
Aos poucos a sala foi enchendo e o entusiasmo era palpável. Passadas as formalidades de abertura, o Enrique tomou a palavra perante uma audiência ávida. Foto © CER
A qualidade a que o CER já nos habituou fez com que chegasse com grandes expectativas ao espaço da Porta na semana passada para assistir à primeira sessão do mini-curso presencial “O que tu queres sei eu!”. Já tivera oportunidade de conhecer brevemente o Enrique Lluch Frechina, no entanto, apenas conhecia pela rama as suas teorias relativas ao economicismo, pelo que a curiosidade era grande!
Aos poucos a sala foi enchendo e o entusiasmo era palpável. Passadas as formalidades de abertura, o Enrique tomou a palavra perante uma audiência ávida. O à vontade de um professor é incomparável, pelo que a sua apresentação foi tão natural e interessante que, não fossem as dúvidas do próprio no seu empenho em comunicar claramente para o público português, ninguém notaria que estava a falar em espanhol. Logo na primeira impressão se mostrou evidente o quão importante é abordar temas que podem parecer mais complexos com uma linguagem simples. Calculo que a maioria da audiência não teria formação em economia, ainda assim, o discurso do Enrique foi tão claro que creio que ninguém ficou com dúvidas sobre os conceitos explicados.
Como um bom professor, Enrique pôs a “turma” a trabalhar e aí a animação e conversa que se geraram tomaram conta da sessão. Na era do zoom e do online (que tantas possibilidades boas nos trouxeram), atrevo-me a dizer que não há nada que se aproxime do formato presencial. A energia de uma sala cheia de pessoas a conversar e debater ideias é absolutamente contagiante!
Com mestria, o professor pegou no trabalho feito pelos “alunos” e, enquanto categorizava as ideias partilhadas punha um espelho à frente de todos e de cada um, expondo as necessidades e desejos do público, aguçando o espírito crítico que deixaria em aberto a reflexão (tão necessária) até à sessão seguinte. Felizmente, a equipa do CER tinha preparado para cada participante um pequeno manual com textos do professor Enrique Lluch Frechina, que fizeram com que a espera pela sessão seguinte fosse apaziguada pela disponibilidade de material de leitura.

“A segunda sessão, igualmente de casa cheia, começou mais tranquila, mas rapidamente a energia do Enrique contagiou a audiência. O discurso cativante fez com que os participantes fossem mais interventivos e as questões foram surgindo naturalmente.” Foto © CER
A segunda sessão, igualmente de casa cheia, começou mais tranquila, mas rapidamente a energia do Enrique contagiou a audiência. O discurso cativante fez com que os participantes fossem mais interventivos e as questões foram surgindo naturalmente. Não é todos os dias que se ouve falar em economia e teologia na mesma conversa, mas a naturalidade do Enrique e a importância dos temas que aborda fazem-me pensar o quão importante é. De facto, a espiritualidade permeia-se em todos os aspetos da vida quotidiana e somos tontos se acharmos que a religião é algo que se reserva apenas para os dias de culto. Viver de acordo com uma fé não pode ser indiferente e deve levar os crentes a questionarem como é que a vivência dessa fé se traduz no seu dia-a-dia, desde as escolhas mais elementares até às mais fundamentais. Mas, como em tudo, as melhores escolhas são inevitavelmente as mais fundamentadas. Daí a importância de cursos e oportunidades de conversa e debate como as que o CER possibilita e impulsiona, pois a tranquilidade de discernimento no caminho vem com uma fé madura que conhece as suas origens e se questiona frequentemente.
Não me atrevo aqui a ilustrar tudo o que o professor Enrique tão bem explicou durante estas duas sessões, para isso convido-vos a lerem o seu livro “El espíritu del economicismo” ou a visitarem o seu blog onde há muito material de leitura, melhor do que qualquer resumo que eu pudesse fazer. Da minha experiência pessoal posso partilhar que há uma pequena intuição que trago há 11 anos – desde que abri uma pequena empresa onde acredito que um crescimento sustentável é a base para poder criar boas condições para todos e que, consequentemente, traz a cada um realização profissional e pessoal – que se vê confirmada após estes dois dias de curso. Mais não é sempre melhor. Mais para cada um não se traduz em mais para todos. Deste curso guardo a consciencialização dos tipos de necessidades e das diferenças emocionais destas para com os desejos, e espero guardar a percepção das consequências de cada escolha e de como estas podem ser alavanca de mudança.
Dois milénios depois, continuam a ser radicais as opções de quem se põe ao lado dos últimos, de quem olha para a sociedade e questiona o que motiva a maioria. É urgente falar de economia, de ecologia, de política e, sim, de teologia. É um engano achar que as opções podem ser compartimentadas. Felizmente que se vão criando espaços na nossa sociedade onde estas conversas não só acontecem, como até enchem salas!
Tânia Sérgio é leiga redentorista, chef de pastelaria e fundadora do “t Atelier “ um lugar onde o requinte da alta pastelaria se alia à filosofia de pastelaria de partilha.










