O resgate do silêncio

| 15 Abr 2022

mulher negra em silencio, reflexao, foto alex greene pexels

“Foi-nos ensinado que o silêncio é sinónimo de solidão. No entanto, para quem a enfrenta no meio da multidão, a ausência de sonoridade é a salvação da alma.” Foto © Alex Greene / Pexels.

 

Aprendi teoria musical muito antes de conseguir juntar letras. De tudo o que estudei o mais difícil foram as pausas. Para quê colocar um tempo de silêncio para interromper quando tanto haveria para tocar e improvisar? Também cresci numa aldeia do centro de Portugal. Aí fui aprendendo que são necessários espaços para fazer uma grande fogueira. Uma boa fogueira requer tanto de lenha como de vácuo para o oxigénio circular. Qual a razão para uma grande fogueira não depender de uma boa quantidade de boa lenha, mas sim do vazio entre ela?

É sobre o poder do silêncio, do tempo vazio, que quero escrever.

Jesus, o mestre dos mestres, dá-nos a lição preciosa do silêncio. Dito nas palavras do cantor Samuel Úria “No vai ou racha foste a rachar, Corpo quebrado e mudo, Mas como imitar alguém que se calou? E que lição nos dás por não responderes.” No auge do seu sofrimento, acusado de injustiças e envergonhado por aqueles que ele tinha criado, a sua resposta foi o silêncio. Ele que é a Palavra, que proferiu sermões que são citados ainda hoje, resolveu calar-se. Talvez para nos ensinar que há mais valor no silêncio do que nas muitas palavras vãs.

Mas nós vivemos na sociedade de valorização dos extrovertidos, na qual o poder da palavra está acessível a todos. Mesmo que essa palavra seja vazia ou cause feridas nos que a ouvem. O que nos aconteceu para deixarmos de aprender com e no silêncio? Com a vulnerabilidade que este espaço me permite, partilho que esta é uma das lições mais custosas destes tempos. Aprendi, não porque não pudesse falar, mas porque perante tanta desgraça, as palavras deixaram de fazer sentido. Poderíamos decorar todas as palavras existentes em todos os dicionários do mundo, e mesmo assim não conseguiríamos descrever ou justificar tais situações. Que podemos dizer quando nos exibem crianças a morrer perante mãos injustas? Que discursos poderemos nós proferir que possam reivindicar a dor real dos que se sentem forçados a fugir e a não se manifestar? Como ilustrar verbalmente uma dor que não cabe no nosso coração magoado e despedaçado, muito menos na nossa limitada oratória? Não digo que não haja tempos certos para falar e clamar, mas creio que temos perdido a capacidade de entender o silêncio como uma arma para curar. A Bíblia está repleta de histórias de pessoas que buscaram no silêncio a sua terapia. Mas a nossa sociedade encontra a solução na partilha exacerbada de conteúdos que podem, sim, encorajar, mas também ferir, não só a verdade, mas igualmente as emoções.

O silêncio permite escutar. Escutar o interior, escutar o outro e até o meio envolvente. Relembro com alguma saudade os tempos de quarentena da pandemia quando abrir a janela significava silêncio e contemplação. Ou quando a ausência do ruído citadino trouxe a fauna de volta ao seu habitat. Mas foi-nos ensinado que o silêncio é sinónimo de solidão. No entanto, para quem a enfrenta no meio da multidão, a ausência de sonoridade é a salvação da alma. E finalmente, quando o silêncio é encontrado, a nossa alma pode gritar o que lhe faz doer.

Precisamos urgentemente de resgatar o poder do silêncio. O cinema francês, as tendências de Cannes e até mesmo Hollywood têm descoberto a sua supremacia. Mas o resto do mundo, mesmo com a vivência de uma silenciosa pandemia e com o despertar dos futuros anos negros da Europa, está tentado a buscar nas palavras a solução para uma vida próspera. As palavras enchem-nos as medidas e projetam-nos para a multidão. Se forem bem elaboradas podem até dar a fama ou os likes que muita inveja fazem. Contudo, o silêncio diagnostica as feridas que estão tantas vezes ocultas pelo excesso da interlocução. O silêncio ouve-nos a nós próprios. E é no silêncio que as dores mútuas, nossas e do outro, se sintonizam. As palavras podem desencontrar-se, mas no silêncio anuncia-se a empatia. O silêncio é de ouro para quem está disposto a polir.

 

Débora Hossi é gestora de redes sociais; integra a Missão Evangélica Intercultural e considera-se peregrina e apaixonada por Jesus e pelos seus ensinamentos. Contacto: deborahossi@gmail.com

 

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