No Mosteiro Trapista de Palaçoulo

O renascer da Ordem Cisterciense em Portugal

| 4 Ago 2022

mosteiro trapista palaçoulo portão entrada

“Monjas italianas escolheram Portugal e estabeleceram-se aqui. Neste lugar aberto às montanhas azuis, ao longe; terra ressequida de xisto.” Foto © Maria Eugénia Abrunhosa.

 

Filha de Trás-os-Montes e Alto Douro, acolhi com muita alegria a notícia da construção de um Mosteiro Cisterciense Trapista no planalto mirandês. Monjas italianas escolheram Portugal e estabeleceram-se aqui. Neste lugar aberto às montanhas azuis, ao longe; terra ressequida de xisto: urze, estevas, plantas rasteiras, juntamente com velhos carvalhos e sobreiros. Terra amarela do centeio. Cabras, ovelhas, vacas – o que resta. Nas aldeias, casas fechadas, tantas…

Terra escalavrada, seca, que as monjas estão a transformar num jardim: em dois anos, de intenso trabalho, há já pomares, colmeias. Jovens mulheres arrancam pedras pesadas com as mãos, colocando-as depois num atrelado para tractor. Sobretudo, há o silêncio da abundância, da felicidade sem limites, nos cantos das vozes femininas, abraçando terra e céu. Nas Horas devidas, na capela da Hospedaria do Mosteiro Trapista.

Em seguida, transcrevo uma curta entrevista à Madre Giuseppina, Superiora do Mosteiro.

 

“A coisa mais interessante na vida é conhecer Jesus Cristo”
mosteiro trapista palaçoulo madre giusepinna

A Superiora do mosteiro, Madre Giusepinna, nasceu perto de Milão (Itália) e entrou para a Ordem Cisterciense aos 24 anos. Foto © Maria Eugénia Abrunhosa.

Madre Giuseppina, onde nasceu?
Em Cremona, perto de Milão.

Quando entrou para o Mosteiro – agora Monastero Trappiste, Victorchiano, Itália?
Aos 24 anos; há 34 anos que estou no Mosteiro.

Por que razão escolheram Portugal para fundar o vosso Mosteiro?
Portugal foi, por tradição, terra cisterciense. Foi também pela fé viva presente no santuário de Fátima. Portanto, pela Nossa Senhora de Fátima.

Mas porque escolheram Trás-os-Montes, interior pobre, abandonado, esquecido, em Portugal?
O bispo da Bragança–Miranda – é agora arcebispo de Braga – soube que estávamos interessadas em fundar em Portugal um mosteiro. E disponibilizou-se a encontrar um lugar. E foi aqui.

Muito bem: pertíssimo de Palaçoulo, perto de Miranda do Douro e não muito longe de Mogadouro. Interessante… neste momento, o estaleiro da construção do Mosteiro está em plena efervescência. Quando estará pronto?
Disseram-me que estará pronto em Agosto de 2023.

A Hospedaria do Mosteiro terá quartos para cerca de 40 hóspedes. Neste momento, devido ao Mosteiro estar em construção, tem disponíveis 5 quartos para hóspedes (faço aqui um parêntesis: o Mosteiro não apresenta um preço fixo para os hóspedes; estes pagam segundo as suas possibilidades). No resto do espaço, vive a comunidade que iniciou o arranque: a Madre e 9 monjas. Têm recebido muitos hóspedes?
Sim, temos geralmente tudo ocupado, no Verão. Portugueses, na sua maioria, e também espanhóis.

Quais foram os principais obstáculos que encontraram? Como foram recebidos pelos habitantes? Têm já alguns terrenos plantados, amendoeiras… bem precisam, para fazer os diversos e deliciosos biscoitos de amêndoas; um pomar de diversas árvores de fruto; colmeias…
No primeiro ano da nossa estadia, o Inverno foi muito frio, vinham também duas monjas com covid. Este último Inverno foi mais ameno. Mas o Verão é muito quente. Bom, há um enraizamento progressivo… As pessoas, no início, prestaram-nos auxílio, nas questões relacionadas com a saúde, relativas ao à covid e outras. Fomos muito bem recebidas pelos habitantes.

Qual é o estado de espírito agora, da comunidade?
Isto é um desígnio do Senhor. O Senhor é fiel e cheio de misericórdia. Não temos que nos lamentar.

O que pensa da actual situação da Igreja católica? O Sínodo, em especial.
A Igreja é um porto de segurança e de paz. Faz parte da vida e do caminho da Igreja o que se passa agora.

Quer dizer alguma coisa aos leitores do 7Margens?
A coisa mais interessante na vida é conhecer Jesus Cristo, Verdadeiro Deus e Nosso Salvador.

 

700 anos em Portugal
mosteiro trapista palaçoulo construcao

O Mosteiro, que se encontra ainda em construção, deverá estar concluído em agosto de 2023. Foto © Maria Eugénia Abrunhosa.

 

Os Mosteiros Trapistas pertencem à Ordem de Cister, ou Cisterciense, fundada por três abades nos fins do século XI: o primeiro, Roberto de Molesmes com 21 monges; depois, Alberico; o terceiro, Estêvão Harding [1]. Posteriormente, em 1112, «Bernardo de Claraval – mais conhecido devido ao seu nível espiritual – entrou em Citeaux com 30 amigos. Foi assim que começou a florescer Citeaux e a espalhar-se por toda a Europa» [2].

Baseando-se na Regra de S. Bento (cujo autor é Bento de Núrsia, 480-547, fundador da Ordem Beneditina), a Ordem de Cister pretendia «restabelecer um equilíbrio entre a Oração Litúrgica, Trabalho, e Lectio Divina. Desejavam simplificar a Oração litúrgica» [1]. Os próprios monges voltaram a fazer trabalho manual, o que antes não acontecia. Além disso, aconselhava-se a construção do mosteiro em espaços de silêncio; enfim, procurar um maior despojamento. [2]

“Em 1791, o Abade da Igreja de Nossa Senhora de Trapa (França), juntamente com 22 monges, funda os Mosteiros Trapistas da Ordem de Cister” [1], “baseando-se numa clausura mais rigorosa: mais silêncio, mais afastamento do mundo, mais jejum”. [2]  Existem duas ordens trapistas: – Ordem Cisterciense da Comum Observância (OCCO); – Ordem Cisterciense da Estrita Observância (OCSO). [1] “O primeiro e mais conhecido foi o Mosteiro de Alcobaça, oferecido pelo rei D. Afonso Henriques ao próprio S. Bernardo.” [2] Mas um decreto de 1834 extinguiu todos os conventos em Portugal.

Resta ainda muita coisa, desses mosteiros cistercienses: o de S. João de Tarouca, conservando ainda a sua majestade (Tarouca, perto de Lamego); o de S. Pedro das Águias (Tabuaço, Alto Douro); o de Sta. Maria do Bouro (Braga), e muitos, muitos mais. Mosteiros cistercienses femininos: os primeiros, fundados pelas três filhas de D. Sancho I (século XIII): D. Teresa, o Mosteiro de Sta. Maria do Lorvão (perto de Coimbra); D. Sancha, o de Sta. Maria de Celas (Coimbra); D. Mafalda, o Mosteiro de Arouca (Aveiro). Mas houve mais.

O Mosteiro Cisterciense Trapista de Palaçoulo representa um novo começo de vida da Ordem de Cister que floresceu durante tanto tempo em Portugal, enriquecendo de diversas maneiras a cultura do país.

Por isso devemos estar muito gratos à Madre e às monjas italianas, provenientes do Monastero Trappiste Victorchiano, que desbravando terra de cultivo estão a criar raízes cistercienses, com vigor e com a fé em Jesus Cristo, Nosso Salvador.

 

Notas:

[1] – Farinha, José Luís dos Santos, «Buscadores de Deus»- no caminho cisterciense – 700 anos de vida monástica cisterciense, Paulinas editora, 2006.[2] – notas da Madre Guippine, Mosteiro Trapista de Palaçoulo.

 

Judeus do Partido Trabalhista atacam política de Israel

Reino Unido

Judeus do Partido Trabalhista atacam política de Israel novidade

Glyn Secker, secretário da Jewish Voice For Labor – uma organização que reúne judeus membros do Partido Trabalhista ­–, lançou um violento ataque aos “judeus que colocam Israel no centro da sua identidade” e classificou o sionismo como “uma obscenidade” ao discursar no dia 10 diante de Downing Street, durante um protesto contra os ataques de Israel na faixa de Gaza.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Evento "importantíssimo" para o país

Governo assume despesas da JMJ que Moedas recusou

A ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, chegou a acordo com o presidente da Câmara de Lisboa sobre as Jornadas Mundiais da Juventude, comprometendo-se a – tal como exigia agora Carlos Moedas – assumir mais despesa do evento do que aquela que estava inicialmente prevista, noticiou o Expresso esta quarta-feira, 3.

Multiplicar o número de leitores do 7MARGENS

Em 15 dias, 90 novos assinantes

Durante o mês de julho o 7MARGENS registou 90 novos leitores-assinantes, em resultado do nosso apelo para que cada leitor trouxesse outro assinante. Deste modo, a Newsletter diária passou a ser enviada a 2.863 pessoas. Estamos ainda muto longe de duplicar o número de assinantes e chegar aos 5.000, pelo que mantemos o apelo feito a 18 de julho: que cada leitor consiga trazer outro.

Parceria com Global Tree

JMJ promove plantação de árvores

A Fundação Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 e a Global Tree Initiative estabeleceram uma parceria com o objectivo de levar os participantes e responsáveis da organização da jornada a plantar árvores. A iniciativa pretende ser uma forma de assinalar o Dia Mundial da Conservação da Natureza, que se assinala nesta quinta-feira, 28 de julho.

Representante dos sobreviventes de Nagasaki solidário com a Ucrânia

Nos 77 anos do ataque atómico

Representante dos sobreviventes de Nagasaki solidário com a Ucrânia

“Apelo a todos os membros” do Parlamento japonês, “bem como aos membros dos conselhos municipais e provinciais” para que se “encontrem com os hibakusha (sobreviventes da bomba atómica), ouçam como eles sofreram, aprendam a verdade sobre o bombardeio atómico e transmitam o que aprenderem ao mundo”, escreve, numa carta lida nas cerimónias dos 77 anos do ataque atómico sobre Nagasaki, por um dos seus sobreviventes, Takashi Miyata.

Mar Egeu: dezenas de pessoas desaparecidas em naufrágio

Resgatadas 29 pessoas

Mar Egeu: dezenas de pessoas desaparecidas em naufrágio

Dezenas de pessoas estão desaparecidas depois de um barco ter naufragado no mar Egeu, na quarta-feira, ao largo da ilha grega de Cárpatos, divulgou a ACNUR. A embarcação afundou-se ao amanhecer, depois de da costa sul da vizinha Turquia, em direção a Itália. “Uma grande operação de busca e resgate está em curso.”

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This