
Na explosão dolorosa e apocalítica do dia 11 de setembro de 2001 convergiram os dislates da intransigência religiosa e dos milenarismos que insistiam ser o terror uma medida que alguns consideram legítimo para impor os seus ideários. Mais uma vez se demonstra que para muitos os outros não contam. Na foto: a antiga Igreja de S. Nicolau, no dia 11 de setembro de 2001, antes da derrocada de uma das torres gémeas. Foto: Direitos reservados.
Recordo o dia 11 de setembro de 1973 como um momento de grande indignação interior e de impotência. Dias depois, lia no Notícias de Amadora mais alguns aspetos sobre a morte de Salvador Allende [no Chile], suicídio ou assassinato, percebendo nessas circunstâncias que o empenhamento por uma sociedade mais justa, passando pelo empenhamento político, lidava sempre com forças muito poderosas que tudo faziam para castigar todos aqueles que aspiravam a mais igualdade, a maior liberdade e a justiça realmente servindo os mais frágeis e carecidos. Nessa época em que se intensificavam as exigências para contrariar uma guerra colonial que a loucura nacionalista procurava manter pela persistência de uma ilusão imperial desgastada e sem futuro. Diante dessa tristeza íntima, confrontei-me progressivamente com algo de tenebroso: a acomodação que acaba por considerar inútil qualquer esforço para querer mudar a realidade, pois esta, tal como se apresenta, é conveniente para manter os interesses pessoais, dos grupos e daquilo a que chamamos nações. A mitificação das nações é provavelmente um dos cancros subtis que gangrenam as relações de todos na humanidade.
Os homens e as mulheres cresceram em número, aumentaram as capacidades industriais e de comunicação, com a televisão a cores aproximámo-nos mais da realidade tal qual, mas neste percurso também fui percebendo a permanente insatisfação da dominação humana apesar de muitas pontes, de muitas autoestradas, de comboios modernos e de grande velocidade, e até de roupa mais barata porque em certos pontos do mundo se mantém pessoas, adultos ou crianças a trabalhar para outros, auferindo o insuficiente para sobreviver. Mesmo assim, no seio desta realidade que progride injustamente, surgem e permanecem vozes e existem experiências que alimentam uma consciência, não só de resistência, mas de afirmação da liberdade, da não exclusão e aberta a novos paradigmas de realização pessoal e de aspirações de vida em comum. Todos os dias dão a sua vida, ou parte dela, para afirmar e para concretizar outras formas de vida onde o outro existe respeitado e livre.
Na explosão dolorosa e apocalítica do dia 11 de setembro de 2001 convergiram os dislates da intransigência religiosa e dos milenarismos que insistiam ser o terror uma medida que alguns consideram legítimo para impor os seus ideários. Mais uma vez se demonstra que para muitos os outros não contam; pelo contrário, são encarados como obstáculos a abater. Todos estes mecanismos retorcidos, próprios da vontade de dominação, não só são interiorizados, justificados, como exaltados, e sabem bem utilizar os múltiplos meios de comunicação de massa e respetivas redes.
Neste último ano, muitas destas mágoas e sofrimentos tornaram-se costumeiros e indiferentes, sendo que o estridente informativo tende a banalizá-los. Estas situações que cinicamente se justificam e se consideram ser o reconhecimento do realismo necessário para uns e outros sobreviverem.
No que respeita a banalização, tornaram-se comumente justificados os argumentos da “geoestratégia” que pretendem legitimar as soberanias nos interesses que cada Estado ou Estados, considerando pertença sua as populações, exibindo uma supremacia que só a força sustenta. Consideram-se as pessoas como sujeitos “naturalmente” submetidos a um qualquer “direito ou desígnio superiores”, recorrendo despudoradamente a uma confessionalidade imposta ou à evocação em salvar a “sociedade em nome de Deus”. As pessoas são tomadas como propriedade, sendo a governação exercida e reivindicada como um poder autoritário e incapaz de reconhecer a diversidade e a pluralidade na vida comunitária e nas vicissitudes existenciais de cada um.
A loucura de regimes comporta uma sofreguidão de corrida ao armamento, de forma muito especifica ao nuclear, em nome de uma suposta soberania que é considerada mais relevante do que a alimentação e a liberdade das suas populações. O medo da liberdade democrática que, recorrendo não só a golpes militares, esmaga as populações – homens, mulheres, anciãos e crianças – na morte, na fome. Estes governos que procedem assim não deixam de ser frequentados e apoiados por potências que, ao mesmo tempo, publicamente dizem pretender uma nova ordem no mundo, mais justa e compartilhada. O engano torna-se um método de governação que tende a reprimir, e cada vez mais de forma sofisticada, quando contestado.
Não falta também a evocação do termo “Deus” para apontar a fonte deste “bem comum” chegando ao ponto de condenar à morte aqueles que, acusados por leis trapalhonas dos homens, são considerados inimigos de Deus. Há uns que pretendem encarnar o Estado como “a luz para todos” e outros que usurpam o lugar de Deus acusando os outros de blasfemos ou com essa categoria que se generalizou como “os que são contra a vida”. Defende-se a vida com impropérios contra aqueles que são distintos, sabendo mesmo que se está esmagando outros. O essencialismo domina como sendo a verdade porque se tem receio do dinamismo, do movimento, que todos são capazes de desenvolver.
Não se trata de encarar “a realidade como negra”, mas de valorizar no quotidiano onde se encontra a atitude de transformar os medos na exigência de mais justiça e liberdade. Há mulheres e homens, jovens e adultos, que em todas as sociedades se mexem para mudar as situações, para reinserir, para integrar, para superar o que foi cristalizado como sendo a tradição, o mesmíssimo ou para alterar aquilo que é considerado como “não podendo deixar de ser” porque tomado como realismo prático. Contudo, todos aqueles e aquelas que “se levantam do chão” são testemunhas da resistência, da esperança e da ressurreição, isto é, afirmam que a realidade transporta as energias adequadas para que a justiça e a liberdade sejam possíveis e não uma simples idealização específica de uma determinada cultura, mas próprias da destinação de todo o ser humano.
Mais recentemente e mais perto de nós, entristece ver e ouvir àqueles que, e em certas ocasiões, defenderam “a autodeterminação dos povos” ou reivindicaram a “luta antifascista”, desvalorizar agora a situação de populações que são quotidianamente bombardeadas e aniquiladas com argumentações da necessidade de as combater para antecipar e contrariar o perigo que podem constituir ou vir a formar. As ideologias e a fixação de projetos societários não morrem, matam. A esta mitificação, que sustenta as reais formas de dominação, não fogem as religiões ou as sapiências de subordinação que em nome de uma autorreferência se tomam como a única verdade à qual cada um se tem de submeter para que “o mundo não caia”. Mas que mundo?
Numa qualquer manhã, fria e enovoada, ou calorenta e brilhante, com metralhadora nas mãos e botas cardadas, surge sempre e em muitos sítios quem está disposto a matar, numa época em que se tornou normal e economicamente rentável as turbas de mercenários.
Podemos, cada um e em conjunto, tomar consciência de e aprofundar todas estas situações. A indignação íntima e sincera é um primeiro passo para o agir. O tempo atual é desafiante para um constante sobressalto capaz de impedir formas de iniquidade, as que estão longe e as mais de perto, no trabalho, nas relações sociais ou nos lugares pelos quais temos responsabilidade.
Em cada dia pode-se aprender muito, pois cada dia pode tornar-se o primeiro da nossa vida, uma vida mais livre e justa.
Lisboa, 29 de maio de 2023
António Matos Ferreira é historiador e membro do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), da Universidade Católica Portuguesa.










