O santuário de Lot, afinal, está no sul do Mar Morto? (Reportagem, parte II)

| 9 Abr 19

(Em busca de Sodoma, por Frédéric Martel – II)

Uma formação rochosa identificada como a mulher de Lote transformada mum pilar de sal, próxima do que poderia ser, segundo o arqueólogo Konstantinos Politis, a gruta onde Lot se refugiou depois da destrição de Sodoma. Foto © M. Disdero/Wikipedia

 

AS HIPÓTESES DOS ARQUEÓLOGOS do norte do Mar Morto são rapidamente afastadas por Konstantinos Politis, que trabalha no sul. Quando me encontro com ele, em Amã, o arqueólogo grego refuta todas as hipóteses do seu colega Collins. Sodoma situar-se-ia, segundo ele, a leste do “Mar de Sal” de que fala a Bíblia, ou seja, na direção de Bab adh-Dhra.

– Há trinta anos que trabalho nesta região. Tenho a paixão das escavações. Na minha juventude, queria ser camponês, diz-me Politis. Gosto da terra, de meter as mãos na terra, escavar, remexer. Sodoma não pode estar situada em Tall al-Hammam, como Steve Collins pensa. Que tenha encontrado uma cidade, é provável. Mas é impossível tratar-se de Sodoma.

E o investigador lança-se numa longa explicação arqueológica sobre a qual já elaborou várias obras – dá-me, nomeadamente, Santuary of Lot, um volumoso livro técnico de 600 páginas pormenorizando as escavações que já realizou a sul do Mar Morto.

A reputação deste arqueólogo grego é indesmentível. Formado nos Estados Unidos, como Collins, Politis fez a sua tese sobre a história antiga do vale do Jordão, antes de trabalhar dezasseis anos como investigador no antigo departamento do Museu Britânico, em Londres. É a este título que, no final dos anos 1980, com a sua equipa, começa escavações na margem jordana do Mar Morto e descobre, a 15 de Setembro de 1991, “por acaso”, diz ele, dois sítios essenciais.

O primeiro seria a “gruta” de Lot onde, segundo a Bíblia, o patriarca se teria refugiado, depois da destruição de Sodoma; o segundo é um mosteiro bizantino de três absides, uma verdadeira basílica rica em mosaicos que teria sido construída sobre a gruta natural de Lot, no séc. VII d.C. Mais interessante ainda: Konstantinos Politis descobre, em seguida, nesta gruta soterrada e escondida pelo mosteiro, túmulos da Idade do Bronze. Inscrições atestam mesmo que o nome deste complexo religioso é Mosteiro de São Lot. Tratava-se, segundo ele, de um venerado lugar de peregrinação.

A partir destas descobertas, Politis está em condições de confirmar que os primeiros cristãos consideravam já que, de acordo com o texto bíblico, Lot se tinha efectivamente refugiado nesta gruta, após a destruição de Sodoma. Depois desta descoberta, importante tanto para os cristãos como para os muçulmanos que também veneram Lot, o rei da Jordânia decidiu dar à gruta e ao seu mosteiro bizantino o estatuto de lugares santos do Islão.

Seguindo os conselhos de Politis e com as suas explicações, parto para o Mar Morto, com o meu “investigador” Abbas Saad. Primeiro destino: o sítio baptizado como Bab adh-Dhra. Para chegarmos lá temos de andar cerca de duas horas de carro pela Dead Sea Drive 65 ao longo do Mar Morto, pela margem oriental que vai até Aqaba, mais longe, a sul, no Mar Vermelho. Passamos de 800 metros de altitude a 400 metros abaixo do nível do mar e a circulação, a princípio densa e frequentemente interrompida pelos postos de controlo rigorosos do exército jordano, quando nos aproximamos da fronteira israelita, torna-se mais fluída ao chegarmos ao mar.

À beira da estrada, os beduínos vendem leite de camelo. Com Abbas Saad provamos a bebida fresca cujas virtudes seriam boas para a saúde.

– A carne de camelo também é aqui muito apreciada. É um prato refinado, consumido geralmente nos casamentos, diz-me um velho beduíno que nos indica o caminho.

Em direcção ao sul, a estrada torna-se mais estreita. Em frente ao Mar Morto, os turistas jordanos da pequena burguesia adoptam a “atitude Shisha” – estacionam o carro diante de uma cabana improvisada ou debaixo de um guarda-sol de ramos de palmeira, olham para a extensão da água sem ondas nem peixe, fumam e cruzam os dedos.

A vista é esplêndida: ao cair da noite, confundem-se as cores vermelhas cintilantes, ocres e rosa das colinas da margem israelita do Mar Morto com um verde e um azul resplandecentes. Ao longe avistamos o deserto da Judeia, os kibutzese, mais a sul ainda, o monte Sodoma. Saberão todos estes turistas muçulmanos que estão nas terras do profeta Lot, como está dito no Alcorão?

Segundo Konstantinos Politis, a antiga Sodoma situar-se-ia entre as vilas beduínas, feitas de tendas de pele de cabra preta, a meio caminho entre as pequenas aldeias modernas de Ghor Haditha e Al-Safi.

Jan Brueghel, dito O Velho, “Sodoma e Gomorra” (1610), pintura exposta na Pinacoteca de Munique

 

Contrariamente a alguns arqueólogos cépticos e que pensam que Sodoma é apenas uma lenda inventada na Bíblia, Konstantinos Politis acredita na sua existência. Comprová-la-iamplacas antigas em argila, gravadas em língua suméria e eblaíta, descobertas na Síria nos anos 1970.

– Pela primeira vez, estas placasforneceram-nos provas arqueológicas da existência de Sodoma. Até então, só tínhamos o Antigo Testamento. E podem eventualmente provar que a cidade bíblica estaria situada na margem do Mar Morto. É interessante. Sendo o Antigo Testamento considerado, antes de mais, um livro de preceitos morais e religiosos, é fascinante verificar que as descobertas arqueológicas e geológicas modernas confirmam o local onde esta improvável história de Sodoma pode realmente ter acontecido!

O sítio privilegiado, Bab adh-Dhra, está situado a cerca de dois quilómetros do mar e dirigimo-nos para lá, tomando a Estrada 50, que atravessa areias brancas, bege e ocre, antes de, repentinamente, atingir Al-Karak, na orla de um desfiladeiro vertiginoso, que chega aos 1000 metros de altitude. Quando se sente um calor sufocante à beira-mar, somos surpreendidos, tal como Abbas Saad, pela neve ao longo da estrada. É surpreendente a passagem, em poucos minutos, do deserto ao gelo.

Em baixo, Bâb adh-Dhrá, ainda no vale, é um planalto fértil onde beduínos cultivam a terra em pedaços de terra quadrados: tomate, pepino, melancia. Um engenhoso sistema de irrigação permite a recuperação da água dos “wadis” circundantes – ribeiros ou ravinas – ou armazenar a água da chuva. Exactamente aqui ao lado do mar moribundo, prolifera um verdadeiro jardim do Éden, com as suas acácias, laranjeiras e uma variedade de arbustos selvagens que vejo pela primeira vez na vida: os beduínos adoram-no – dizem – pelo seu látex venenoso, casca que permite a coagulação do leite e as virtudes medicinais dos frutos em forma de testículos – a que foi dado o nome de Macieira de Sodoma.

Foi num nível inferior, na proximidade de um cemitério nabateu de onde tinham desenterrado perto de cinco mil sepulturas datando de 100 ou 200 anos a.C., que Sodoma foi descoberta em 1924 por uma expedição arqueológica. Esta localização da cidade antiga, que já era hipotética foi, no entanto, abandonada, a partir desse momento. Depois de realizadas as escavações e postos a descoberto os fossos, os arqueólogos interditaram o sítio e mudaram de terreno. Em Bâb edh-Dhrâ só se vêem montes de pedras e arame farpado. Todos os objectos escavados, cerâmicas, ferramentas e até pedras tumulares primitivas foram dispersos um pouco anarquicamente, uns pelo museu do castelo de Al-Karak, outros pelo departamento de antiguidades do Museu de Amã e ainda outros peloMuseum at The Lowest Place on Earth.

Depois de termos ido ao castelo de Al-Karak, retomámos a estrada em direcção à aldeia de Safi (que provavelmente foi construída sobre a antiga cidade de Zoar), a algumas dezenas de quilómetros para sul. Aqui, à beira do Mar Morto, num local chamado Deir Ain Abata, situa-se “este museu no lugar do planeta mais abaixo do nível do mar”. É um verdadeiro museu de Sodoma! Foi construído num nível abaixo da famosa gruta de Lot e do mosteiro bizantino que Konstantinos Politis descobriu. Concebido pelo investigador grego que continua a trabalhar lá, o museu não é particularmente apoiado pelas autoridades jordanas: está cheio de pó e é, aliás, pouco frequentado. O guarda que nos recebe está tão feliz com a chegada de dois peregrinos que nos autoriza a visita longa, muito para além da hora de fecho legal. Numa sala imensa, única, descubro, maravilhado, objectos de um valor inestimável retirados das escavações: jarras ocre, pratos negros ou rosa, tigelas e chávenas de alabastro e magníficos bacios com asas sólidas. Reparo também num dos três raros retratos de Lot numa cerâmica bizantina do séc. V d.C. que foi descoberto na gruta de Lot.

A maior parte destes objectos, explica-me Politis, vêm de Bab adh-Dhra e remontam à Idade do Bronze. Na parede do museu observo, aliás, um mapa pormenorizado que tenta reconstituir a cidade de então. Uma cidade com as suas vias, a muralha fortificada, as casas construídas sobre terraços. Sodoma?

– Pensamos que Bab adh-Dhra é, de facto, uma das cinco cidades de que fala o Antigo Testamento, confirma Politis. Trata-se de Sodoma? É possível, mas não temos provas: as escavações não são uma ciência exacta! Sabemos que Sodoma se situava perto do Mar Morto, como Bab adh-Dhra. Mas é preciso não esquecer que estamos a falar de cidades que teriam existido na Idade do Bronze, ou seja, entre 3500 e 1500 anos antes de Cristo. Foi há muito, muito tempo. Algumas pessoas pensam que estas cidades foram engolidas pelas águas do Mar Morto, mas as fotos satélite da NASA não provam nada e até enviámos, sem sucesso, um pequeno submarino para inspecionar o fundo do mar.

Politis prossegue:

– Hoje aventamos outras hipóteses geológicas ou climatológicas para explicar a destruição de Sodoma. É possível que tenha sido um fenómeno natural como um tremor de terra de grande magnitude ou uma erupção vulcânica como a que destruiu Pompeia com fortes projecções de lava e de fogo, o que explicaria a expressão bíblica “de enxofre e de fogo”. Pode também ter sido causada por correntes marítimas muito fortes ou por um tsunamique tivesse levado a cidade a ser engolida pelo Mar Morto, então muito maior do que é hoje. Ou, pelo contrário, poderia também tratar-se de um fenómeno químico ligado à forte concentração de hidrocarbonetos da água salgada do Mar Morto que, sob certas condições, podia desencadear uma explosão de bolas de fogo. A minha hipótese é, portanto, que estas cidades, e Sodoma inclusive, tenham existido e sido destruídas, mas por um fenómeno natural.

(Tradução: Maria Carvalho Torres; Edição: Maria Carla Crespo e António Marujo)

No trabalho de reportagem que fez para o livro No Armário do Vaticano(ed. Sextante Editora, Sodoma, na versão original), o jornalista e investigador francês Frédéric Martel incluiu uma pesquisa sobre a busca da cidade bíblica de Sodoma. Esse trabalho acabou por não ser incluído no livro e deu origem a um capítulo que o autor promete publicar na página da Internet dedicada à obra (www.sodoma.fr). Entretanto, os direitos de publicação deste trabalho, para português, foram cedidos pelo autor ao 7MARGENS, que publica até ao próximo dia 12 esta grande reportagem. O texto anterior da série pode ser lido aqui.

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