O ressentimento não melhora o país

| 29 Fev 2024

Aplauso, reconhecimento. Foto Robert Kneschke

A filósofa e psicanalista Cynthia Fleury afirma que “o ressentimento é um fracasso da alma, do coração e da mente”. Como antídoto contra essa emoção, propõe algo aparentemente simples: “Saber admirar, reconhecer o valor dos outros”. Foto © Robert Kneschke

 

O ressentimento é hoje um sentimento amplamente partilhado. Experimentado por muitos, o ressentimento é também bastante fomentado e instrumentalizado, designadamente pelos que julgam poder obter benefícios políticos ao assanhar emoções – através das redes sociais, sobretudo – e devastar a concórdia cívica.

A filósofa e psicanalista francesa Cynthia Fleury, que tem reflectido proficuamente sobre estes nossos tempos, fazendo também a apologia de valores como a dignidade [1], é autora de preciosas chamadas de atenção para os prejuízos que determinados sentimentos, particularmente a amargura e o ressentimento [2], provocam pessoal e colectivamente.

“A amargura, o amargo, é um sabor que há na vida”, observou ela numa entrevista concedida ao Clarín, o maior diário argentino, explicando que, “para não nos afundarmos na amargura e no ressentimento, há que saber sentir o sabor amargo”. A filósofa e psicanalista lembra que todos somos instados a enfrentar provações trágicas, grandes injustiças, considerando falsa a crença em que o ressentimento é uma necessária consequência psíquica e política da vivência desses traumas. “Há indivíduos que passaram pelas piores tragédias e nunca desenvolveram ressentimentos, assim como, pelo contrário, há pessoas que estão presas ao ressentimento, apesar de, em termos objectivos, as suas vidas não serem de modo algum catastróficas”.

Afirma Cynthia Fleury que “o ressentimento é um fracasso da alma, do coração e da mente”. Como verdadeiro antídoto contra essa emoção, propõe algo aparentemente simples: “Saber admirar, reconhecer o valor dos outros”.

Aprofundando a questão da natureza do ressentimento, a filósofa e psicanalista considera que se trata de “um sentimento que se instala a longo prazo”, “resultado de diversas incapacidades do sujeito, desde a sua infância, em sublimar as frustrações que teve de afrontar”. Para Cynthia Fleury, as pessoas que não conseguiram superar aquilo que, na infância, se designa por “angústia da separação” são as mais propensas ao ressentimento. “A necessidade de reparação, a frustração, a necessidade de protecção, tudo isso está relacionado com a infância”. O remédio proposto estabelece que se aprecie “o sabor da amargura”, que se seja capaz de a saborear “sem desfalecer”.

Mas o ressentimento, sendo algo que diz respeito a cada pessoa, também se previne quando se promovem políticas públicas que combatam, por exemplo, a insegurança e as desigualdades. Os Estados devem, como preconiza Cynthia Fleury, “criar condições objectivas de pleno desenvolvimento das pessoas, competindo-lhes fazer tudo o que for possível para lutar contra a propagação das injustiças”.

Há uma precaução formulada por Cynthia Fleury que, por ser particularmente adequada a este período de campanha eleitoral, se impõe reter: “Neste momento, importa entender que quando um indivíduo cai no ressentimento, não apresenta o gesto político mais eficaz para que se avance na justiça e no progresso da sociedade”. É que “o ressentimento é um motor mortífero, letal para a história política. E esse motor activa a vingança, não o advento da justiça”.

“Acreditávamos que a democracia iria proteger-nos, mas não é o caso”, lamenta a filósofa e psicanalista. O problema decorre de não termos conseguido educar suficientemente as pessoas para que soubessem sublimar as suas frustrações e as suas pulsões de ressentimento. Cynthia Fleury insiste: “O ressentimento como motor da História nunca produziu justiça, mas unicamente violência e destruição”.

Uma autêntica acção política impõe, portanto, diz ela, que se reaprenda a canalizar a violência, a “sublimar a frustração” e a “ter o controlo de todas as derivas do ressentimento”. De resto, “a resistência ao ressentimento é o próprio acto pelo qual uma cultura, uma civilização, é digna desse nome”. O ressentimento não é, de facto, algo com préstimo para combater as desigualdades socio-económicas. É apenas “uma disfunção psíquica, uma alienação que coloca em perigo as democracias”.

E Cynthia Fleury avisa ainda: “O fascismo – assim como os grandes totalitarismos – não é apenas um momento histórico. É também um momento psíquico”.

Fomentada por fanáticos ou pantomineiros extremistas, a “pulsão ressentimentista”, sempre quezilenta, apenas capaz de forjar bodes expiatórios, não só nada resolve, como tudo agrava. É preciso cuidado.

 

Notas:
[1] La Clinique de la dignité (Seuil, 2023)
[2] Ci-gît l’amer – Guérir du ressentiment (Gallimard, 2020)

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