O relógio parou com a bomba mas o dono adiantou os jesuítas no tempo – e agora o padre Arrupe pode ser beatificado
O relógio parou-lhe nas 8h15 quando a bomba de Hiroshima explodiu a poucos quilómetros, esteve preso por acusação de espionagem, ajoelhou-se diante da estátua do Marquês de Pombal… O processo para a beatificação do padre Pedro Arrupe, superior dos jesuítas entre 1965 e 1983, iniciou-se hoje em Roma.

Pedro Arrupe, no terraço da Cúria Geral dos jesuítas, junto do Vaticano (foto: direitos reservados)
No pulso, o relógio tinha parado nas 8h15. Foi no dia 6 de Agosto de 1945 e até morrer, em 1991, nunca mais deixou de o usar, sempre a indicar a mesma hora. “Aquele relógio, silencioso e paralisado, foi para mim um símbolo, converteu-se num fenómeno para-histórico. Não é uma recordação, é uma vivência perpétua forrada de história, que não acontece sem o seu tiquetaque. O ponteiro parou e Hiroshima deteve-se, cravada no nosso espírito”, escreveria mais tarde.
Nesta terça-feira, 5 de Fevereiro, iniciou-se em Roma o processo de beatificação do padre Pedro Arrupe (1907-1991), no dia em que se completaram 28 anos sobre a sua morte. Em 1945, quando a bomba atómica explodiu nos céus de Hiroshima, matando entre 100 mil e 160 mil pessoas só nos primeiros quatro meses, Arrupe era responsável da casa de formação dos jesuítas em Hiroshima (Japão). Vinte anos depois, ele seria eleito como o 28º superior geral dos jesuítas.
Nesse cargo, e apesar do relógio parado que trazia no pulso, Arrupe adiantou os jesuítas muito para a frente do seu tempo: “O cardeal espanhol Enrique y Tarancón afirmou, há já muitos anos, que Arrupe se tinha adiantado ao seu tempo e que o mundo não estava suficientemente preparado para compreendê-lo totalmente”, disse ao PontoSJ, portal dos jesuítas portugueses, Pedro Miguel Lamet, biógrafo de Arrupe e ele próprio padre jesuíta. “Ter-se-ia que esperar pela hora de Arrupe e, felizmente, essa hora chegou”, acrescentava.
O futuro que ele antecipou verificou-se em várias das suas orientações e decisões: foi ele que, perante o drama dos boat-peopledo Vietname, impulsionou em 1980 a criação do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS); ao mesmo tempo, encorajava os seus colegas envolvidos na reflexão sobre o papel da teologia da libertação latino-americana, com muitos deles a ensinar em universidades – e vários pagaram a ousadia com a vida; denunciava a miséria em que tantas pessoas vivem no mundo ou a corrida aos armamentos, promovendo na Companhia estruturas que procuravam ligar fé e justiça; defendia a abertura da Igreja Católica ao diálogo inter-religioso e com os não-crentes, ou a uma maior participação das mulheres.
“A casa estremeceu”
Nascido em 1907 em Bilbau, no País Basco espanhol, tal como o fundador da Companhia de Jesus, Inácio (Iñigo) de Loiola, Arrupe estudou medicina antes de entrar para o noviciado jesuíta, precisamente na localidade de onde Santo Inácio era originário. Foi isto em 1927, cinco anos antes de a República Espanhola ter decretado a dissolução da Companhia de Jesus. Prosseguiu os estudos em Marneffe (Bélgica) e Valkenburg (Holanda). Ordenado padre em 1936, foi completar os estudos de Teologia no Kansas (Estados Unidos). Entretanto, pedira já aos superiores para ir para o Japão, o que teve resposta positiva em 1938.
Em 1940, Arrupe é enviado para a paróquia de Yamaguchi, onde Francisco Xavier também estivera. Em 1941, chegou a ser detido, no dia seguinte à entrada do Japão na II Guerra Mundial, contra os Estados Unidos e os Aliados. Acusado de espionagem, esteve preso durante um mês numa cela de quatro metros quadrados. Nomeado como mestre de noviços para a casa de formação de Nagatsuka, nos arredores de Hiroshima, foi testemunha privilegiada do que se passou nos momentos, dias e meses seguintes. Em 1958, quando os jesuítas japoneses se autonomizaram como província, foi o seu primeiro responsável, cargo em que permaneceu até ser eleito superior geral da Companhia.
Na biografia Pedro Arrupe – o polémico superior-geral dos jesuítas(ed. Tenacitas/Apostolado da Oração), Pedro Miguel Lamet, também espanhol, conta o que ouvira do homem que transformou o rosto da Companhia de Jesus. Arrupe tinha acabado de pôr o seu quarto em ordem e falava com um colega, quando sentiu a bomba – ainda sem saber exactamente o que sucedera: “A casa estremeceu. Uma chuva de destroços não parava de cair sobre Arrupe e o companheiro, que protegiam instintivamente a cabeça com as mãos, estendidos e imóveis no solo.”
A primeira preocupação foi confirmar que ninguém em casa ficara ferido. Depois de se recolher uns instantes na capela, decidiu transformar a casa num hospital improvisado. Foi então que reparou no relógio parado. “Aquele relógio, silencioso e paralisado, foi para mim um símbolo…”, escreveria, anos mais tarde.
Não era pretensiosismo organizar um hospital de campanha, já que Arrupe tinha formação médica básica. Em poucas horas, 200 pessoas acorreram à casa. Anos mais tarde, essa experiência daria origem ao livro Yo viví la bomba atómica(ed. Mensajero).
Ajoelhado diante do Marquês de Pombal

O padre Arrupe ajoelhado diante da estátua do Marquês de Pombal, em Lisboa: a reconciliação dos jesuítas com o perseguidor da Companhia (foto: direitos reservados)
A cerimónia desta terça-feira, que decorreu na Aula della Conciliazione, no palácio apostólico de Latrão, foi presidida pelo cardeal Angelo de Donatis, vigário real para a diocese de Roma. Donatis destacou, entre outras coisas, o “legado duradouro e particularmente expressivo da espiritualidade e inspiração” do padre Arrupe, que constitui o JRS, conta o padre jesuíta António Ary, que participou na cerimónia.
Em Junho de 1980, Arrupe esteve em Portugal. Num dos gestos ousados que protagonizou, quando um dia visitava os lugares ligados à presença jesuíta em Lisboa, parou junto da estátua do Marquês de Pombal. “Saiu do carro e ajoelhou-se no primeiro degrau da escadaria que está junto à estátua e começou a rezar”, lembrava Avelino Ribeiro, irmão jesuíta. “Foi um sinal de perdão da Companhia de Jesus, na pessoa do seu superior geral, para com o que o Marquês de Pombal fez aos jesuítas. Ficámos todos em silêncio. Só uma pessoa como ele seria capaz daquele gesto”.
O padre António Lopes, historiador e também jesuíta, que estudou muito a época e a personalidade do Marquês de Pombal, acrescentava, em 2002, em entrevista ao Público, que o gesto de Arrupe também podia ser lido como uma homenagem do antigo geral ao homem que expulsou os jesuítas e, com isso, os obrigou a reaproximar-se do evangelho.
Manuel Morujão, que já foi provincial dos jesuítas em Portugal, também conheceu Arrupe o seu antigo geral. E sublinha que ele “não recuou nas reformas que havia a implementar”, além de recordar a sua “grande amabilidade, delicadeza e sentido de humor, temperadas “com firmeza e decisões claras”. Fazendo o paralelo com a actualidade, Morujão diz que Pedro Arrupe promoveu a ideia da Igreja como “hospital de campanha, enfrentando as dificuldades com coragem, curando feridas e abrindo horizontes de esperança”.
O Papa João Paulo II não lhe fez a vida fácil. Já debilitado por razões de saúde, Arrupe viu-se forçado a aceitar um delegado pessoal do Papa, em 1981, para governar a companhia. Morujão diz que o Papa polaco acabou por ser um admirador do jesuíta basco, acabando por ir visitá-lo várias vezes, quando Arrupe ficou limitado nos seus movimentos. Também por essa intervenção de João Paulo II nos destinos da Companhia de Jesus, só agora foi possível abrir o processo de beatificação: há anos, o anterior geral dos jesuítas confidenciou a Lamet “que o assunto não era consensual porque ainda havia no Vaticano monsenhores contrários a Arrupe”.
Conta-se que o antigo geral dizia a cada jesuíta que partia em missão: “Deixe na sua terra, ao passar na fronteira, a bagagem de muitos dos seus gostos, da sua mentalidade, das suas paixões. Leve consigo um amor grande a Cristo e isso em abundância, pois o resto não vai precisar, irá pesar-lhe muito.”
“Como rezava sentado à maneira oriental”, conta ainda o biógrafo Pedro Miguel Lamet, “um dia perguntei-lhe de que estilo era a sua oração: contemplativa, de quietude, ocidental, oriental. Respondeu-me: ‘de todos os estilos’. Creio que era um místico, unido a Deus, desprendido de si mesmo e, como ele dizia, ‘um homem para os outros’.”
Breves
José Allamano e a Consolata
Exposição fotográfica revela 100 anos de história das missões
Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
Jerusalém: ataques violentos a cristãos quase duplicaram em dois anos
Os ataques violentos a cristãos em Israel e em Jerusalém oriental ocupada estão a tornar-se cada vez mais frequentes, tendo quase duplicado nos dois últimos anos, de acordo com organizações israelitas citadas pelo órgão público de rádio alemão Deutsche Welle (DW).
Apelo ao Governo
Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública
Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
Sexta-feira Santa
Papa carrega a cruz e meditações da Via Sacra dão voz ao sofrimento dos povos do Médio Oriente
O Papa presidirá a todas as 14 estações da Via Sacra no Coliseu de Roma, carregando a cruz pessoalmente durante toda a liturgia, que será marcada pelas meditações escritas pelo frei franciscano Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa (2016-2025) e que atualmente vive no santuário do Memorial de Moisés no Monte Nebo, na Jordânia.
Boas notícias
Apelo de Metz
Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana
Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.
Outras margens
Cultura e artes
Livro em cinco línguas
“Diário Privado do Papa Francisco” revelado em novembro
Em italiano, francês, espanhol, inglês e português: é nestas cinco línguas, para 94 países, que será editado a 24 de novembro o diário do Papa Francisco, anotado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, pela Editora do Vaticano.
7MARGENS é co-organizador
Como os média religiosos viveram a nova liberdade de imprensa pós-25 de Abril
“Liberdade de imprensa: revolução e democracia em Portugal” é o tema do colóquio que, no dia 22 de Outubro, colocará em debate, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, investigadores e protagonistas do período pós-25 de Abril de 1974, para aprofundar questões relacionadas com a imprensa – incluindo a religiosa – durante a revolução democrática.
NAZA estreou nos cinemas
O filme israelita que documenta o genocídio em Gaza
Os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor trazem-nos um filme, NAZA, que é um objeto de cinema que ultrapassa os limites do ecrã e nos coloca frente a frente com a máquina de morte que Israel montou para destruir Gaza – cometendo genocídio.
In Memoriam
Walter Osswald (1928-2026): um homem sólido, um grande coração
Há vidas tão belas, tão ricas e tão bem preenchidas que a sua morte, apesar e além da profunda tristeza que suscita, consegue ao mesmo tempo segregar o perfume de um profundo êxito. É o caso de Walter Osswald [cientista e professor universitário, que morreu no passado dia 22 de setembro, dois dias depois de ter completado 98 anos].
Pessoas
Preocupado com acesso aos cereais da Ucrânia
Papa Leão fará cirurgia nos próximos dias para retirar nódulo do pulmão novidade
O Papa Leão XIV anunciou esta manhã que será sujeito a uma cirurgia nos “próximos dias”, para retirar “um nódulo circunscrito no pulmão”, que “foi identificado numa fase muito inicial e bem localizado”.
Sete Partidas
[Sete Partidas]
As cápsulas novidade
No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].
Visto e Ouvido
Agenda
[ai1ec view=”agenda”]
Entre margens
[Entre Margens]
Joana Lopes: 88 cravos à sua memória
No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].
[Entre Margens]
Guerras e mudanças de regime
Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].
[Entre Margens]
A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber
Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].















