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“O sangue congolês está na nossa tecnologia – Caddy Adzuba denuncia feminicídio no Congo

| 16/12/2019

“O sangue congolês está na nossa tecnologia – Caddy Adzuba denuncia feminicídio no Congo

by | 16 Dez 19 | Destaques, Direitos Humanos, Newsletter diária - título, Religiões e Mulheres, Sociedade - homepage, Últimas

Caddy Adzuba, na conferência de imprensa em que denunciou, em Madrid, o feminicídio por causa do minério procurado para processadores de telemóveis e outros objectos tecnológicos. Foto © Manos Unidas

 

A jornalista e activista de direitos humanos congolesa Caddy Adzuba denunciou na organização católica de desenvolvimento Manos Unidas (Mãos Unidas), em Espanha, o “feminicídio” que se verifica no seu país e que equivale a um genocídio. Tudo por causa das riquezas do país e que a leva a afirmar que “o sangue congolês está na nossa tecnologia”.

“O que acontece às mulheres não é um conto, mas uma realidade diária”, que se pode qualificar como genocídio. “É um feminicídio e como tal queremos que seja tipificado no Tribunal Penal Internacional. Por isso, o meu objectivo é lutar para que a voz das mulheres – dessas mulheres – seja escutada”, afirmou Adzuba, citada na página da Manos Unidas.

Nascida en Bukavu, na região dos Grandes Lagos da República Democrática do Congo, Caddy Adzuba recebeu quinta-feira, 12 de Dezembro, o Prémio Internacional Manos Unidas “em reconhecimento pelo seu contínuo compromisso com as mulheres vítimas da guerra e a sua dedicação e coragem em denunciar as causas e consequências, especialmente entre os mais vulneráveis, dos conflitos na República Democrática do Congo (RDC)”.

A jornalista disse que só viveu 14 dos seus 38 anos de idade numa situação de paz. “Sou a prova viva desta situação: toda a minha vida foi violência e conflito”, afirmou, citada pela mesma fonte. Mas, apesar disso e do medo que tem perante a realidade, considera-se uma privilegiada em comparação com outras mulheres “que vivem constantemente num pesadelo”.

“Na RDC a definição de violação, tal como se conhece nos países ocidentais, está amplamente superada”, afirmou a jornalista, que já recebeu em 2014 o Prémio Princesa de Astúrias da Concórdia. “No meu país, que tem no nome a palavra democrático, parece que matar seres humanos, mulheres, se tornou algo democrático”, ironizou Adzuba, a propósito da guerra que se verifica no país desde 1996 e onde se “experimenta o ódio pela vida humana”.

 

“Deus amaldiçoou-nos com a nossa riqueza”

Vender objectos e água para sobreviver na RDCongo. Foto © Emeric Fohlen/AIS-Portugal

 

As riquezas do Congo são a causa desta guerra, acusa a jornalista. “Mas o que acontece na RDC não diz respeito apenas à RDC, mas a toda a humanidade, porque a maldade do ser humano na busca das riquezas da RDC deveria interpelar-nos”, acrescenta.

Caddy Adzuba referia-se ao coltan, palavra que resulta da contracção de columbite e tantalite, minérios de onde se extraem o nióbio, também conhecido por columbite, e o tântalo, ambos fundamentais para fabricar microprocessadores, microcircuitos e baterias, que permitem o funcionamento de mísseis, foguetões espaciais, airbags ou telemóveis e jogos electrónicos, como se explicava e era conhecido já em 2002.

“O sangue congolês está na nossa tecnologia e é difícil evitá-lo”, mas é preciso “lutar para mudar as coisas, mudar as consciências da população e apelar às multinacionais para conseguir uma reparação de todo o dano que provocaram”. As mulheres da RDC “precisam que se faça justiça” e isso deve passar pela reparação do que lhes está a acontecer, de apoio financeiro para poder reorganizar a sua vida, de acesso à educação e à saúde e de protecção para elas e os filhos. “E, sobretudo, ter voz nos assuntos do país.”

O missionário espanhol Aurelio Sanjuan, que viveu 40 anos na RDC, sublinhou, na mesma conferência de imprensa em que participou a jornalista, a ideia da responsabilidade das multinacionais nesta guerra esquecida, que se regista desde 1996, e que já só raramente aparece nos média internacionais: “Eles dizem ‘Deus amaldiçoou-nos com a nossa riqueza’”, referiu o missionário dos Padres Brancos.

 

Requintes inimagináveis de crueldade

A guerra no Congo terá provocado já perto de quatro milhões de mortos e largos outros milhões de outras pessoas tiveram de fugir de suas casas.

Caddy Adzuba acrescentou que, ao contrário dos capacetes azuis da ONU, os militares que fazem a guerra no seu país passam fome. “Por isso vão pilhar, roubar, violar…” A violência sexual chega a requintes de crueldade inimagináveis: introduzem facas, varas ou garrafas de plástico a arder no sexo das mulheres atacadas. “A algumas meteram-lhes granadas, que explodiram dentro do seu corpo.”

Há casos ainda como a história de Mónica, que saiu uma manhã para comprar legumes: os militares apareceram, obrigaram o filho mais velho a violá-la, mataram o marido, violaram-na de novo eles, os homens armados, descreveu ainda, citada pelo Religión Digital.

Nos últimos cinco anos, Manos Unidas, que trabalha há décadas na RDC, apoiou projectos no valor de 6,7 milhões de euros. “Manos Unidas esteve sempre presente em todas estas dificuldades”, elogiou o missionário espanhol.

Crianças e deslocados de guerra no campo de Kanyaruchinya, em Goma (RDCongo), em Novembro de 2012. Foto © ACN/Portugal.

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