O regresso à escola má

| 18 Abr 2021

Yale University, em New Haven (Estado do Connecticut), EUA Luís Pinto

“A fama e o rigor anunciados de mão dadas. Um sonho. Tornado realidade para apenas alguns. Muito poucos. A escola como ela devia ser. Foto:Yale University, em New Haven (Estado do Connecticut), EUA. ©  Luís Pinto.

 

Custa-me imenso falar de educação. A sério. Dói-me. Magoa fundo. O mal que temos tratado a educação escolar nas últimas décadas. Colectivamente. Geração após geração. Incomoda-me a forma como é delegada para planos secundários perante a suposta urgência de temas tão mais mediáticos e populares. Quando nada me parece mais urgente. Perturba-me a forma como tão despudoradamente a discussão sobre educação escolar negligencia o papel central da aprendizagem das crianças e jovens para se deixar contaminar por variações sobre a administração escolar e a política educativa. Exaspera-me a leveza com que tantas vezes o debate sobre a escola serve de expiação para os nossos interesses conformistas imediatos em vez de se centrar no bem comum, presente e futuro. E porque me custa, evito. Quantas vezes, consumido por estas aflições e frustrações, não me fecho eu próprio no conforto do meu entendimento íntimo e me escuso covardemente à conversa, à discussão, à necessária exposição vulnerável das minhas razões e sentimentos. E talvez por isso, por me dar conta disso mesmo, este texto será desta vez sobre educação.

Fizemos recentemente uma viagem de fim-de-semana a Boston. Nela, a visita breve às universidades de Harvard, MIT e Yale. O topo do topo. O encantamento da minha filha mais velha (hoje com 14 anos). A aura de prestígio e reputação no ar que respirávamos. O orgulho estampado nas t-shirts e sweaters vestidas ostensivamente. A história gravada em números record. Nomes famosos. Séculos de ciência. Leis e teoremas ali cunhados. A elite percebida em cada esquina. A fama e o rigor anunciados de mão dadas. Um sonho. Tornado realidade para apenas alguns. Muito poucos. Muitíssimo poucos mesmo. E, no entanto, o percurso educativo que tantos pais e alunos desenham secretamente. A escola como ela devia ser.

Em paralelo, povoava a agenda mediática e as conversas entre amigos o tema do “regresso à escola”. Em Portugal, o alívio sentido por um regresso rápido. Ainda antes da Páscoa. O regresso a uma certa normalidade. Um risco consentido por um bem maior. As crianças na escola, “que é onde a aprendizagem tem o seu lugar central”. E onde “verdadeiramente socializam”. Não o fazer, por muito tempo, seria “sacrificar de forma irremediável a aprendizagem das crianças”. Os programas. Os exames. Os acessos à universidade. Enfim, seria condenar toda uma geração.

É falso. É mentira. Não tem que ser assim.

Aqui, onde vivemos, e ao mesmo tempo, planeava-se desde Fevereiro o regresso à escola em Abril. Depois de um ano sem lá pôr os pés. Desde 13 de Março de 2020 que os meus filhos não vão à escola, fisicamente. Adaptaram-se. Falam todos os dias do que aprendem nas aulas. Dos professores. Dos colegas. Do conhecimento novo que lhes chega ou que descobrem por si próprios. Umas vezes entusiasmados. Outras, queixosos. Como sempre foi.

No momento em que escrevo este texto, ainda não recomeçaram as aulas presenciais. E quando regressarem, não vai ser igual. Serão apenas quatro dias por semana, repetidos quinzenalmente. Semana-sim, semana-não. Em dois grupos. Com aulas online em sincronia.

Não há alívio. Há expectativa. É algo diferente. Ainda não experimentado. Levanta muitas questões. Novas. Requer muita adaptação. De todos. Dos alunos. Dos pais. Da comunidade. Mas sobretudo dos professores.

Comunicamos todos. Todas as semanas. Afinam-se detalhes desde há uns meses. Sentimo-nos preparados. Desejosos. Estamos todos entusiasmados. Visivelmente entusiasmados. Num sentimento partilhado de ambição colectiva.

E sim, é uma escola pública. Duas, aliás. 570 alunos uma, 770 alunos outra. E sim, há famílias carenciadas. Miúdos sem acesso a computadores e internet. Para essas e para todas as outras, mobilizou-se a administração escolar para que não faltassem materiais e equipamentos, aluno-a-aluno. Chromebooks, auriculares, pacotes de internet, cópias de livros e materiais. Mobilizou-se também a comunidade escolar para que não faltassem refeições diárias entregues à porta da escola. Crianças que não comeriam de outra forma. Pais, professores, auxiliares, vizinhos. Todos voluntários. Todos os dias. Durante mais de um ano. E donativos online.

E actividades extra-curriculares, ao ar livre. Propostas pela administração escolar umas. Pela comunidade outras. O parque público utilizado para desporto. Para projectos de limpeza. Para piqueniques. Para caças ao tesouro e sustos de Halloween. Assim surgisse a ideia e o argumento. Com distanciamento social, máscaras e desinfectante em abundância. Ruas fechadas ao trânsito ao fim-de-semana. Bicicletas, skateboards, patins. As crianças fazem o resto. Elas sabem socializar como ninguém. Também para lá da sala de aula.

E depois, os professores. Talvez os mais importantes nesta mudança. Um empenhamento incansável. A adaptação constante. A reinvenção de currículos, de metodologias, de instrumentos. A busca infatigável por ideias melhores. Por boas práticas. Em qualquer sítio. Pelas opiniões e sugestões dos pais. A forma não contrariada mas determinada com que abraçaram as novas tecnologias. Os seus lares e família expostos durante um ano. Os meus filhos sabem o nome dos filhos dos professores. Dos seus animais de estimação, que volta-e-meia participam nas aulas. As mensagens deixadas nos telefones ao fim da tarde de domingo. Todos os domingos. Sem faltas. As numerosas reuniões com os pais. Umas de ânimo. Outras, a pedir ânimo. O sorriso quase sempre presente. Umas vezes autêntico, feliz com a novidade pedagógica que funcionou. Outras, um sorriso cansado, a pedir mimo. E quantas vezes isto mesmo descrito pelos meus filhos. Que sentem com os professores. E correspondem como podem. Empatia em estado puro. Feita de autenticidade, cumplicidade, abertura e confiança. E não, estes professores não ganham balúrdios. Nem têm contratos para o resto da vida. Ao contrário. Têm contratos precários. À boa maneira americana. Podem ser despedidos a qualquer momento. Alguns foram.

Não. A pandemia não condena uma geração de crianças e alunos. Assim como a Segunda Guerra Mundial também o não fez. A incapacidade de renovação e adaptação sim. A inércia sim. O conformismo sim. O desejo de regressar rapidamente ao normal do antigamente, isso sim.

Há 200 anos que a escola é igual, na sua essência. Fazem-se mudanças de cosmética. Os grupos, os projectos, os materiais, as tecnologias. Mas lá está o professor, não uma equipa de educadores. E uma turma de alunos, não uma comunidade de aprendentes. Organizados por idades, não por talentos, maturidade ou vocações. Currículos uniformizados, não individualizados. Exames e testes estandardizados, não adaptados. A matemática e língua à cabeça. Depois as ciências. Não as artes nem a educação física. Os cinco dias de aulas presenciais, não uma combinação de modelos ajustados ao contexto. E por aí adiante. A educação escolar ficou parada no tempo. Na revolução industrial. Nessa altura, as necessidades eram diferentes. A nossa consciência colectiva também. E não é preciso evocar o habitual “impossível”. Sabemos que é possível uma escola melhor. Bem melhor. Boa para todos. Sabemos bem. E sabemos que não se trata de uma escola que nos orienta para as elites de Harvard, de Yale e do MIT. Não.

Regressar rapidamente à normalidade, é regressar a uma escola que “é só para aqueles que já sabem aprender” – como disse a menina que abandonou a escola no 6º ano. Rasga fundo este desabafo. Dói que se farta. Faz correr a lágrima mal contida. O Deus em que acredito não se conforma com estes impossíveis. Ao contrário. Eu creio que temos hoje uma oportunidade de não regressar à normalidade. Uma oportunidade de reinventar a escola. Se todos quisermos aproveitar.

 

Luis Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

 

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