O regresso de um bispo exilado – testemunho e cartas inéditas

| 19 Jun 19

Estátua de D. António Ferreira Gomes, da autoria de Arlindo Rocha, junto aos Clérigos, no Porto. Foto © Diego Delso/delso.photo/license CC-BY-SA.JPG

 

Quem vive num Estado de direito não poderá esquecer o 19 de Junho de 2019, dia em que se assinala o regresso a Portugal, há cinquenta anos, do então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, após dez anos de exílio.

Pasme-se de espanto (e de vergonha) ao tomar-se conhecimento de, em pleno século XX, um cidadão ver-se privado de liberdade, pela decisão iníqua de um só!

Manipulado por estratégias malsãs, D. António Ferreira Gomes afastou-se do país para gozo de algum tempo de férias: a distância teria o condão de dirimir tensões e más vontades.

Quando regressou, a porta estava fechada. E assim permaneceu durante dez anos!

A memória do dia do regresso a Portugal sublinha a premência dos direitos humanos e da democracia. Não é demais ter consciência de silêncios e cumplicidades. Anote-se o relevo exemplar sempre tributado pela diocese do Porto e pela maioria significativa das pessoas ao regresso do pastor e do cidadão. Os pormenores de todo este problema estão já hoje estudados pelo rigor da investigação.

Na evocação desse 19 de Junho de 1969, cito algumas passagens de correspondência trocada na época: de Vila Nova de Gaia, o meu amigo e padre Ângelo Alves de Sousa, professor no seminário de Trancoso (Gaia) remetia-me, semana a semana, informações deste processo. Em Paris, lá estava eu para as colher [O então padre Januário Torgal Ferreira estava na capital francesa a fazer a dissertação em Filosofia.] (Talvez, em breve, todas essas notícias possam constituir um livro.)

 

Gaia, 9 de Junho de 1969

(…) Diz-se, e de fontes ligadas ao Governo, que a Santa Sé já terá respondido à pergunta de Marcelo Caetano, declarando que quanto á entrada em Portugal, isso é com o Governo (…)

Por estes dias, alguém irá a Alba de Tormes [junto a Salamanca, em cuja casa de religiosas se encontrava, nos últimos tempos, vindo de Lourdes, o bispo do Porto] saber o que é que o Senhor D. António conseguiu das suas “démarches” oficiais, e convencê-lo, mais uma vez, a entrar no país.

 

 Gaia, 18 de Junho de 1969
  1. Desde 6ª feira (13 de Junho) circula a notícia: as fronteiras estão abertas para ao Senhor D. António.

As confirmações choveram de todos os lados, particularmente dos lados da Pide [Polícia Internacional e de Defesa do Estado, polícia política do Estado Novo] e do Ministério do interior. Paulo Durão [Major, à época, governador civil do Porto] incluído.

  1. E o Senhor D. António foi oficialmente informado? Ele havia escrito a Marcelo Caetano nesse sentido (…). A resposta foi dada a 12 do corrente. No entanto, a carta não seguiu pelo correio, mas por portador. Pelo mesmo [D. Domingos de Pinho Brandão, então bispo auxiliar de Leiria] que “portou” a do nosso bispo. Entrega-a hoje. O [padre José António] Godinho [de Lima, professor do Seminário Maior do Porto] já a ouviu ler pelo telefone e é a confirmação da notícia que circula desde 13 do corrente.
  2. É de prever, segundo informações fidedignas, que o regresso a Portugal se verifique nestes dias mais próximos.
  3. Uma vez cá dentro, comunicará para Roma o facto, conforme lhe havia pedido o Papa Paulo VI.
  4. Entretanto está neste momento em reuniões o “grupo dos padres” [que, durante anos, tinham liderado o processo tendente ao regresso] para planear os trabalhos desta 2ª fase. Não imagino que dificuldades poderão surgir agora.

 

Fátima, 19 de Junho de 69

[telegrama chegado a Paris às 18h]

Senhor D. António chegou a Fátima

 

Casa das Irmãs Dominicanas Portuguesas

[postal enviado de Fátima, 19 de Junho de 1969, chegado a Paris dia 21]

É nesta casa que se encontra o nosso Bispo António. Foi aqui que o visitei e foi aqui que lhe pedi a mensagem que aqui segue (Nel mezzo del Camino… para uma Igreja do Vaticano II, a caminho do Vaticano III – Fátima, 19-VI-69 – Ant., Bispo do Porto)

 

Paris, 20 de Junho de 1969

[resposta de Januário Torgal Ferreira ao telegrama]

Quando chegou ontem o telegrama (e antes de o abrir) suspeitei logo da Boa Nova, após as notícias da tua carta de 18 último (…) Pasei há momentos pela redacção do “Le Monde”. Falei com [Henri] Fresquet [o prestigiado jornalista perito da temática religiosa] a quem ia anunciar a notícia. Disse-me que já a sabia por intermédio de uma agência internacional inglesa. Hoje mesmo o “Le Monde” se refere ao caso. Fiquei de lá passar, quando tivesse pormenores do acontecimento, para ser publicada notícia desenvolvida. (…) Vivemos uma grande hora.

 

Retrato oficial de D. António. Foto © Fundação Spes

 
Gaia, 21 de Junho de 1969

“Finda assim uma fase deste doloroso caso”, declarou o nosso bispo aos jornalistas. E findou mesmo.

E a outra fase? Segundo um telefonema feito por D. Domingos de Pinho Brandão, “as coisas estão a correr o melhor possível” (…). Como te dizia, foi a carta de Marcelo Caetano que precipitou os acontecimento. Na que dirigiu ao [padre Alberto de Brito,] abade de Nevogilde [Porto], pedia desculpas pela demora em responder, mas pretendia resolver o caso juntamente com a Santa Sé [o padre Brito foi o primeiro da lista dos padres que apresentaram a Marcelo Caetano, após vários contactos, a urgência do regresso do bispo]. Como esta tardava em se pronunciar, concluiu que não poderia estar a adiar por mais tempo a resolução que competia ao seu governo. Por isso tinha a alegria de comunicar que seguira para o senhor D. António uma carta a anunciar-lhe que poderia entrar no país quando e para onde quisesse.

E D. António não se fez esperar. Entrou no mesmo dia em que recebeu a carta de… chamada…

Entrou pela fronteira alentejana, pois quis assim, expressamente, atravessar de lés a lés a sua primeira diocese: Portalegre. Posso-te informar que encontrei na casa das Dominicanas, padres e leigos de Portalegre (para além dos numerosíssimos padres e leigos do Porto!) a cumprimenta-lo com o ar mais feliz deste mundo. Não posso até esquecer a expressão felicíssima de um leigo, já velhinho e muito simpático, que não tirava dele os olhos pequenos e brilhantes, a transbordar satisfação (…)

Mando-te os recortes dos jornais de ontem e hoje para te aperceberes da sementeira de esperança e desolação que eles semearam a um tempo…

Gaia, 24 de Junho de 1969

(…) Acabo de ler no “Diário de Lisboa” o comunicado do Episcopado português. Diz, a começar, que “dois factos ocorridos durante a sua estadia no Santuário de Fátima, foram motivo de alegria.

O 1º foi a nomeação de D. António Ribeiro, bispo auxiliar de Lisboa, para bispo [responsável] do Apostolado dos Leigos; o 2º, foi a reentrada no país e a chegada a Fátima, na noite de 18 para 19, do Senhor D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, a quem os prelados, em retiro, enviaram uma representação a desejar as boas-vindas, e, depois de um encontro com o Senhor Cardeal-Patriarca [de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira], ouviram, já em assembleia, numa exposição de cerca de uma hora.”

 

Gaia, 29 de Junho de 1969

D. António foi a Lisboa. Quando chegou à Nunciatura, o Núncio recebeu-o com o melhor dos sorrisos e disse-lhe que tudo estava já resolvido!!! Em ordem a poder regressarquanto antesao Porto [sublinhado no original; o regresso viria a acontecer a 6 de Julho seguinte].

Imagina como são as “coisas”!!! (…) “A Voz do Pastor” [jornal da diocese do Porto, cujo título seria mudado por D. António Ferreira Gomes para VozPortucalense] diz no seu último número que os bispos estavam “providencialmente reunidos em Fátima, aquando do regresso do Senhor D. António… Agora tudo é… Graça!

D. António recebido pelo Papa João Paulo II: “Ah, o famoso bispo do Porto”, exclamou o Papa Wojtyla. Foto: Direitos Reservados

 
A coragem da justiça, a terapêutica da verdade (nota final)

Por muito que nos escandalize a duplicidade, acontecimentos como este são um repto à seriedade do procedimento humano, do qual a Igreja deve ser, por actos e maneiras, um exemplo nunca ambíguo. Compreendam-se as falhas. Exija-se sempre a rectificação e a notícia sem habilidades acerca do que ocorreu.

Os receios e medos, os interesses e preconceitos, a ausência de uma avaliação rigorosa, a coragem da justiça, o respeito pelo contraditório, o dizer-se o que se pensa, são valores e contravalores do corrente da vida.

Tantas questões de hoje poderiam ser curadas com a terapêutica da verdade, a qual não pretende ostracizar pessoas mas, somente, com os critérios mais indiscutíveis, superar os erros. A História, pelos vistos, pode ser lição, sobretudo para quem julga saber tudo!

 

Porto, 12 de Junho de 2019

Januário Torgal Ferreira é bispo emérito das Forças Armadas e de Segurança

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