Leituras de Páscoa (5)

“O Que Quero dizer ao Morrer”

| 29 Mar 2024

 

Nas últimas semanas, o 7MARGENS publicou um “Diário de Caminho” de Cláudio Louro, como peregrino de Santiago, e iniciámos a publicação do “Diário de um jejuador”, da autoria de Khalid Jamal, como propostas para a reflexão a propósito de tempos fortes para os cristãos (a Quaresma) e para os muçulmanos (o Ramadão) respectivamente. Ontem, 28 de Março, os cristãos celebraram a Quinta-Feira Santa, o início do Tríduo Pascal que culmina no Domingo de Páscoa.

Tendo em conta a centralidade e importância da Páscoa no calendário cristão (os ortodoxos celebram-na, este ano, apenas no início de Maio, uma vez que seguem o calendário juliano), o 7MARGENS pediu a colaboração de duas editoras, Editorial AO e Paulinas, no sentido de podermos publicar excertos de algumas obras que ajudem à reflexão para e sobre estes dias, sempre na relação com o tempo histórico que estamos a viver. Em resultado da escolha feita, aqui reproduziremos diariamente excertos de dois livros, até Domingo, agradecendo desde já a disponibilidade das editoras para esta iniciativa. 

 

A capa de O Que Quero Dizer ao Morrer, de Maria Margarida Teixeira.

A capa de O Que Quero Dizer ao Morrer, de Maria Margarida Teixeira.

Escrever sobre o fim da vida, uma tarefa arriscada

Em O Que Quero Dizer ao Morrer, Maria Margarida Teixeira dá a conhecer o modo pessoal de viver a oncologia, inspirado numa prática com rosto humano que pretende preservar os valores essenciais da Medicina no acompanhamento de pessoas com doença avançada. A história dos últimos tempos de vida de cada uma das pessoas deste livro abre os nossos olhos para outra dimensão e faz-nos acreditar que há muita vida no fim de uma vida. Neste livro abordam-se temas tão diversos como a esperança, o amor, a transcendência, a permissão de morrer, o ritual do fim de vida, a força da ternura, o controlo sintomático, os mitos da medicina, a impotência dos médicos, o pedido para morrer e o hospital onde se morre. A autora estudou Medicina na Universidade de Coimbra e é atualmente assistente hospitalar graduada em oncologia médica no Instituto Português de Oncologia em Coimbra.

 

Capelão num hospital junto de um doente (P. António Pedro Monteiro no Hospital de Santa Maria, em Lisboa). Fevereiro de 2015. Foto © António Marujo.

 

Escrever sobre o fim de vida é uma tarefa arriscada. Eu, porém, ousei escrever para dar a conhecer a humanidade dos últimos momentos. Há muita vida no fim de uma vida. E essa vida merece ser vivida sem pressa e sem precipitações. O corpo despede-se e a morte surge, naturalmente, no tempo. 

Acompanhar pessoas com doença oncológica muito avançada faz parte da minha atividade clínica diária. Trabalho há quase três décadas, como oncologista, no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra e, por isso, já assisti, no terreno, à morte de várias pessoas. 

Este livro é a história de como acompanhei as pessoas que mudaram a minha perspetiva clínica sobre o processo da morte. A minha gratidão por cada uma destas pessoas é eterna. Conhecê-las foi um privilégio. Com elas cresci e amadureci como oncologista e como ser humano. O seu modo de ser e, em especial, o modo como viveram a última etapa da sua vida, cada uma à sua maneira, continua a ensinar-me e a inspirar-me. (…) (Da Introdução)

Ajude-me

O silêncio na enfermaria é cortado por tosse incessante. Aproximei-me. Encontrei um jovem ofegante sentado à borda da cama. Tossia, tossia sem descanso. Quando me abeirei dele, estava dobrado sobre si mesmo. Segurava com as mãos uma tacinha para onde expelia, com muita dificuldade, as secreções sanguinolentas produzidas pelo tumor. Este jovem tinha a vida por um minuto! Curvei-me perante ele. Captei o seu olhar vivo. Junto dele toco-lhe levemente nas costas com a minha mão. O silêncio atacara a minha voz. Por alguns minutos a dispneia amainou e a sua respiração tornou-se mais pacífica, permitindo-lhe romper o silêncio murmurando: 

– Tenho sofrido tanto… – Pausa. – Já não durmo há mais de dois meses. Ajude-me.

– Vou ver o que posso fazer – respondi. 

Saí do quarto, caminhei pela enfermaria em passo acelerado. Revi a tabela terapêutica impressa no processo clínico. Ao percorrer a medicação prescrita procuro libertar-me da sensação de impotência devastadora que estava a sentir. Contudo, havia ainda muito a fazer. Para aliviar a dispneia severa do Ricardo foi administrada morfina na dose correta, na via de administração certa e no tempo certo.

Mantive-me junto do Ricardo até adormecer. O seu repouso durante a noite deslizou pela enfermaria. Dormiu algumas horas. Despertou horas mais tarde, mais aliviado da tosse e da dispneia. Iniciei o meu novo dia de trabalho comovida ao ouvir o jovem dizer-me que tinha dormido como um anjo.

Algumas horas depois volto a visitar o Ricardo. Estava sentado no cadeirão. Gotas de sangue pingavam pelas narinas e pelos cantos da boca. O ar que tentava sugar parecia volátil. Mesmo assim, quis andar até à janela. Fomos abraçados até à janela. Depois quis sair do quarto até ao refeitório. A meio da enfermaria sentou-se. Gotas de sangue pingavam. Não falámos. Eu sabia que ele sangrava por todos os vasos sanguíneos rotos dentro de si. O Ricardo sentia o coração a ganhar asas. De regresso ao quarto, na cadeira de rodas, agarrando fortemente os meus braços, suplica:

– Ajude-me. 

Apercebi-me que era chegado o momento de me aproximar. Gotejaram mais fios de sangue e eu limpei-lhe o rosto. Coloquei-me atrás dele e abracei aquele corpo frágil com os meus braços. A morte, entretanto, chegou por si própria. Em silêncio, comovi-me com a serenidade do Ricardo a morrer e deixei que sentisse que ocupava um lugar, muito especial, no meu coração! Morreu abraçado, sem necessidade de mais medicação. 

 

“Sempre que abraço alguém aproximo-me de mim própria. A certa altura, é difícil saber quem acompanha quem, porque a pessoa que está a morrer não é menos do que eu.” Na imagem, escultura “Abraço” de Alfredo Ceschiatti. Museu de Arte da Pampulha – Belo Horizonte. Foto © Jani Pereira, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

 

Ao ler este caso clínico, muitas pessoas pensarão que eu pratiquei a eutanásia. O Ricardo, em grande sofrimento, pediu-me ajuda. Eu, como oncologista, prescrevo uma injeção de morfina e a morte acontece 24 horas depois. Contudo, não foi nada disso que eu fiz. Eu utilizei a morfina para tratar a dispneia severa do Ricardo e não para pôr termo à sua vida. Na dispneia severa, a morfina está recomendada clinicamente. Deste modo, estava nas minhas mãos o alívio do seu sofrimento respiratório utilizando eficazmente a morfina para o efeito. Administrei morfina na dose certa e na via de administração correta, sabendo por experiência que o alívio do sofrimento respiratório através de um sono reversível permite ajudar sem matar. E, na verdade, ao fim de algumas horas o Ricardo acorda mais solto, dizendo-me que tinha dormido como um anjo.

Mais tarde, nesse mesmo dia, o Ricardo volta a pedir-me ajuda, desta vez para morrer. A morte estava a chegar e ao pedir-me ajuda o Ricardo pediu-me simplesmente que o ajudasse a desprender-se, a abandonar-se. Como se, para morrer, o Ricardo precisasse de largar a sua vontade e o seu controlo. Abracei o Ricardo. Tudo o mais não dependia de mim. Permaneci ao seu lado. O Ricardo não era descartável. O medo podia existir, mas a serenidade foi possível. A espera foi vivida com afeto. A morte não foi precipitada: aconteceu naturalmente no tempo certo. O Ricardo soube morrer e eu, apesar da minha impotência, não tive medo de estar ali.

Abracei o Ricardo porque amo o que faço. Sempre que abraço alguém aproximo-me de mim própria. A certa altura, é difícil saber quem acompanha quem, porque a pessoa que está a morrer não é menos do que eu, mas é autêntica como eu! No acompanhamento, o benefício é recíproco e tudo o mais é vida!

O Que Quero Dizer ao Morrer, de Maria Margarida Teixeira
136 pág., Editorial AO

 

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