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O que queremos realmente? 

| 11/06/2023

Paisagem Berlim

Foto © Inês Patrício

 

O que é que nós queremos realmente? Confusamente, nebulosamente, sabemos que queremos muito ser. Humanamente – e talvez não haja nada mais humano – desejamos algo que nos resgate deste nada em que, sem saber como, mergulhámos, como se, algures pelo caminho, tivéssemos perdido algo de absolutamente essencial.

Ansiamos por uma certeza que nos resgate. Não podemos aceitar, no mais íntimo de nós mesmos, que a nossa vida possa ser falhada, sem sentido, sem uma glória qualquer. Julgamo-nos intrinsecamente chamados a ela. Queremos ser chamados. Queremos ouvir a voz da vocação, a voz da sarça. Queremos estar no centro das coisas; queremos ser amados, porque ser amado é descobrir que se É. É sentir-se ser. É ser resgatado do nada, do esquecimento, do vazio, da viciosa solidão, da mediocridade, do sem-sentido.

No essencial, queremos ser amados pelo que somos, para sermos aquilo que somos. O nada em que nos velamos pela imensidão das nossas vaidades não nos pode dar esse amor. Porque, antes de podermos ser amados, temos de nos tornar amáveis. E só a verdade nua pode ser amável, pois só da verdade nua que se é se pode extrair alguma beleza. Ninguém ama uma aparência. Ninguém ama um nada. Ninguém ama a árvore boa que não dá bom fruto.

Quando exprimimos algo belo, quando realizamos algo bom, quando somos honestos com as vibrações íntimas dos nossos corações, nem que seja só falando ou escrevendo, já nos sentimos menos “nada” e mais de acordo com a corrente da vida. No meio desta sede de Deus que nos assola, desta sede de significado e sentido que nos consome, resta-nos a verdade que podemos exprimir, a beleza que podemos criar, o bem que podemos fazer. E talvez aprender um pouco mais todos os dias a arte de amar, que consiste em renunciar ao seu próprio nada para ir ao encontro da verdade em todas as coisas. Sair de si, das ideias feitas, dos laços e parentescos confortáveis, das filiações fechadas, dos chauvinismos, dos medos, dos círculos viciosos de egoísmo e autorreferenciação, e apresentar-se vulnerável no contacto com novas realidades e horizontes, porque não há nada no mundo, por mais remoto, que não nos possa revelar lugares insuspeitados da nossa própria alma. Desde que saibamos estar atentos e nos abramos à realidade.

“Não tenham medo do mundo, nem do futuro, nem das vossas fraquezas.” (Bento XVI)

Na vida, devemos cultivar a honestidade. Nem querer parecer mais do que se é, nem menos. Ser simplesmente, com honestidade e verdade. Fazer o que tem de ser feito; dizer o que tem de ser dito. Em obediência ao sentimento mais sublime, à vocação mais alta. Nada mais. Aquilo que está inchado, dizia Santo Agostinho, pode parecer grande, mas não é saudável. E hoje vivemos num mundo de muitos inchados, mas de pouca real grandeza. A descoberta da nossa grandeza passa, em primeiro lugar, pelo reconhecimento do nada em que nos tornámos, fruto do esquecimento em que mergulhámos acerca do que nos alimenta a alma. Por não termos cultivado aquilo que é próprio da nossa natureza – espiritual, mais do que animal. Porque, na realidade, somos tudo. O mistério absoluto do que somos não tem limites.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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