O reconhecimento de um Justo

| 8 Mar 20

Nas margens da filosofia (XVI)

Imagem do filme “A Hidden Life” (em português, “Uma vida escondida”), de Terrence Malick. Foto: Direitos reservados

 

“A thing of beauty is a joy forever” (John Keats)

 

Passou recentemente nos cinemas o filme de Terrence Malick A Hidden Life (em português, Uma vida escondida). A tradução de hidden por “escondida” é simplista, pois a vida do personagem central do filme não é a de um homem que se esconde mas, sim, de alguém que paulatinamente vai percebendo a perversidade dos ideais nazis e a incompatibilidade dos mesmos com a fé cristã.

O filme decorre numa época que poderíamos apelidar de Tempos Sombrios, recorrendo ao título que a filósofa Hannah Arendt deu a um dos seus livros.[1] Malick relata-nos a história de um camponês austríaco (Franz Jägerstätter), habitante de uma aldeola onde todos se conhecem e ajudam. Com a mulher (Fani) e as três filhas, formam uma família unida, em total sintonia com o ambiente rural cuja beleza esplendorosa nos é mostrada ao pormenor. Malick compraz-se em filmar o movimento das árvores, o ondular da relva, os trabalhos do campo, as brincadeiras das crianças. Tudo é lindo, inclusive a habitação do casal, uma casa de camponeses pobres onde cada objecto tem a sua serventia própria, sendo o tear e o forno instrumentos essenciais de uma sobrevivência frugal, mas gratificante.

Na sequência de um treino militar, Franz regressa a casa com a firme convicção de não se alistar no exército alemão e de recusar o juramento a Hitler, exigido a todos os futuros militares. É uma atitude incompreensível para a sua mulher que, no entanto, a aceita e apoia. A fidelidade silenciosa e o amor incondicional de Fani constituem um suporte determinante nas decisões tomadas por Jägerstätter, decisões essas que têm como consequência a sua prisão.

A atitude de aceitação compreensiva de Fani não é partilhada pelos habitantes da aldeia. Estes rotulam Franz de traidor e    estendem a sua animosidade a toda a sua família, à qual recusam qualquer ajuda. A própria natureza parece rebelar-se, apresentando-se como um adversário hostil contra o qual Fani luta, numa tentativa de sobrevivência. É essa mesma força que a leva a visitar o marido na prisão e a ser uma testemunha silenciosa na cena dramática em que este é colocado perante um dilema: ou assina um documento de adesão a Hitler e à política do Terceiro Reich ou recusa e é condenado à morte.

Contra tudo e contra todos, Franz Jägerstätter tem a coragem de dizer não.

É uma atitude que, de novo, nos lembra Hannah Arendt no julgamento de Eichman, em Israel. Depois da sentença que o condenou à morte, Eichman exaltou a obediência escrevendo: “A obediência encontra-se entre os virtuosos. É por isso que eu peço para terem em conta o facto de eu ter obedecido, e não a quem obedeci. (…) Pretende-se alegar que eu deveria ter desobedecido. É um ponto de vista eminentemente retrospectivo. Naquelas circunstâncias, uma atitude destas era impossível, ninguém tinha a coragem de se comportar desta maneira.” [2]

Arendt critica os que abdicaram da sua humanidade prescindindo de exercer a capacidade de julgar livremente, ou seja, demitindo-se de um atributo essencial da condição humana. E fala com ironia da figura dos “emigrantes interiores”, aqueles que relegaram os seus posicionamentos ao foro íntimo, mas não tiveram coragem suficiente para os manifestar abertamente, limitando-se a levar uma vida tão discreta quanto lhes era permitido.

De facto, essa “multidão de discordantes” surge a posteriori, num pós-guerra em que se ajustavam contas. Para a filósofa, os factos têm uma leitura menos ambígua, como se vê em passagens como esta: “Do acervo de provas acumuladas, pode apenas concluir-se que a consciência, na verdadeira acepção da palavra, se tinha perdido na Alemanha, e que isso acontecera a um tal ponto que as pessoas mal se recordavam desse conceito e haviam perdido a noção de que o resto do mundo não subscrevia o espantoso novo sistema de valores alemães.[3]

Não se trata de uma opinião sem fundamento, e Hannah vai buscar testemunhas que a corroboram. É o caso de Peter Bamm, um médico, memorialista da guerra, que corajosamente assume a culpa dos silenciosos, justificando-a, no entanto, por critérios pragmáticos – denunciar certas situações teria consequência nefastas para o denunciante, com poucos resultados práticos para as vítimas. As razões que apresenta são paradigmáticas de uma atitude e de uma mentalidade. Vale a pena recordá-las:

“Nós sabíamos o que se passava, mas nada fizemos para evitá-lo. Se alguém tivesse protestado seriamente ou tivesse feito alguma coisa para impedir os massacres, teria sido preso e desapareceria em vinte e quatro horas. Um dos requintes dos governos totalitários do nosso século consiste em não permitir aos seus adversários que morram como mártires gloriosos em nome das suas convicções. O certo é que quem tivesse ousado sofrer a morte em vez de tolerar estes crimes em silêncio teria sacrificado a sua vida em vão. O que não quer dizer que um tal sacrifício fosse, do ponto de vista moral, desprovido de sentido. Seria apenas inútil do ponto de vista prático. Nenhum de nós possuía convicções de tal maneira profundas e enraizadas que estivesse disposto a sacrificar-se inutilmente em nome de um princípio moral mais elevado.” [4]

Franz situa-se no pólo oposto. É um camponês de poucas falas, totalmente imune ao discurso persuasivo dos ideólogos e mentores do Terceiro Reich. Sente mais do que pensa e a sua decisão não se baseia em argumentos, mas na consciência de estar perante o mal absoluto com o qual não quer pactuar. A sua opção baseou-se na convicção firme da maldade da política hitleriana e da incompatibilidade entre cristianismo e nazismo.

O filme de Malick faz-nos reviver o horror do nazismo. Mas também testemunha a possibilidade de uma redenção através da beleza. Ela está presente na Natureza que prossegue o seu ritmo, indiferente aos horrores do nazismo. Está presente na relação amorosa entre Franz e Fanny que se mantém firme no pesadelo que viveram. E está sobretudo presente na atitude corajosa de um homem que, em nome de Deus, se demarcou do mal, dando como tributo a própria vida.

A Igreja Católica reconheceu a sublimidade do seu gesto: em Junho de 2007, o Papa Bento XVI declarou-o mártir e, em Outubro do mesmo ano, foi beatificado na catedral de Linz, numa celebração presidida pelo cardeal português D. José Saraiva Martins.

 

Notas

[1] Hannah Arendt, Men in Dark Times, London, Jonathan Cape, 1970, trad. portugesa Homens em tempos sombrios, Lisboa, Relógio d’Água, 1991.

[2] Extracto da declaração de Adolf Eichmann, em Jerusalém, a 13 de Dezembro de 1961, após o veredicto da sua condenação. (Citado no prefácio de António de Araújo e Miguel Nogueira de Brito ao livro de Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, Coimbra, Tenacitas 2006, (2ª ed.),  p. 16.

[3] Ob. cit., p. 165

[4] Referido por Arendt na obra que temos vindo a citar, p. 306.

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

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