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Seminários, Música, Cupertinos, Braga

Congresso começou em Braga

O rasgão que atravessa a parede e tem de atravessar os seminários católicos

| 16/11/2022

Seminários, Música, Cupertinos, Braga

Grupo vocal Cupertinos, no concerto inaugural do congresso sobre os seminários católicos: é necessária a ruptura com fórmulas passadas, coincidiram os intervenientes. Foto © António Marujo

 

O som do grupo vocal Cupertinos enche de música a Capela da Imaculada, no Seminário Nossa Senhora da Conceição, de Braga, durante o concerto inaugural do congresso internacional Erguendo os Olhos e Vendo. A iniciativa, que começou na manhã desta quarta-feira e se prolonga até sábado, assinala os 450 anos da criação do Seminário Conciliar da diocese minhota, criado na sequência do Concílio de Trento que, no século XVI, lançou a reforma da Igreja Católica.

Salva nos Domine, “salva-nos Senhor”, cantam os oito elementos dos Cupertinos, numa das peças compostas por Pedro de Cristo (c. 1550-1618), um dos compositores que o grupo tem privilegiado no seu trabalho. Na mesma capela, há um rasgão em pedra, um fio de luz que atravessa a parede do fundo de alto a baixo. Um grito, salva nos Domine, e um símbolo, a pedra de divisão e de luz, sinais da ruptura que é necessária na formação dos padres católicos, e sobre a qual coincidiram vários dos intervenientes do primeiro dia de trabalhos do congresso.

“Numa igreja pluriministerial, o seminário já não pode ser a formação das elites; terá de se abrir a outros vários ministérios, a outras formas de gestão”, afirmou o bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas.

O também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) acrescentou que a noção de clero introduziu uma ideia de separação, que não existia no início do cristianismo e que foi contestada pelo próprio Jesus, na sua relação com a hierarquia sacerdotal do judaísmo do seu tempo. A actual forma de clero católico corresponde a um modelo recuperado do sacerdócio do judaísmo do Antigo Testamento bíblico, acrescentou. “Jesus é aquele que se mistura” e que quer acabar com a separação dos sacerdotes em relação ao povo. Do mesmo modo, no catolicismo, o “ministério ordenado, quando se torna poder e força, perde a sua razão de ser”.

O poeta José Rui Teixeira, editor da Officium Lectionis e director da Cátedra Poesia e Transcendência Sophia de Mello Breyner (Universidade Católica), tomou o mesmo tema para admitir que são as relações de poder que ainda marcam muitos modelos de organização e formação das comunidades católicas.

Até ao Concílio de Trento (1545-1563), realizado na sequência da ruptura provocada pelo movimento liderado por Lutero e a Reforma, a formação dos padres era assegurada por cada bispo, segundo modelos mais ou menos informais. “No primeiro milénio da história da Igreja, a formação não estava institucionalizada, incumbindo a cada bispo a formação dos seus presbíteros, embora existissem escolas episcopais e paroquiais de formação do clero”, afirmou o arcebispo de Braga, José Cordeiro, na abertura do congresso.

 

Hoje e há 60 anos, o mesmo

seminario conciliar de braga, abertura ano letivo 2022, foto FB

Abertura do ano lectivo no Seminário Conciliar de Braga: chora-se a falta de vocações há 40 anos, Foto reproduzida da página do seminário no Facebook. 

 

Com Trento, uma das mudanças estabeleceu a criação de casas de formação para os futuros padres. Aquele que há cinco séculos foi um profundo movimento de reforma ficou estagnado, disse José Rui Teixeira, que é também director pedagógico numa escola católica no Porto. “Os seminários perpetuam hoje o profissionalismo dos padres e o amadorismo dos leigos”, lamentou.

Admitindo que o seminário foi uma instituição que cumpriu um papel social relevante – e não apenas eclesial – Teixeira referiu-se à “crise das vocações” como nascendo também de outros factores: “O grande impacto foi o esvaziamento progressivo dos seminários, em virtude da democratização da educação”, aliada à quebra do número de pessoas a entrar nos seminários. Tendo ele próprio estado dois anos no seminário no Porto, José Rui Teixeira disse que na Igreja Católica se chora “a falta de vocações desde que era seminarista”. E acrescentou: “O que temos hoje é o que tínhamos há 40, 50, 60 anos”, que vai a par com a profunda erosão da presença de crentes nas missas ou da participação nas comunidades.

O debate, portanto, está em saber que modelo pode existir hoje. Esse será o tema forte desta quinta-feira, 17, com intervenções da teóloga espanhola Cristina Inogés Sanz, que integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos (e é colaboradora do 7MARGENS) e do teólogo francês Hervé Legrand, da ordem dominicana. Num quadro em que o vice-reitor do Seminário Conciliar admitira na véspera do início do congresso, em declarações ao 7MARGENS, que procuraram testemunhos de boas práticas, mas elas não existem.

A pergunta sobre que modelo para os seminários católicos contemporâneos relaciona-se com o perfil do padre, admitiu nesta quarta-feira o arcebispo Cordeiro. “A sacramentalidade é o rasgo mais expressivo do ministério presbiteral”, mas será ela hoje que determina a atitude fundamental da Igreja, perguntou. “A proximidade é consequência da sacramentalidade”, mas ouve.se muitas vezes que o padre “anda por todo o lado e não está em lado nenhum”.

“Os seminários estão numa encruzilhada”, admitiu o arcebispo de Braga. “À medida que o êxodo dos cristãos se acentua” diminui “a plausibilidade de haver candidatos aos seminários”.

Revisitando a história do Concílio de Trento e do seu contexto, o historiador António Matos Ferreira, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, referiu também a mudança radical da situação do mundo, por contraste com a condição humana, que “permanece nas suas inquirições” essenciais. Na Igreja, o celibato pretendia ser uma disciplina comum a “uma pluralidade de formas de exercício do clero” e a uma visão da doutrina que também não era entendida por todas as pessoas da mesma forma.

O padre deveria ter “disciplina, virtude e formação espiritual e intelectual” mas a reforma católica “afirmou-se através do estabelecimento do ‘anátema’ a tudo aquilo que fosse considerado contrário à doutrina e às decisões conciliares”. Colocava-se a questão de saber como é que o cristianismo tornava relevante, na sua prática, o tema da salvação.

 

O arcebispo de Braga contra a Cúria Romana

Bartolomeu dos Mártires queria que os padres fossem sinal da misericórdia de Deus. 

 

Frei Bartolomeu dos Mártires, o arcebispo de Braga que participou no Concílio e foi um dos seus principais intervenientes, criando depois o Seminário Conciliar no seu regresso a Portugal, “estava centrado na ideia de que o padre deveria ser um sinal da misericórdia de Deus”. Mas, tal como aconteceria quatro séculos depois com o II Concílio do Vaticano, Trento registou confrontos graves.

O próprio Bartolomeu dos Mártires “não conseguiu” a maioria das coisas que pretendia, Uma das suas ideias centrais “era o papel do bispo como impulsionador de um novo tipo de clero e da promoção do povo de Deus”, uma ideia que não vingou por causa da Cúria Romana. Ontem como hoje, a estrutura central do governo da Igreja Católica queria ter mais protagonismo. “O seminário é a instituição que surge de quem defendia que a reforma da Igreja não deveria nascer da Cúria, mas do bispo”, afirmou Matos Ferreira.

José Frazão Correia, ex-provincial dos jesuítas portugueses e actual responsável da revista Brotéria, tomou também o contexto tridentino: “Os seminários foram mais um instrumento para colocar em marcha um processo de transformação que passou pela liturgia, espiritualidade, artes, práticas ou modos de estar…”

“Se Trento teve a liberdade para mudar de forma radical, não podemos ter hoje menos liberdade”, disse. “E se Trento teve a coragem para provocar mecanismos de mudança, temos de ter hoje a mesma coragem”.

Defendendo que a fidelidade à intuição de Trento já não funciona por si, acrescentou que o seminário que hoje o catolicismo deve encontrar e pôr em prática “será aquele que melhor servir” uma forma de ministério “que está por inventar”. Terá de ser um seminário “capaz de gerar leitura e crescimento espiritual”, capaz de gerar múltiplos encontros, e que por isso não pode ser um lugar fechado”, antes deverá ser um lugar “onde se cultiva a experimentação”.

“Apesar do Vaticano II, muitos modelos” católicos “ainda são pré-Vaticano II”. Este último concílio (realizado entre 1962-65) “não teve a mesma força que teve Trento, do ponto de vista prático e teorético”. Por isso, a conclusão é clara: “Hoje é-nos pedida a mesma liberdade, responsabilidade e coragem que foi pedida a Trento; seremos fiéis a Trento se formos capazes de ultrapassar Trento.”

 

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