100 anos da Aliança

O roteiro evangélico do Porto passa ao lado da Casa da Música

| 13 Nov 2021

Tabernáculo Baptista do Porto: neoclassicismo religioso junto à Casa da Música. Foto: Direitos reservados.

Um templo evangélico baptista neoclássico ao lado da Casa da Música; uma igreja protestante metodista que remete para a arquitectura neogótica, com azulejos de inspiração manuelina; uma outra, anglicana, que começou por ser uma escola, com um nome referido a uma zona fronteiriça; e uma pequena igreja-salão inglesa, que quando foi construída não podia ter sino nem cruz. O roteiro das igrejas evangélicas e protestantes do Porto tem muitas histórias para contar e neste sábado, 13, a partir das 10h, um passeio guiado por Joel Cleto, historiador e autor do programa Caminhos da História (Porto Canal), irá narrar algumas delas.

O passeio por estes lugares insere-se no programa comemorativo dos 100 anos da Aliança Evangélica Portuguesa, que terá neste sábado e domingo um dos seus pontos altos. Além do roteiro pelas quatro igrejas que representam diferentes correntes das tradições reformada e evangélica do cristianismo, um colóquio académico aprofundará, na tarde de sábado (15h-18h30), o papel da Aliança Evangélica no protestantismo em Portugal, no último século. Esta iniciativa, cujo tema será desenvolvido pelo 7MARGENS no início da próxima semana, decorre no Tabernáculo Baptista, da Primeira Igreja Baptista do Porto, precisamente junto à Casa da Música.

No colóquio intervêm três investigadores portugueses e um alemão: Rita Mendonça Leite, da Universidade Católica, falará sobre “O contexto religioso em Portugal nas primeiras décadas do século XX: expressões de unidade do protestantismo nacional e a institucionalização da Aliança Evangélica em Portugal (1921)”; Eliseu Alves, professor e autor de vários livros, aborda a “Construção da memória protestante/evangélica em Portugal: desafios e oportunidades”; Helena Vilaça, da Universidade do Porto, falará sobre “Presença dos Protestantes/Evangélicos em Portugal na actualidade: dados e estruturas sociais”; e o alemão Frank Hinkelmann, professor e vice-presidente do Seminário Martin Bucer, Alemanha, dará uma perspectiva sobre a “Origem e contexto da formação do movimento das Alianças Evangélicas na Europa (1846)”. Domingo, às 16h, na Igreja do Mirante, o templo metodista do Porto, haverá um culto especial de celebração do centenário.

Separado da Casa da Música pela Avenida da Boavista, o Tabernáculo Baptista é um templo de traça arquitetónica neoclássica, descreve o especialista em informação turística João Paulo Henriques, que tem investigado a história de vários templos protestantes em Portugal. A par da Casa da Música, o Tabernáculo é o outro edifício que se destaca na Praça Mouzinho de Albuquerque, ou rotunda da Boavista. “Um dos mais interessantes templos protestantes portugueses”, a sua inauguração obrigou à presença de uma força policial para controlar a entrada de uma “multidão curiosa”.

Foi isso em 1916, segundo o modelo do London Metropolitan Tabernacle, diz o especialista citado. Com um salão de culto no corpo central que é como que uma sala de teatro, o Tabernáculo inclui ainda um coro, paredes com pilastras ornamentadas a estuque e inscrições com versículos bíblicos. O baptistério, que caracteriza as igrejas baptistas, está integrado na plataforma onde se encontra também o púlpito.

 

Um pilar na divulgação do protestantismo

Igreja do Mirante: a escola que aqui funcionou foi importante para o combate ao analfabetismo dos operários da zona. Foto: Direitos reservados. 

A dois quilómetros de distância, e próximo da Rua de Cedofeita, a Igreja Metodista do Mirante serve de sede desta confissão em Portugal, depois de construída em 1877. “É um dos primeiros templos evangélicos a ser construído de raiz e um dos principais pilares para a divulgação do protestantismo na cidade portuense”, diz também João Paulo Henriques.

A escola primária que funcionou na igreja foi “importante no combate ao analfabetismo que vigorava nos bairros operários” que ali existiam. Com uma arquitectura neogótica e azulejos de inspiração neomanuelina na fachada (colocados em 1934), tem uma nave central “coberta por um tecto semelhante ao casco invertido de uma nau”. João Paulo Henriques destaca ainda pormenores do interior: um órgão de tubos, mobiliário em madeira maciça colocado sobre “a brancura das paredes”, zona do púlpito marcada pela cruz e um pequeno vitral em forma de vieira, símbolo do metodismo.

Igreja Metodista do Mirante: um tecto semelhante ao casco invertido de uma nau. Foto: Direitos reservados.

 

Num arco geográfico ainda próximo, encontra-se a igreja de St James, da Church of England, Igreja de Inglaterra (Anglicana). O edifício foi concluído em 1818 mas seria consagrado e dedicado a Santiago só em 1843, quando o bispo de Gibraltar, George Tomlinson, esteve no Porto com esse objectivo. Nessa altura, o edifício não podia ter uma cruz ou sino a identificá-lo e o seu corpo central assemelha-se a uma sala de reuniões – para não parecer que era uma igreja.

Igreja de St James: no início, não podia haver cruz ou sino. Foto: Direitos reservados.

Cercado por um muro alto, que já existia antes de o templo ser construído, o terreno onde este se insere inclui ainda o pequeno cemitério inglês. Na página oficial da comunidade, lê-se que ali se guardam as lápides da família do Barão James Forrester (que apenas é homenageado no cemitério, pois foi afogado no rio Douro e o corpo nunca foi encontrado), e as de 11 aviadores britânicos e canadianos que combateram na Segunda Guerra Mundial, e cujos aviões foram abatidos em acidentes ao largo da costa portuguesa.

Ampliado em 1866-67, o edifício passou a incluir transeptos, uma capela-mor e uma nave central maior, passando de uma estrutura rectangular para uma cruciforme. No jardim exterior, uma cruz-memorial de guerra regista os nomes dos membros da comunidade britânica do Porto que perderam a vida nas duas grandes guerras.

 

Atravessar o rio

Para a quarta igreja é preciso atravessar o Douro e rumar a Gaia, na zona de Torna-meeiros. No século XVIII, o nome – Torne – aludia já a indefinições nos limites das freguesias de Santa Marinha e Mafamude, como explica Timóteo Cavaco num texto sobre Diogo Cassels, comerciante que aos 55 anos, em 1899, decidiu dedicar-se em exclusivo à acção missionária e benemérita.

Igreja do Torne, em Gaia: desde o início, uma escola e uma igreja a par. Foto: Direitos reservados. 

 

Muito antes, em 1868, Cassels tinha sido acusado de proselitismo e desrespeito à religião do Estado, conta ainda o investigador da Sociedade Portuguesa de História do Protestantismo, seguindo de perto a biografia publicada há 20 anos por Fernando Peixoto, Diogo Cassels: uma vida em duas margens.

Julgado e condenado a seis anos de deportação, a pena seria anulada pelo Tribunal da Relação. Cassels fundaria então a Escola do Torne, um edifício “que servia simultaneamente de capela para o culto evangélico, a primeira construída no país destinada a portugueses”. Tal como era obrigatório na época para templos não-católicos, a igreja teve de ficar cercada por um muro, de forma a que não pudesse ser vista da rua – em 1879 um temporal derrubou o muro e este não voltaria a ser construído.

Interior da Igreja do Torne, em Gaia. Foto: Direitos reservados.

 

Cassels e a sua congregação tinham entretanto aderido à recém-organizada Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica (Comunhão Anglicana), ficando a igreja do Torne ligada até hoje a essa Igreja. Em 1893, o líder da comunidade anunciava que adquirira um terreno contíguo à capela existente, para construir um lugar de culto mais amplo, ficando o anterior dedicado à escola.

O edifício actual seria erguido logo de seguida e dedicado, em 1894, a São João Evangelista. Uma cruz na empena e uma fachada alteada já lhe davam, entretanto, uma configuração mais clara de templo, nota ainda Timóteo Cavaco, que integra também o Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), da Universidade Católica. O carácter misto de escola e igreja manter-se-ia até hoje.

 

(Sobre Diogo Cassels pode ver-se este episódio de Caminhos da História)

 

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