Um caminho de aproximação

O que têm os ortodoxos a ensinar à Igreja Católica sobre sinodalidade

| 5 Dez 2023

Papa e Job Psidia

O metropolita Job da Pisidia (então arcebispo de Telemissos) cumprimenta o papa Francisco durante uma visita de uma delegação do Patriarcado Ecuménico ao Vaticano, junho de 2019, por ocasião da Festa dos Santos Pedro e Paulo. Foto © Vaticano media

 

O sínodo católico sobre a sinodalidade está em curso, interrompido que foi em final de outubro, para ser retomado daqui a sensivelmente um ano. Este é, assim, um tempo de amadurecimento e de criatividade, tendo como referência o relatório-síntese dos trabalhos da primeira sessão e o que for concretizado nas igrejas locais. Uma coisa é certa: o catolicismo vive um momento de grandes desafios e o Papa Francisco deseja que todos sejam chamados a tomar-lhes o pulso e a assumi-los.

Uma das descobertas, nestes tempos de busca de um novo modo de viver a experiência cristã, foi o facto de, nos primeiros séculos do cristianismo, ter existido a prática da sinodalidade, bem documentada no livro dos Atos dos Apóstolos (At., 15), no século I, e nos posteriores. Quem manteve essa prática e a consolidou ao longo do tempo foi a Igreja Ortodoxa, que é uma “comunhão de igrejas autocéfalas”, governadas pelo respetivo bispo e seu sínodo.

A memória e experiência ortodoxa, nesta matéria, dificilmente poderia passar ao lado, no processo desencadeado por Francisco, tanto mais que o Papa lhe quis conferir uma dimensão ecuménica, visível em vários momentos do processo. Entende-se, por isso, que tenha integrado, entre os seus convidados na primeira sessão, em Roma, o metropolita Job da Pisídia, que é um bispo ortodoxo do Patriarcado Ecuménico (de Constantinopla), que representa este Patriarcado junto do Conselho Mundial de Igrejas e é co-presidente da comissão conjunta internacional para o diálogo teológico entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa. Ele foi convidado a intervir num dos dias do Sínodo, testemunhando precisamente sobre o modo de os ortodoxos porem em prática a sinodalidade.

Numa entrevista com Jovan Tripkovic, editor do site ReligionUnplugged, já depois da intervenção, que ocorreu a 9 de outubro, o metropolita respondeu a várias perguntas, entre as quais sobre se o conceito de sinodalidade na Igreja Católica é semelhante à ideia ortodoxa oriental de sinodalidade.

 

Sínodos: consultivos ou com poder de decisão?

Sínodo: Testemunho do Metropolita Job da Pisidia. Foto © Vatican News

 

A primeira diferença, segundo o entrevistado, é “uma grande diferença”: o Sínodo católico sobre a Sinodalidade é uma instância consultiva, enquanto na Ortodoxia é um órgão de decisão, é, acrescenta, “o verdadeiro órgão de governança da Igreja”. Isto significa que, em Roma, as conclusões que serão aprovadas pelos padres e madres sinodais “serão apresentados ao Papa Francisco”, que “decidirá o que fazer”. Isto acontece porque, diz Job, na Igreja Ortodoxa “não temos um Papa acima do Sínodo. O sínodo, como órgão, toma decisões sobre o governo da igreja”.

Em segundo lugar, na Igreja Ortodoxa, o sínodo é composto exclusivamente por bispos que, nele, representam a sua igreja local, as suas dioceses. “Para representar as suas dioceses no Sínodo, os bispos ouvem a sua igreja local, todo o povo de Deus, fazendo visitas pastorais às paróquias, fazendo com que o clero realize reuniões, onde discutem as suas questões e os problemas pastorais da sua diocese”, explica o metropolita.

Em algumas dioceses há ainda “conferências clérigos-leigos”, que são “assembleias para discutir assuntos relacionados com a diocese” e, nesse caso, são órgãos consultivos que podem suscitar questões a serem apresentadas superiormente para, se for o caso, serem apreciadas e discutidas em sínodo.

Questionado sobre se vê algum paralelo histórico entre o Sínodo de Roma e o conceito ortodoxo de sinodalidade, Job da Pisídia recorda um movimento surgido na Rússia no final do século XIX e início do século XX, o sobornost. Vê similitude com o que se busca, agora, na Igreja Católica, quando se procura envolver diferentes constituintes da Igreja (clero, leigos, religiosos, episcopado) na administração da vida eclesial.

“O que podemos aprender uns com os outros?”, pergunta Tripkovic.

“É muito interessante, responde o bispo, assistir a este Sínodo e ver que estamos a enfrentar exatamente as mesmas questões. Todas as matérias levantadas no Sínodo são muito semelhantes às questões que a Ortodoxia enfrenta. Temos diferentes maneiras de lidar com elas. Podemos aprender com a experiência uns dos outros e com a forma como cada igreja enfrenta estas questões. Isto pode inspirar ambas as igrejas”.

Nesta linha, o entrevistador quis conhecer as impressões e leituras que o metropolita ortodoxo colheu do mês que passou imerso no Sínodo católico, não como mero espectador, mas como participante ativo. Eis a resposta que deu:

“Para a Igreja Católica Romana, é uma experiência nova tentar envolver o clero, os leigos e os religiosos no processo de gestão da Igreja. Isto é algo com que os nossos irmãos católicos romanos ainda não estão muito familiarizados. Existem algumas reservas. Alguns são um pouco cautelosos, outros têm dúvidas sobre esta forma de fazer as coisas. Existem movimentos por mais influência no corpo de governo da igreja. Isso é algo novo.

Há muito respeito mútuo e escuta ativa, o que é louvável. No geral, o espírito é muito positivo. Isso é feito em espírito de oração. A cada 15-20 minutos há uma breve interrupção de três, quatro minutos de silêncio para oração. Esta é uma experiência muito positiva para a Igreja Católica Romana. A definição de sinodalidade tal como foi definida por este Sínodo vem da visão do Papa Francisco, é a visão de caminhar todos juntos em direção ao reino de Deus, (…) preocupando-nos em não deixar as pessoas para trás, em tê-las connosco e em como podemos trabalhar juntos para dar um testemunho ao mundo”.

Confrontado com alguns temas polémicos que emergiram no Sínodo romano (diaconado de mulheres, disciplina do celibato, questões colocadas pelas pessoas LGBTQI+), o metropolita começou por sublinhar que, na Igreja Católica, tudo isto está ainda em fase de reflexão e de escuta, “existem várias posições, várias opiniões sobre estas questões, por vezes até direções e opiniões opostas” e que algumas destes temas, com que a Igreja está a ser confrontada ao lidar com a sociedade, “vêm de fora”.

 

Um caminho de aproximação

Papa Francisco e Patriarca Bartolomeu I, em Jerusalém, em 2014. Foto © Nir Hason / Wikimedia Commons.

 

Job de Pisídia, que é, como já referido, um nome de topo no diálogo ecuménico católico-ortodoxo, pronunciou-se também sobre o ponto em que está esse diálogo, classificando-o como “muito positivo” e recordando o documento comum, concluído já este ano de 2023 em Alexandria, sobre o tema do primado e da sinodalidade, na sequência de passos anteriormente dados.

“A questão da primazia do papa tem sido espinhosa, nota o hierarca. O exercício do primado do Papa de Roma provocou a rutura da comunhão entre o Oriente e o Ocidente. Acreditamos que, ao reequilibrar a noção de primado com sinodalidade, lidamos com essa questão. Agora estamos a entrar numa nova fase no diálogo. O próximo documento, a preparar nos próximos anos, abordará precisamente as questões teológicas e canônicas (incluindo aquelas relacionadas ao destino, à doutrina e à ordem da Igreja) que ainda impedem a restauração da plena comunhão entre as nossas igrejas. Ou seja, nos próximos anos tentaremos fazer um catálogo daquilo que realmente nos impede de restaurar a comunhão e identificar as questões que precisam de ser resolvidas”.

 

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