O que tem a religião a ver com a escola pública?

| 15 Mai 19

Os ateus diriam que nada, os crentes que sim senhor, e por isso vão tentando ganhar espaço nela, mas muitos estranham a ideia, apesar de qualquer religião poder já hoje lá estar presente.

 

Durante muitos anos as escolas públicas ostentavam na parede, junto ao quadro negro, um crucifixo mesmo ao lado da fotografia de António Salazar, nos tempos em que o país se assumia oficialmente como católico (tal como o presidente do Conselho) “a bem da nação”. Nessa época, para se ser bom português, não se podia ter outra identidade religiosa que não o catolicismo romano. Felizmente que a Constituição do Portugal democrático (1976) impôs o Estado laico, que é a única forma de garantir o princípio da liberdade religiosa a todos, crentes e não crentes.

Em vez de perguntarmos que ligação poderá existir entre religião e escola pública, comecemos primeiro por definir para que serve a escola. Diríamos que serve para preparar as crianças e adolescentes para a vida, sem esquecer as responsabilidades parentais na matéria, que são incontornáveis. Se é assim, então por que razão os alunos não saem da escolaridade obrigatória com o exame do Código da Estrada feito? É que, se não vierem a conduzir viaturas ou motociclos, serão sempre peões. Porque se hão-de ver obrigados depois a ir pagar a privados para o fazer? Por que razão a escola não confere uma certificação de primeiros socorros ou de suporte básico de vida? E por que não hão-de aprender noções práticas de economia? Ou de sensibilização para as artes? Será que o aprofundamento de determinadas matérias teóricas é mais importante do que isto?

Se a escola pretende de facto preparar os alunos para a vida poderia igualmente substituir as aulas de religião e moral das confissões religiosas por uma disciplina de Introdução às Religiões e Espiritualidades, que fizesse a abordagem ao fenómeno religioso, sem esquecer as perspectivas agnóstica e ateia. Se, por um lado, as confissões religiosas não precisam da escola pública para catequizarem as camadas mais jovens dos seus fiéis, por outro lado não é suposto que a escola pública se converta num campo de recrutamento proselitista. Num mundo cada vez mais globalizado e numa sociedade tendencialmente mais complexa do ponto de vista religioso como é a portuguesa (segundo comprovam os últimos estudos científicos conhecidos), a responsabilidade do ensino público é preparar os alunos para a vida real e os desafios da contemporaneidade. A cidadania também passa por aqui.

Bem sei que se coloca desde logo o problema da operacionalização da medida, em particular o caso da formação dos professores. Mas se não quisermos continuar com uma escola à medida do século XIX temos que planear o futuro e adaptar o ensino público aos tempos que correm e ao tipo de sociedade que queremos construir, de tolerância e boa convivência entre cidadãos de diferentes filiações religiosas ou sem fé religiosa.

A actual paz social e boa convivência inter-religiosa na sociedade portuguesa não garante nada para o futuro, em especial face aos populismos que se têm vindo a levantar um pouco por toda a Europa e que, muito provavelmente, mais tarde ou mais cedo também cá chegarão. Se queremos cultivar um futuro clima social de tolerância para com a diferença, de paz e de respeito mútuo, há que começar na escola. Quando, há uns bons anos, se começou a introduzir no ensino básico a educação ambiental, rapidamente se verificou um efeito positivo, que a influência dos princípios ecológicos passaram a ter nos pais dessas crianças e demais familiares, por extensão. É de pequenino que se torce o pepino.

E não me venham dizer que saber ler e escrever (comunicar) é mais importante do que uma educação para a paz e a boa convivência entre cidadãos de etnias, religiões e ideologias diferentes. Ou que a educação sexual (sobretudo sendo controversa quanto à forma) será mais importante do que ser capaz de salvar uma vida através duma intervenção pronta de primeiros socorros. Ou que a álgebra é mais importante do que aprender que não se pode gastar mais do que se ganha. Ou que aprofundar a química é mais importante do que conhecer as leis que regem a circulação viária.

Para que não surjam más interpretações devo esclarecer que considero as ciências, as humanidades e as artes fundamentais na educação contemporânea. Não tenho uma visão determinista da educação, no sentido de preparar apenas os profissionais que fazem falta ao país. Não. A verdadeira educação passa por aprender a pensar, a conhecer o mundo e a história da humanidade. Isso é inegociável. Apenas não deixemos que os alunos abandonem a escolaridade obrigatória sem adquirir competências básicas para a vida. Todos compreendemos que respeitar o ambiente é fundamental mas não mais do que respeitar o outro, o estrangeiro, o imigrante, o diferente ou o que professa outra fé.

A escola pública precisa de uma visão prática de futuro.  

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Anselmo Borges e a eutanásia: “Quem mata?”

“Se algum dia se avançasse por esta via da legalização da eutanásia, o Estado ficaria com mais uma obrigação: satisfazer o direito ao pedido da eutanásia e seria confrontado com esta pergunta terrível: quem mata?”, escreve Anselmo Borges, professor de filosofia e padre, na sua última crónica no Diário de Notícias.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

Hanau: isto não foi o Capuchinho Vermelho novidade

De vez em quando, a morte passa-nos por perto. Hanau fica a trinta quilómetros de onde moro e é conhecida por ser a cidade natal dos irmãos Grimm, aqueles que compilaram contos populares alemães como o Capuchinho Vermelho ou a Branca de Neve. Muitos deles são histórias terríveis que eram contadas às crianças para ganharem a noção da maldade humana e não serem enganadas facilmente.

A lição de Merkel

As eleições de Outubro de 2019 na Turíngia, estado da antiga República Democrática Alemã, ditaram um resultado que se vislumbraria difícil de solucionar. A esquerda do Die Linke ganhou as eleições, seguida da direita radical da Alternativa para a Alemanha (AfD) e da União Democrata Cristã (CDU), de Angela Merkel. O Partido Social-Democrata (SPD), não foi além dos 8,2% e os Verdes e os Liberais (FDP) ficaram na casa dos 5%.

Maria e Marta – como compreender dois nomes num congresso mundial

Foi nesse congresso que, pela primeira vez, tive a explicação relativa a dois nomes, Maria e Marta, cujo significado fiquei de procurar, desde 1983, ano no qual nasceram as minhas primas Maria e Marta. O facto é que, quando elas nasceram, o meu avô materno, impôs que fossem chamadas por esses nomes. Despertou-me curiosidade a insistência, uma vez que já as chamávamos por outros nomes.

Cultura e artes

São Pessoas. Histórias com gente dentro

Há um tanque de lavar roupa. Há uma cozinha. Há o poço e as mãos que lançam um balde. Há uma sombra que foge. Há o poste de eletricidade que ilumina as casas frágeis. Há o quadro pendurado em que um coração pede “Deus te ajude”. Há a campa e a eterna saudade. E há uns tapetes gastos. Em cada uma destas fotos só se adivinham os rostos, os olhos, as rugas, as mãos rugosas, as bocas, as pessoas que habitam estes lugares.

“2 Dedos de Conversa” num blogue para alargar horizontes

Um dia, uma leitora do blogue “2 Dedos de Conversa” escreveu-lhe: “Este blogue é um momento de luz no meu dia”. A partir daí, Helena Araújo, autora daquela página digital, sentiu a responsabilidade de pensar, de manhã, o que poderia “escrever para animar o dia” daquela rapariga. Sente que a escrita do blogue pode ajudar pessoas que não conhece, além de lhe ter alargado os horizontes, no debate com outros pontos de vista.

Um selo em tecido artesanal para homenagear Gandhi e a não-violência

Os Correios de Portugal lançaram uma emissão filatélica que inclui um selo em khadi, o tecido artesanal de fibra natural que o Mahatma Gandhi fiava na sua charkha e que utilizava para as suas vestes. Portugal e a Índia são, até hoje, os únicos países do mundo que utilizaram este material na impressão de selos, afirmam os CTT.

Arte de rua no selo do Vaticano para a Páscoa

Um selo para celebrar a Páscoa com arte de rua. Essa será a escolha do Vaticano, segundo a jornalista Cindy Wooden, para este ano, reproduzindo uma Ascensão pintada por Heinrich Hofmann, que se pode ver na Ponte Vittorio Vittorio Emanuele II, em Roma, a poucas centenas de metros da Praça de São Pedro.

Sete Partidas

Sankt Andreas Kirke, Copenhaga – Uma igreja nómada

Gothersgade 148, 1123 København K, Igreja de Skt. Andreas. Era este o sítio a que nos devíamos dirigir quando nos interessámos por um concerto de música clássica, de entrada gratuita, por altura do Natal de 2009. Estávamos em fase de descoberta daquela que seria a nossa casa por 10 anos – Copenhaga, Dinamarca.

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco