O Reino de Deus – dos Evangelhos às Escrituras Bahá’ís

| 15 Nov 20

Santuário de Bahá’u’lláh, na Terra Santa (Israel). Foto © Bahá’í International Community

 

Expressões como “Reino de Deus” e “Reino dos Céus” são recorrentes nos Evangelhos. Jesus usou dezenas de alusões, parábolas e ensinamentos para explicar essa realidade espiritual. Foi certamente a forma mais adequada que Ele encontrou para explicar o conceito à sua audiência, há cerca de 2000 anos.

Ao longo da história, o cristianismo desenvolveu duas interpretações sobre o “reino de Deus”. Uma dessas interpretações, numa óptica mais simplista, descreve o reino como uma ordem política e social. Há quem entenda isto como uma forma de organização política, uma teocracia cristã, ou um cenário pós-apocalíptico em que Jesus governa directamente a terra. Outra forma de perceber o conceito de Reino de Deus é entendendo que se trata de um processo de transformação e desenvolvimento espiritual das nossas almas, que nos vai aproximando do Criador.

Na verdade, é na riqueza metafórica dos Evangelhos que podemos começar a perceber o que é o Reino. Jesus fala de um reino que não é deste mundo (Jo 18:36) e de um reino que está dentro de nós (Lc 17:20-21), de um reino que está próximo (Mc 1:15), um reino pelo qual se suplica (Mt 6:9-13), um reino para o qual se recebem as chaves (Mt 16:19), um reino que se anuncia (Ac 28:31), um reino onde estão todos os profetas (Lc 13:28-29), um reino onde só se entra nascendo de novo (Jo 3:3-7), um reino que pertence às crianças (Mt 19:13-14). São metáforas de uma beleza extraordinária, e cuja multiplicidade de descrições e significados nos levam a perceber que o Reino é uma realidade imaterial, assente em valores espirituais universais.

O conceito de Reino de Deus – que tem implícito a noção de soberania divina, uma lei de Deus que irá governar os seres humanos – surge também nas Escrituras Bahá’ís. No Livro da Certeza, revelado em 1852, Bahá’u’lláh enriquece e expande o conceito, descrevendo a forma como Deus governa e afirma o Seu domínio sobre o mundo, esclarecendo o significado e a promessa de Jesus sobre o Reino de Deus. Nesta obra, a questão da soberania divina está presente ao longo de todo o texto, sendo o leitor levado a perceber que esta se afirma nas vertentes social e espiritual, interior e exterior, individual e colectiva, sempre através de um processo contínuo e progressivo de revelação divina.

No Livro da Certeza, Bahá’u’lláh esclarece que a soberania de Deus em nada se assemelha à soberania mundana e temporal exercida por dirigentes políticos. O texto recorda que todos os Profetas de Deus foram perseguidos por autoridades políticas e religiosas, sentiram a apatia da população em geral, e até foram traídos por alguns dos que lhes eram mais próximos:

“E agora pondera isto no teu coração: se soberania significasse a soberania terrena e o domínio mundano, se implicasse a sujeição e a lealdade aparente de todos os povos e famílias da terra – com a qual os Seus amados devem ser exaltados e viver em paz, e os Seus inimigos devem ser humilhados e atormentados – essa forma de soberania não seria verdadeira do Próprio Deus, a Fonte de todo o domínio, Cuja majestade e poder todas as coisas testemunham.” (Bahá’u’lláh, The Book of Certitude, ¶133)

Na perspetiva Bahá’í, Deus é transcendente e a Sua Essência é distinta da criação; mas a soberania divina é perceptível em toda a criação. Tal como uma obra de arte reflecte características de um artista, também a criação, desde o mais pequeno átomo à mais grandiosa galáxia, reflecte o Criador. Além disso, a soberania divina é evidente na história da humanidade, onde vimos surgir de forma repetida e evolutiva, os Seus profetas e mensageiros revelando a Sua mensagem com actos e palavras adequados à capacidade e maturidade de diferentes povos, em diferentes épocas.

As palavras dos Profetas – Moisés, Buda, Jesus, Maomé, Bahá’u’lláh e outros – são um anúncio da soberania divina e um convite a permitirmos que as Suas palavras guiem as nossas vidas individuais e colectivas. Cada um de nós tem, obviamente, autonomia para aceitar ou rejeitar a mensagem de Deus. Ao exercer uma soberania espiritual, os Profetas e Mensageiros de Deus não forçam os povos à submissão; as Suas palavras e ensinamentos, quando postos em prática, permitem-nos espelhar a influência da soberania divina nas nossas próprias vidas e na sociedade em que vivemos.

Essa transformação espiritual das nossas almas, essa aceitação consciente dos ensinamentos divinos que visam a evolução social e espiritual da humanidade, é o propósito de todas as revelações divinas:

“E, no entanto, não é o objectivo de toda a Revelação efectuar uma transformação em todo o carácter da humanidade, uma transformação que se manifestará, exteriormente e interiormente, que afectará tanto a sua vida interior como as suas condições externas? Se o carácter da humanidade não mudasse, a inutilidade dos Manifestantes universais de Deus seria evidente.” (Baha’u’llah, The Book of Certitude, ¶270)

As escrituras sagradas de todas as religiões mostram que os Profetas e Mensageiros de Deus nos convidam a sermos cidadãos do Reino e reflexos da soberania divina. A resposta a este convite é uma decisão de cada um de nós.

 

Marco Oliveira é membro da Comunidade Bahá’í de Portugal

 

Precisamos de nos ouvir (21) – Luísa Ribeiro Ferreira: Um confinamento na companhia de Espinosa

Precisamos de nos ouvir (21) – Luísa Ribeiro Ferreira: Um confinamento na companhia de Espinosa novidade

Recebi do 7MARGENS um convite para escrever sobre a minha experiência desta pandemia, partilhando a fragilidade da condição que actualmente vivemos. Respondo recorrendo a Espinosa, o filósofo com quem mais tenho dialogado e que durante o presente confinamento revisitei várias vezes, quer por obrigação (atendendo a compromissos) quer por devoção (a leitura das suas obras é sempre gratificante).

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Crónica

Os Dias da Semana – Cacofonia

Os Dias da Semana – Cacofonia novidade

É cruel a guerra pelos dois ou três minutos de fama nos media; é feroz o combate por visualizações, partilhas e comentários nas redes sociais. A atenção é um bem escasso que é preciso disputar sem piedade. A intensificação da concorrência oferece uma cacofonia deplorável.

Breves

Peditório digital da Cáritas entre 28 de fevereiro e 7 de março

O peditório nacional da rede Caritas vai pela segunda vez decorrer em formato digital, podendo os donativos ser realizados, durante a próxima semana, de 28 de fevereiro a 7 de março, diretamente no sítio da Cáritas Nacional ou por transferência bancária.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Espanha: Consignações do IRS entregam 300 milhões à Igreja Católica novidade

Os contribuintes espanhóis entregaram 301,07 milhões de euros à Igreja Católica ao preencherem a seu favor a opção de doarem 0,7% do seu IRPF (equivalente espanhol ao IRS português). Este valor, relativo aos rendimentos de 2019, supera em 16,6 milhões o montante do ano anterior e constitui um novo máximo histórico.

Frequência dos seminários continua em queda em Espanha novidade

A Conferência Episcopal Espanhola tornou público que a totalidade dos seminários existentes no país é frequentada neste ano letivo 2020-21 por 1893 alunos. O comunicado da Comissão para o Clero e os Seminários, divulgado nesta quarta-feira, 3 de março, especifica existirem 1066 jovens nos seminários maiores e 827 a estudar nos seminários menores (que correspondem ao ensino até ao 12º ano).

O 7MARGENS em entrevista na Rede Social, da TSF

António Marujo, diretor do 7MARGENS, foi o entrevistado do programa Rede Social, da TSF, que foi para o ar nesta terça-feira, dia 23, conduzido, como habitualmente, pelo jornalista Fernando Alves.

Parlamento palestino vai ter mais dois deputados cristãos

Sete das 132 cadeiras do Conselho Legislativo Palestino (Parlamento) estão reservadas para cidadãos palestinos de fé cristã, determina um decreto presidencial divulgado esta semana. O diploma altera a lei eleitoral recém-aprovada e acrescenta mais dois lugares aos anteriormente reservados a deputados cristãos.

Tribunal timorense inicia julgamento de ex-padre pedófilo

O ex-padre Richard Daschbach, de 84 anos, antigo membro dos missionários da Sociedade do Verbo Divino, começou a ser julgado segunda-feira, 22, em Timor-Leste, acusado de 14 crimes de abuso sexual de adolescentes com menos de 14 anos, de atividades ligadas a pornografia infantil e de violência doméstica.

Entre margens

França: a Marianne de barrete frígio ficou traumatizada novidade

Os políticos europeus em geral não sabem nada do fenómeno religioso. Pior. Fingem que sabem e não se rodeiam de quem os possa esclarecer. Entretanto, a França parece querer trilhar um caminho perigoso. Quando o governo coloca as leis republicanas ao mesmo nível da lei de Deus, faz da república uma deusa e do secularismo uma religião.

Banco da solidariedade, experiência única

Sobre uma oportunidade de resistência coletiva     Muito se tem escrito e tenho escrito sobre a falta de saúde mental a que, provavelmente, estamos e estaremos sujeitos durante e após esta pandemia. Os números crescem, traduzidos por sofrimentos enquadráveis...

Que futuro, Iémen?

O arrastar do conflito tornou insuficiente a negociação apenas entre Hadi e houthis, já que somados não controlam a totalidade do território e é difícil encontrar uma solução que satisfaça todos os atores. Isso será ainda mais difícil porque as alianças não são sólidas, os objetivos são contraditórios e enquanto uns prefeririam terminar a guerra depressa, outros sairiam beneficiados se o conflito continuasse. Além disso, muitos são os que enriquecem à custa dele. Para esses, o melhor é que este não termine.

Cultura e artes

Canções para estes tempos de inquietação 

No ano em que Nick Cave se sentou sozinho ao piano, para nos trazer 22 orações muito pessoais, desde o londrino Alexandra Palace para todo o mundo, numa transmissão em streaming, o australiano dedicou-se também à escrita de 12 litanias a convite do compositor neoclássico belga Nicholas Lens.

Franz Jalics, in memoriam: a herança mais fecunda

Correr-se-ia o risco de passar despercebido o facto de ser perder um dos mais interessantes e significativos mestres da arte da meditação cristã do século XX, de que é sinal, por exemplo, o seu reconhecimento como mestre espiritual (a par de Charles de Foucauld) pela conhecida associação espanhola Amigos del Desierto, fundada por Pablo d’Ors.

A luta de Abel com o Caim dentro dele

Como escrever sobre um filme que nos parece importante, mas nem sequer foi daqueles que mais nos entusiasmou? E, no entanto, parece “obrigatório” escrever sobre ele, o último filme de Abel Ferrara, com o seu alter-ego e crístico Willem Dafoe: Sibéria.

As ignoradas Mães (Madres) do Deserto

As “Mães” do Deserto foram, de par com os Padres do Deserto, mulheres ascetas cristãs que habitavam os desertos da Palestina, Síria e Egito nos primeiros séculos da era cristã (III, IV e V). Viveram como eremitas tal como muitos padres do deserto e algumas formaram pequenas comunidades monásticas.

Sete Partidas

Vacinas: Criticar sem generalizar

Alguns colegas de coro começaram a falar dos espertinhos – como o político que se ofereceu (juntamente com os seus próximos) para tomar as vacinas que se iam estragar, argumentando que assim davam um bom exemplo aos renitentes. Cada pessoa tinha um caso para contar. E eu ouvia, divertida.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This