O relógio parou com a bomba mas o dono adiantou os jesuítas no tempo – e agora o padre Arrupe pode ser beatificado

| 5 Fev 19 | Destaques, Igreja Católica, Últimas

O relógio parou-lhe nas 8h15 quando a bomba de Hiroshima explodiu a poucos quilómetros, esteve preso por acusação de espionagem, ajoelhou-se diante da estátua do Marquês de Pombal… O processo para a beatificação do padre Pedro Arrupe, superior dos jesuítas entre 1965 e 1983, iniciou-se hoje em Roma.

Pedro Arrupe, no terraço da Cúria Geral dos jesuítas, junto do Vaticano (foto: direitos reservados)

No pulso, o relógio tinha parado nas 8h15. Foi no dia 6 de Agosto de 1945 e até morrer, em 1991, nunca mais deixou de o usar, sempre a indicar a mesma hora. “Aquele relógio, silencioso e paralisado, foi para mim um símbolo, converteu-se num fenómeno para-histórico. Não é uma recordação, é uma vivência perpétua forrada de história, que não acontece sem o seu tiquetaque. O ponteiro parou e Hiroshima deteve-se, cravada no nosso espírito”, escreveria mais tarde.

Nesta terça-feira, 5 de Fevereiro, iniciou-se em Roma o processo de beatificação do padre Pedro Arrupe (1907-1991), no dia em que se completaram 28 anos sobre a sua morte. Em 1945, quando a bomba atómica explodiu nos céus de Hiroshima, matando entre 100 mil e 160 mil pessoas só nos primeiros quatro meses, Arrupe era responsável da casa de formação dos jesuítas em Hiroshima (Japão). Vinte anos depois, ele seria eleito como o 28º superior geral dos jesuítas.

Nesse cargo, e apesar do relógio parado que trazia no pulso, Arrupe adiantou os jesuítas muito para a frente do seu tempo: “O cardeal espanhol Enrique y Tarancón afirmou, há já muitos anos, que Arrupe se tinha adiantado ao seu tempo e que o mundo não estava suficientemente preparado para compreendê-lo totalmente”, disse ao PontoSJ, portal dos jesuítas portugueses, Pedro Miguel Lamet, biógrafo de Arrupe e ele próprio padre jesuíta. “Ter-se-ia que esperar pela hora de Arrupe e, felizmente, essa hora chegou”, acrescentava.

O futuro que ele antecipou verificou-se em várias das suas orientações e decisões: foi ele que, perante o drama dos boat-peopledo Vietname, impulsionou em 1980 a criação do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS); ao mesmo tempo, encorajava os seus colegas envolvidos na reflexão sobre o papel da teologia da libertação latino-americana, com muitos deles a ensinar em universidades – e vários pagaram a ousadia com a vida; denunciava a miséria em que tantas pessoas vivem no mundo ou a corrida aos armamentos, promovendo na Companhia estruturas que procuravam ligar fé e justiça; defendia a abertura da Igreja Católica ao diálogo inter-religioso e com os não-crentes, ou a uma maior participação das mulheres.

 

“A casa estremeceu”

Nascido em 1907 em Bilbau, no País Basco espanhol, tal como o fundador da Companhia de Jesus, Inácio (Iñigo) de Loiola, Arrupe estudou medicina antes de entrar para o noviciado jesuíta, precisamente na localidade de onde Santo Inácio era originário. Foi isto em 1927, cinco anos antes de a República Espanhola ter decretado a dissolução da Companhia de Jesus. Prosseguiu os estudos em Marneffe (Bélgica) e Valkenburg (Holanda). Ordenado padre em 1936, foi completar os estudos de Teologia no Kansas (Estados Unidos). Entretanto, pedira já aos superiores para ir para o Japão, o que teve resposta positiva em 1938.

Em 1940, Arrupe é enviado para a paróquia de Yamaguchi, onde Francisco Xavier também estivera. Em 1941, chegou a ser detido, no dia seguinte à entrada do Japão na II Guerra Mundial, contra os Estados Unidos e os Aliados. Acusado de espionagem, esteve preso durante um mês numa cela de quatro metros quadrados. Nomeado como mestre de noviços para a casa de formação de Nagatsuka, nos arredores de Hiroshima, foi testemunha privilegiada do que se passou nos momentos, dias e meses seguintes. Em 1958, quando os jesuítas japoneses se autonomizaram como província, foi o seu primeiro responsável, cargo em que permaneceu até ser eleito superior geral da Companhia.

Na biografia Pedro Arrupe – o polémico superior-geral dos jesuítas(ed. Tenacitas/Apostolado da Oração), Pedro Miguel Lamet, também espanhol, conta o que ouvira do homem que transformou o rosto da Companhia de Jesus. Arrupe tinha acabado de pôr o seu quarto em ordem e falava com um colega, quando sentiu a bomba – ainda sem saber exactamente o que sucedera: “A casa estremeceu. Uma chuva de destroços não parava de cair sobre Arrupe e o companheiro, que protegiam instintivamente a cabeça com as mãos, estendidos e imóveis no solo.”

A primeira preocupação foi confirmar que ninguém em casa ficara ferido.  Depois de se recolher uns instantes na capela, decidiu transformar a casa num hospital improvisado. Foi então que reparou no relógio parado. “Aquele relógio, silencioso e paralisado, foi para mim um símbolo…”, escreveria, anos mais tarde.

Não era pretensiosismo organizar um hospital de campanha, já que Arrupe tinha formação médica básica. Em poucas horas, 200 pessoas acorreram à casa. Anos mais tarde, essa experiência daria origem ao livro Yo viví la bomba atómica(ed. Mensajero).

 

Ajoelhado diante do Marquês de Pombal

O padre Arrupe ajoelhado diante da estátua do Marquês de Pombal, em Lisboa: a reconciliação dos jesuítas com o perseguidor da Companhia (foto: direitos reservados)

A cerimónia desta terça-feira, que decorreu na Aula della Conciliazione, no palácio apostólico de Latrão, foi presidida pelo cardeal Angelo de Donatis, vigário real para a diocese de Roma. Donatis destacou, entre outras coisas, o “legado duradouro e particularmente expressivo da espiritualidade e inspiração” do padre Arrupe, que constitui o JRS, conta o padre jesuíta António Ary, que participou na cerimónia.

Em Junho de 1980, Arrupe esteve em Portugal. Num dos gestos ousados que protagonizou, quando um dia visitava os lugares ligados à presença jesuíta em Lisboa, parou junto da estátua do Marquês de Pombal. “Saiu do carro e ajoelhou-se no primeiro degrau da escadaria que está junto à estátua e começou a rezar”, lembrava Avelino Ribeiro, irmão jesuíta. “Foi um sinal de perdão da Companhia de Jesus, na pessoa do seu superior geral, para com o que o Marquês de Pombal fez aos jesuítas. Ficámos todos em silêncio. Só uma pessoa como ele seria capaz daquele gesto”.

O padre António Lopes, historiador e também jesuíta, que estudou muito a época e a personalidade do Marquês de Pombal, acrescentava, em 2002, em entrevista ao Público, que o gesto de Arrupe também podia ser lido como uma homenagem do antigo geral ao homem que expulsou os jesuítas e, com isso, os obrigou a reaproximar-se do evangelho.

Manuel Morujão, que já foi provincial dos jesuítas em Portugal, também conheceu Arrupe o seu antigo geral. E sublinha que ele “não recuou nas reformas que havia a implementar”, além de recordar a sua “grande amabilidade, delicadeza e sentido de humor, temperadas “com firmeza e decisões claras”. Fazendo o paralelo com a actualidade, Morujão diz que Pedro Arrupe promoveu a ideia da Igreja como “hospital de campanha, enfrentando as dificuldades com coragem, curando feridas e abrindo horizontes de esperança”.

O Papa João Paulo II não lhe fez a vida fácil. Já debilitado por razões de saúde, Arrupe viu-se forçado a aceitar um delegado pessoal do Papa, em 1981, para governar a companhia. Morujão diz que o Papa polaco acabou por ser um admirador do jesuíta basco, acabando por ir visitá-lo várias vezes, quando Arrupe ficou limitado nos seus movimentos. Também por essa intervenção de João Paulo II nos destinos da Companhia de Jesus, só agora foi possível abrir o processo de beatificação: há anos, o anterior geral dos jesuítas confidenciou a Lamet “que o assunto não era consensual porque ainda havia no Vaticano monsenhores contrários a Arrupe”.

Conta-se que o antigo geral dizia a cada jesuíta que partia em missão: “Deixe na sua terra, ao passar na fronteira, a bagagem de muitos dos seus gostos, da sua mentalidade, das suas paixões. Leve consigo um amor grande a Cristo e isso em abundância, pois o resto não vai precisar, irá pesar-lhe muito.”

“Como rezava sentado à maneira oriental”, conta ainda o biógrafo Pedro Miguel Lamet, “um dia perguntei-lhe de que estilo era a sua oração: contemplativa, de quietude, ocidental, oriental. Respondeu-me: ‘de todos os estilos’. Creio que era um místico, unido a Deus, desprendido de si mesmo e, como ele dizia, ‘um homem para os outros’.”

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