[Nas margens da filosofia]

O que sabemos dos nossos refugiados?

| 29 Jul 2022

Pai despede-se da sua família na Ucrânia. Foto © ACNUR

Pai despede-se da sua família na Ucrânia. Dado que os homens ficam a combater pelo seu país, os adultos que nos chegam da Ucrânia são quase exclusivamente mulheres com as suas famílias de crianças e adolescentes. Foto © ACNUR

 

Os refugiados, atirados de país em país, representam a vanguarda dos seus povos.
Hannah Arendt [1]

 

A guerra da Ucrânia, como todas as guerras, teve/tem como consequência um número cada vez maior de pessoas que dela fogem, predominantemente mulheres e crianças, muitas vezes trazendo consigo os seus animais de estimação. Assistimos de novo àquilo que pensávamos nunca mais voltar a acontecer na Europa depois das duas últimas grandes guerras – a fuga massiva de migrantes obrigados a sair do seu país para se manterem vivos. E trata-se de gente que até há poucos meses vivia bem, em cidades cuidadas e bonitas, com jardins, monumentos, escolas e igrejas maravilhosas, num ambiente pacífico que os seus habitantes nunca sonhariam ter de abandonar.

De há algum tempo para cá, habituámo-nos a ver nos telejornais a chegada de pessoas como nós, que no entanto, devido às circunstâncias, se tornaram dependentes da boa vontade alheia. Embora a designação de refugiados não se lhes aplique frequentemente, o facto é que o são, tal como os outros fugitivos de catástrofes e de guerras. Dado que os homens ficam a combater pelo seu país, os adultos que nos chegam da Ucrânia são quase exclusivamente mulheres com as suas famílias de crianças e adolescentes.

Pensar no sofrimento que representa esta alteração de vida levou-nos a recordar Hannah Arendt, uma filósofa que viveu esta situação. Arendt sentiu na pele o estatuto de refugiada e escreveu sobre ele, nomeadamente na sua grande obra em que analisou o sistema totalitário.[2] É pela mão de Arendt que analisamos estes novos (e diferentes) refugiados que recentemente temos recebido. E em primeiro lugar, interrogamo-nos, tal como ela o fez, sobre a quem devemos atribuir este estatuto, dado que, em si mesmo, o termo “refugiado” não tem fronteiras nítidas, podendo nele integrar-se os que se deslocam dos seus países de origem, os fugitivos, os que pedem asilo, os migrantes.

Ao falar daqueles que Hitler e o Terceiro Reich perseguiram, Arendt procurou uma designação que a todos conviesse e que, na realidade, continuasse a ser aplicável aos que hoje fogem dos seus países de origem devido a guerras, perseguições e cataclismos de vária ordem. A filósofa escreveu sobre todos eles, definindo-os como “(…) desafortunados, que chegaram sem meios a um novo país e que têm que ser ajudados.”[3] E na multiplicidade de causas que os obrigaram a fugir, o que melhor os define e une é o sentimento de perda – da pátria, da família, dos empregos, dos hábitos, da língua. Ao assumir-se como refugiada, Arendt disse de si mesma: “Não sei quais as mudanças e os pensamentos que de noite habitam os nossos sonhos, (…) mas muitas vezes imagino que, pelo menos durante a noite, pensamos nos nossos mortos ou recordamos os poemas que amávamos outrora.”[4]

Para os habitantes do país que os acolhe, os refugiados são seres estranhos – pela fala, pelos hábitos, pela língua e por todo um passado que deixaram para trás. Eles próprios se tornaram estranhos, quer para si mesmos quer para os seus familiares. São-no pelo facto de terem perdido aquilo que os distinguia, ou seja, a sua identidade primitiva. E a assimilação é algo que lhes é imposto como passaporte para evitar discriminações.

Pensando na situação dos refugiados que temos recebido, conversei com Laryssa Zazorina, uma amiga ucraniana que há alguns anos escolheu Portugal como sua segunda pátria e que hoje se empenha em facilitar a adaptação dos seus conterrâneos a uma nova vida. Interrogando-a sobre aquilo que mais estranham quando chegam ao nosso país percebi que para além dos traumas da guerra que inevitavelmente os marcaram, uma das grandes dificuldades é a comunicação – para a maioria, a segunda língua em que se exprimem é o russo, nomeadamente os mais velhos, pois os jovens dominam relativamente bem o inglês. De facto, até 1991, o idioma mais usado nas grandes cidades era o russo, enquanto nas pequenas vilas e aldeias se falava ucraniano.

Mas para além da preocupação com os familiares que deixaram e da insegurança com a sua situação de refugiados, os ucranianos que se acolheram em Portugal, interrogam-se quanto às possibilidades de um eventual regresso, inquietam-se quanto às casas que deixaram e que possivelmente já não existem, choram as suas cidades que conheceram intactas e belas e constatam, horrorizados, a destruição maciça do seu país, através dos noticiários televisivos.

Da grande leva de refugiados que vieram para Portugal no início da invasão russa, alguns optaram por retornar à Ucrânia, com a esperança de um fim rápido da guerra. Para os que optaram por ficar, uma das grandes preocupações é o emprego, o que tem sido possível em trabalhos considerados “inferiores”, mas pouco gratificantes para os dotados de habilitações que lhes permitiriam outro tipo de realização e de salário.

A comida é outro dos problemas, pois os hábitos alimentares são diferentes. Segundo a minha amiga Laryssa a primeira reação às cenouras e batatas portuguesas foi considerar que eram falsas pois estavam habituados a vê-las cobertas de terra. Mas aos poucos foram-se habituando aos novos pratos, a comer peixe, e até já gostam de bacalhau, que começou a fazer parte das suas ementas.

Fazendo um inventário daquilo que mais lhes tem agradado, para além do acolhimento generoso das famílias e da solidariedade de conterrâneos seus residentes há anos em Portugal, nota-se um especial apreço pelo mar, pelas praias, pela luminosidade, pelo permanente sol, pelo ar puro. E no dizer de Laryssa foram muito apreciados os passes sociais que lhes permitiram circular livremente, bem como os cartões oferecidos pelas companhias telefónicas, um bem precioso para a comunicação com familiares e amigos. Igualmente de referir como fator positivo a distribuição de computadores aos jovens, permitindo-lhes a prossecução dos seus estudos, o acolhimento nas escolas, a assistência médica e psicológica, as dádivas de medicamentos – houve doentes crónicos que chegaram com dois comprimidos no bolso.

 

*  *   *

 

Relativamente a esta recepção dos ucranianos por parte de Portugal, o balanço parece ser positivo. Mas há que manter firme esta ajuda dinâmica, tendo sempre presente as fragilidades dos recém-chegados. Recorrendo mais uma vez a Hannah Arendt, lembremos que “são muito poucos os indivíduos com o vigor necessário para manter a sua integridade quando o seu estatuto social, político e legal se encontra completamente confundido.”[5] Ora a situação futura destes nossos novos amigos, bem como a da sua pátria, está longe de ser clara.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.

[1] Giorgio Agamben, in Hannah Arendt , Nós, refugiados e Giorgio Agamben, Para lá dos direitos do homem, trad. José Miranda Justo, Lisboa, Antígona, 2021, pg. 50.
[2] Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism, New York, Harcourt, 1951, trad. portuguesa O Sistema Totalitário, Lisboa, D. Quixote, 1978.
[3] Nós Refugiados, pgs. 15-6.
[4] Ibidem, pgs 20-21.
[5] Nós Refugiados, pg. 36.

 

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