalidade e sabemos que não é fácil percorrê-lo. Será que uma democracia saudável poderia inspirar-se nesse caminho sinodal? O testemunho que podemos dar ao mundo com esta experiência pode, a meu ver, elevar o grau de maturação da vivência social e até política da humanidade em qualquer parte do mundo. E se os nossos parlamentos se especializassem em diálogo com espírito sinodal? Neste modo de ser e estar, a escuta prevalece sobre o berro; a curiosidade pelo conhecimento profundo da proposta do outro prevalece sobre a certeza de que a nossa proposta é a melhor; e a mente sintetizadora prevalece sobre a incapacidade de acolher o positivo no pensamento do outro. Quem se der conta de que pertencer ao parlamento é um serviço a todos, não pode excluir nada, nem ninguém, mas observar tudo e reter o que nos torna mais unidos. Só receia a diversidade, quem nunca experimentou a riqueza do seu valor.

 

Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro palavras (publicação de Autor) e  “de “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (BertrandWookFNAC). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao

 

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