Acaba de ser editado, pelo Secretariado Nacional de Liturgia, mais um volume dos Sermões de Santo Agostinho. É já o quarto, de uma série que prevê mais dois, que completarão a tradução completa dos cerca de 600 Sermões pregados ao povo pelo bispo de Hipona. Seria um acontecimento editorial em qualquer parte do mundo, mas que entre nós parece estar a passar despercebido, mesmo dentro da Igreja Católica.
Agora que temos um Papa agostiniano, mas sobretudo porque o legado do bispo de Hipona é muito atual, o 7MARGENS convidou o teólogo e frade franciscano Isidro Lamelas, mentor deste projeto, a escrever sobre estas páginas de teologia e espiritualidade pastoral que, para além de doutrina, ensinam muito sobre a missão dos pastores católicos e o seu desempenho ao serviço da comunidade.
O mesmo autor acaba de publicar, em edição autónoma, o Sermão 46, dirigido aos Pastores, do qual se reproduzem alguns excertos no final deste texto.
No sermão 46 pregado em Hipona, entre 407 e 411, o pastor Agostinho condensa o melhor que a experiência lhe ensinou e expõe dispersamente ao longo de toda a sua obra. A coerência entre a palavra e a ação é, aliás, um dos princípios fundamentais do seu programa doutrinal e pastoral. A coerência de vida que pede aos seus fiéis, exige-a, antes de mais, a si mesmo aos demais pastores (Sermão 340 A,2; Ep. 27,4).
Ele que nunca quis ser sacerdote e, menos ainda, bispo, aceitou o “fardo” com profundo sentido de missão e responsabilidade diante de Deus e dos Homens: «A verdade é que carregámos um peso que não podemos nem devemos sacudir dos nossos ombros» (Sermão 82,15).
Talvez por isso, ele que escreveu sobre tudo, não nos deixou qualquer tratado sobre o sacerdócio ministerial. E, no entanto, este tema e preocupação estão presentes em toda a sua atividade pastoral. Trata-o nos seus Sermões, nas Cartas (cf. 21; 48; 60; 228), em tratados (De catechizandis rudibus), etc. Por outro lado, associa quase sempre o sacerdócio ministerial ao sacerdócio comum dos fiéis, sem os confundir nem diminuir nenhuma desta dupla dimensão do único sacerdócio de Cristo (Sermão 82,15; 148 A, 53. 57).
O sacerdócio comum
Talvez por isso, ele que escreveu sobre tudo, não nos deixou qualquer tratado sobre o sacerdócio ministerial. E, no entanto, este tema e preocupação estão presentes em toda a sua atividade pastoral. Trata-o nos seus Sermões, nas Cartas (cf. 21; 48; 60; 228), em tratados (De catechizandis rudibus), etc. Por outro lado, associa quase sempre o sacerdócio ministerial ao sacerdócio comum dos fiéis, sem os confundir nem diminuir nenhuma desta dupla dimensão do único sacerdócio de Cristo (Sermão 82,15; 148 A, 53. 57).
No Sermão 198 B, explica-nos a doutrina do sacerdócio comum cristão:
«Porém, todos nós, os bispos, chamamo-nos sacerdotes, porque fomos colocados à frente. Ora a Igreja universal é o corpo daquele Sacerdote [Cristo]. A este Sacerdote pertence o seu corpo. É por isso que também o Apóstolo Pedro chama à Igreja: Povo santo, sacerdócio real (1Pedro 2,9) […] Ora nós dizíamos, a propósito da unção, que no Antigo Testamento só o sacerdote e o rei é que eram ungidos, mas agora todos os cristãos o são. Em função disso, reparai que todos pertenceis connosco ao corpo sacerdotal, isto é, todos vós que sois fiéis. Todavia, chamam-se especificamente sacerdotes aqueles que são colocados à frente da igreja, mas não é por isso que o resto do corpo não é um corpo sacerdotal» (Sermão 198 B, 49. 53).
No mesmo Sermão, acrescenta: «Desta realidade se celebra na Igreja o sacramento: no interior vós orais connosco e respondeis às palavras do pastor: “Ámen”. Desta maneira o povo como que assina por baixo, porque todos pertencem ao corpo sacerdotal» (Sermão 198 B, 57).
Responsabilidade dos pastores

Sandro Botticelli, Santo Agostinho: “Agostinho adverte para o perigo de os pastores se deixarem ensoberbecer pelos títulos”.
Juntamente com a dignidade ministerial o pastor recebe um peso suplementar, em relação aos demais batizados: «a ordem clerical, mais que uma honra, é um fardo» (clericatum… Deus imposuit … qui magis onus est quam honor; Sermão 355,6); o “fardo” da santificação dos irmãos e de dar conta deles a Deus (Sermão 23,3; 46,2; 137,15; 146,1). Por isso pergunta, em modo de advertência: «Mas o que é de temer neste serviço senão o risco de que o que é perigoso para a nossa dignidade nos agrade mais do que o que é útil para a vossa salvação?» (Sermão 340,1).
O pastor de Hipona que chorou lágrimas sinceras quando o ordenaram sacerdote, fala frequentemente do “peso” da responsabilidade que nunca mais lhe saiu dos ombros. Precisamente porque nunca exerceu o ministério como uma honra ou forma de poder, mas como quem “carrega” sobre si a responsabilidade do povo de Deus, um “peso” que se confunde com a missão do serviço a tempo inteiro.
Agostinho adverte ainda para o perigo de os pastores se deixarem ensoberbecer pelos títulos e conhecimentos que, de forma alguma, devem fazer esquecer de que todos somos discípulos:
«Somos apelidados de doutores, mas em muitas coisas, nós é que andamos à procura de um doutor e não queremos ser considerados mestres. Na verdade, isso é uma coisa perigosa e proibida pelo próprio Senhor que diz: Não queirais que vos chamem mestres, pois um só é o vosso Mestre: Cristo (Mateus 23,10). Por conseguinte, é perigoso ser mestre, ser discípulo é mais seguro.» (Sermão 23,1).
O pastor deve distinguir-se pela humildade que consiste precisamente na imitação de Cristo:
«Quando dizem para si mesmos: “Será que eu hei de ser o que é a minha porteira, em vez de ser o que foi Platão e Pitágoras?”, usando palavras ultrajantes para se incharem com nulidades, mostram que não querem descer e por isso não podem subir. O nosso Senhor desceu das alturas da sua majestade até nós e eles não querem descer do inchaço da sua soberba até Ele. Portanto, Cristo desceu, para escolher as debilidades do mundo e assim confundir o que é forte, para escolher o que é estulto e assim confundir os sábios. Escolheu o que o mundo considera vil e desprezível e o que é nada, como se fosse, para reduzir a nada aquilo que é» (Sermão 198 B, 59).
Em defesa da qualidade e santidade dos pastores

“O ideal de santidade pedido ao clero começa na exigência de santidade dos fiéis, donde vêm os pastores bons.” Foto: Direitos reservados.
Possídio, seu diácono e biógrafo, reconhece como um dos méritos de Agostinho o ter deixado à Igreja de Hipona “o clero suficiente e preparado” (Vida de Agostinho, 31). Também neste caso, a quantidade nem sempre significa qualidade. Tendo-se empenhado em remediar a “crise de vocações” que afetava a Igreja africana quando Agostinho foi elevado a bispo, os mosteiros por ele eretos acabaram por ser viveiros de novos pastores (Vida de Agostinho, 11). Mas a sua preocupação focava-se mais na qualidade do que na quantidade do clero. Neste caso, “qualidade” significa, em primeiro lugar, santidade: «o clero professa dois compromissos: a santificação e a vocação clerical. Quanto à santificação (pois o clericado foi Deus que lho colocou sobre os ombros para servir o seu povo) é mais um peso que uma honra…» (Sermão 355,6).
Quando diz isto, ele sabe que há maus clérigos, como há maus monges, como há muitos falsos cristãos (En. in Ps. 132,4). Concorda com os donatistas que «um mau padre não é um verdadeiro padre”, mas não retira daí as mesmas consequências. Se são maus pastores, não são verdadeiramente pastores. Alguns continuam a ocupar as cadeiras, mas como manequins», ironiza (Sermão Guelf. 32,6). «Há pastores – denuncia – que querem ser chamados por esse nome, mas não querem cumprir os deveres de um pastor» (Sermão 46,2).
Ele sabe que a honra clerical atrai mitos oportunistas e ambiciosos sem a noção do que significa essa missão (Ep. 21,1; Sermão 355,6). Ainda presbítero pôde conhecer bem os vícios que mancham algum clero indigno (Ep. 22,7; Contra litt. Petil. III,36). Uma vez colocado, como bispo, à frende da Igreja de Hipona, recusou-se a ordenar quem não se comprometesse a levar com ele uma vida de comunhão na pobreza. Era pedir demais, para alguns que viam nisso uma “inovação” na Igreja de África (Sermão 355,6), recusando-se a assumir tais orientações (Sermão 355,3). Mesmo assim, o pastor de Hipona manteve a exigência (Sermão 356,14).
A exigência começa, portanto, nos critérios de escolha. Numa altura em que a vocação para os ministérios dependia mais da escolha objetiva (da comunidade) do que da vontade subjetiva do próprio, era muito importante escutar a comunidade dos fiéis batizados que conheciam os candidatos. O ideal de santidade pedido ao clero começa na exigência de santidade dos fiéis, donde vêm os pastores bons (Sermão 46,2). E, uma vez feitos pastores, devem continuar a ser discípulos de Cristo e a frequentar Sua escola (Sermão 270,1), como membros do rebanho de Cristo (Sermão 296,5), conservos, ouvintes e cumpridores da Palavra (Sermão 279,7; 349,1; 49,2; 101,4).
Evangelizar com a vida: o exemplo de vida
Os pastores devem saber que os fiéis batizados esperam deles mais do que dos outros (Sermão 47, 11-14; 62,9-10). Por isso, eles devem poder dizer com S. Paulo: “Sede meus imitadores” (1Cor 4,16; Sermão 355,1). Neste sentido deixa alguns conselhos práticos ao clero:
– Evitar ofertas e presentes, a não ser os que se possam colocar ao serviço da comunidade (Serm. 356,12); avaliar a clareza de intenções, nos casos de donativos ou heranças à igreja (Sermão 355,3-4).
– Manter a seriedade e transparência na administração dos bens da Igreja; para evitar os frequentes escândalos da cupidez de alguns (Ep 83,1-2), propõe uma solução: que sejam os leigos a administrar o património eclesiástico. Também Agostinho sabia que o “demónio entra quase sempre pelo bolso” (Papa Francisco).
– Prestar especial atenção aos “frágeis na fé” que, com os mais exemplos, se podem perder (Ep. 78,7) ou adiam a sua conversão (Ep. 78,4).
– Não perder tempo com coisas fúteis ou disputas ociosas (Sermão 357,4).
– Ser tolerante, sim, mas sem que a disciplina adormeça: «Vigie de tal maneira a tolerância, que a disciplina não adormeça» (Sermão 164,11). O pastor deve estar atento a cada caso e a cada situação humana e pastoral, agindo atempadamente.
– Contar com a disciplina: Agostinho, com muita mágoa e custo, não hesita em disciplinar os clérigos caídos em pecados públicos (Serm. 83,8: Si peccatum in secretum est, in secreto corripe. Si peccatum publicum este t apertum, publice corripe: ut ille emendetur, et caeteri timeant» (cf. 1Tim 5,20).
Tranquiliza, contudo, os seus fiéis, refutando o farisaísmo donatista: Embora ciente dos pecados dos pastores, e apesar de todas as indignidades humanas: «Não é por causa dos maus administradores, isto é, por causa dos pastores, que a comunidade cristã se deve dividir, pois tem esta garantia: Fazei o que eles dizem, e não façais o que eles fazem (Mt 23, 3)» (Contra. Litt. Petil. III,62). A nave da Igreja pode ser violentamente fustigada e parecer até desamparada por causa das falhas dos que a deviam representar exemplarmente. Contudo, ela resistirá sempre e chegará ao porto seguro, bem como os que nela ser refugiam (cf. Sermão 75,4).
Servos de Deus: pastoral é serviço

O Bom Pastor. Pintura na Catacumba de Priscilla (Roma): foi através de Agostinho que a espiritualidade pastoral de serviço entrou na linguagem corrente eclesiástica.
Todo o ministério é para o serviço. Agostinho desenvolveu, contudo, especialmente a espiritualidade pastoral do serviço. Foi mesmo através dele que a pastoral do serviço entrou na linguagem corrente eclesiástica. Gosta de se autoapresentar como «servo de Cristo e em nome d’Ele, servo dos seus servos» (servus servorum; Carta 217).
Os direitos dos fiéis são deveres do pastor que deve ter como preocupação primeira, não a salvação pessoal, mas a Igreja que lhe foi confiada (Sermão 17,2; 102,1; 137,14; 232,8). O “lucro” dos pastores é a santificação dos fiéis: «Nós somos administradores, nós investimos, vós recebeis. Nós procuramos o lucro: vivei bem. Com efeito, o lucro do nosso investimento é este» (Sermão 94,1).
Por isso, o pastor não deve servir-se do ministério, mas servir, como servo dos servos (Io. Ev. Tr. 21,8; De Mor. Eccl. Cath. I,35- 80). A sua função é eclesial e social, pois está ao serviço dos outros, numa diaconia que deve ser partilhada e exercitada imitando a humildade e entrega de Cristo, cabeça do Corpus totus. A humildade deve estar, segundo Agostinho, na base de toda a atitude e ação pastoral. Frequentando a escola «do mestre e doutor da humildade» (sermão 340 A,5), o pastor deve agir com «humilde caridade e benigna severidade» (Contra Ep. Parm. III, 2.16), sobretudo para com os mais simples e desprovidos.
Esta teologia prática do pastoreio é formulada em expressões que se tornaram famosas: «Convosco sou cristão, para vós sou bispo» (Sermão 47,2; 340,1; 101,4); “Nós apascentamos-vos e somos apascentados convosco» (Sermão 296,5). «Embora nós, os bispos, não tenhamos sido colocados à frente das igrejas juntamente convosco, todavia convosco somos membros do corpo de Cristo» (Sermão 198 B, 53); «Para vós somos pastores, mas sob o Sumo Pastor somos ovelhas como vós» (En. in Ps. 126,3) Vobiscum hic vivimus, et propter vos vivimus (Sermão 355,1). Podiam ser estas as palavras gravadas no seu brasão episcopal, caso ele já existisse.
Tal noção de que não há separação nem distância (clerical) entre os pastores e os demais fiéis assenta, além disso, numa evidência: é que não há pastores que não venham de entre as ovelhas e, uma vez feitos pastores, não deixam de ser ovelhas. Na sua pregação, Agostinho gosta de lembrar esta evidência às vezes esquecida: «os bons pastores nascem das boas ovelhas» (Sermão 46,30; cf. 101,4).
Servir o rebanho de Deus sem se servir das ovelhas

Pastor fulani na Nigéria: “O pastor deve saber que é ministro de Deus e não de si mesmo, servidor do único e verdadeiro Pastor.” Foto © ACN
O pastor deve saber que é ministro de Deus e não de si mesmo, servidor do único e verdadeiro Pastor (Sermão 46,29-30; 229 N, 3). Ele não é dono da Verdade nem da Palavra de Deus, mas administrador e servo delas. Esta distinção clara entre a Palavra de Deus e as palavras do pastor, entre o elemento humano e o conteúdo divino deve ajudar ao discernimento diário dos pastores. Uma coisa é o magister verbi outra o magisterium Verbum a que os pregadores devem dar prioridade, cientes de que todos somos “ouvintes do Verbum”:
«Demonstrei a vossa dulcíssima Caridade, tal como pude e na medida em que o Senhor se dignou ajudar-me, como vós estais num lugar mais seguro a ouvir, do que nós a pregar. Na verdade, vós agora estais a fazer aquilo que mais tarde todos havemos de fazer. Nessa altura, não haverá nenhum mestre da palavra, a Palavra é que será o mestre. Daqui resulta, pois, que a vós compete-vos cumprir e a nós compete-nos advertir. Com efeito, vós sois ouvintes da palavra e nós somos pregadores. Interiormente, porém, onde ninguém vê, todos somos ouvintes, no íntimo do coração, na mente, onde nos ensina Aquele que nos exorta a louvar. De facto, eu falo exteriormente, Ele estimula interiormente. Portanto, todos somos ouvintes interiormente. E todos, quer interiormente, quer exteriormente, devemos ser cumpridores aos olhos de Deus» (Sermão 179,7).
Assim, o primeiro dever os pastores é ensinar, não as próprias ideias, mas a verdade revelada na Palavra feita carne: «Se dissermos coisas nossas seremos pastores que se apascentam a si mesmo e não as ovelhas; se, pelo contrário, o que dissermos for a Palavra de Cristo, é Ele que apascenta» (Sermão 46,2).
Por isso o Pastor de Hipona procura formar os seus fiéis para saberem distinguir as limitações e defeitos dos pastores-ministros daquilo que eles administram e servem (Sermão 46,27; 101,9.4; 137,4; 104,4), para assim progredirem na fé e na vivência do Evangelho anunciado, inclusive por indignos ou maus pastores (Sermão 340 A, 6; 137,11; 351,11).
Necessidade de formação

Ícone representando Jesus, o bom Pastor: “Para ser um qualificado servo da verdade, terá de se aplicar nestas três dimensões: vida honesta, vida de oração, e estudo”. Foto: Direitos reservados
Para servir bem, é preciso preparar-se bem. Consistindo a principal atividade pastoral no anúncio da Palavra de Deus, o Pastor deve, antes de mais, ser um bom ouvinte e seguidor do Evangelho que o “obriga” a evangelizar. Depois de ordenado sacerdote, contra a sua vontade, a primeira iniciativa de Agostinho foi pedir ao seu bispo Valério um tempo adequado para se dedicar ao estudo da Palavra de Deus, ciente que ninguém deve servir essa Palavra com superficialidade. Sem formação não há boa pastoral.
Efetivamente ele sabe que, para ser um bom pastor, não basta boa vontade e muita piedade. É necessário tempo e meios para se preparar. Especialmente o estudo da Escritura com a qual deve confrontar-se permanentemente a vida. Para ser um qualificado servo da verdade, o pastor terá de se aplicar nestas três dimensões: vida honesta, vida de oração, e estudo; bene vivit, bene orat, bene studiat (De ordine, II,19.51). Três dimensões que caminham juntas: Orar e estudar a Palavra de Deus (lectio divina), viver de acordo com ela; nutrir-se dela, testemunhá-la com a vida e o anúncio qualificado. Na verdade, como o próprio sentencia, «para ser um mau pastor basta a maldade humana, mas para ser um bom pastor, requer-se a graça divina» (Sermão 340,1).
O Pastor que fala de realidades espirituais deve ser o primeiro aberto ao Espírito, escutando-o no silêncio e recolhimento da oração, pressuposto básico de todo o apostolado que se espera fecundo. Por isso convida os seus fiéis:
«Entrai no vosso coração (Is 46,8) e, se sois fiéis, aí encontrareis Cristo. É aí que Ele próprio vos fala. Na verdade, eu grito, mas Ele no silêncio ensina muito mais. Eu falo por meio do som das palavras, Ele fala no interior por meio do temor do pensamento. Sendo assim, que Ele coloque no vosso coração a minha palavra, posto que me atrevi a dizer-vos: “Vivei bem, para não morrerdes mal”. Ora aí está: visto que a fé reside nos vossos corações, e Cristo se encontra neles, é Ele que consegue ensinar-vos aquilo que eu desejo proclamar» (Sermão 102,2.2).
Por outro lado, o testemunho de vida continua a ser o melhor selo de qualidade e credibilidade do anúncio. Para tal, o pastor deve ser um homem orante: mais ou antes de ser um falante (disctor), um orante (orator).
Estamos a falar de uma formação que deve ser permanente. Pois se o pastor não se alimentar, como irá nutrir seu rebanho? Neste sentido, Agostinho lembra muitas vezes que o sacerdote se alimenta da mesma mesa, do mesmo pão que os demais fiéis (Sermão 296,5): «Sirvo‑vos o mesmo pão de que eu vivo: do tesouro do Senhor, do banquete daquele pai de família que ‘sendo rico se fez pobre por nós, para que nos enriquecêssemos com sua pobreza’» (Sermão 339,4. cf. Sermão 95,2). «O que vós comeis, eu também como; do que vós viveis, eu também vivo. Temos uma despensa comum no céu, é daí que vem a palavra de Deus» (Sermão 95,1).
A Palavra de Deus é alimento e “água pura” que o pastor serve a quem o escuta (Sermão 128,7; 128, 6-7). O fruto da “semente” que o pregador semeia, com “mãos largas”, no coração do crente, dependerá também do seu “enraizamento” no chão do Evangelho (Sermão 51; 73,3; 101,4; 152,1).
O que quer dizer que os pastores não devem ser meros “despenseiros” ou técnicos “superiores” de um ministério de que se julgam “senhores”. Precisam, sim, de “comer” e “beber” todos os dias do pão e da água que servem aos ouros. Devem saber que não poderão partilhar, se também eles não se alimentarem do “pão da vida”. E como se trata de algo realmente “vital”, o serviço da Palavra e a pastoral dos sacramentos constitui a tarefa primeira dos pastores:
«Que todos sintam fome e sede, para comerem a vida e beberem a vida. Comer este alimento é ficar restabelecido. No entanto, és de tal modo restabelecido que aquilo com que te restabeleces não se esgota nunca. Beber aquilo o que é, senão viver? Come a vida e bebe a vida. Terás a vida e a vida continua inteira. Então acontecerá isto, ou seja, o corpo e o sangue de Cristo serão vida para cada um, se aquilo que se toma visivelmente no Sacramento for comido espiritualmente» (Sermão 131,1; cf. 229,2).
Entre “todos os famintos e sedentos” também se deve incluir o pastor. Ele não é dono nem senhor do alimento que mata a fome e a sede, mas o fâmulo de uma Palavra e Mistério de vida de que também ele se nutre.
Formar para o serviço

Anthony van Dyck, Êxtase de Santo Agostinho: “O pastor não é proprietário nem da Igreja, nem da Verdade nem da Palavra que anuncia.”
O pastor não é proprietário nem da Igreja, nem da Verdade nem da Palavra que anuncia, mas servidor e administrador dos dons que lhe foram confiados. Para que fiel e diligentemente “reparta o alimento” com todos os famintos de Deus, ele deve preparar-se devidamente (Sermão 51,1; 114,1; 339,4.9). No exercício do seu ministério da Palavra o pastor é um intermediário através do qual Cristo se manifesta, fala e atua. Ele é, neste sentido, a voz de Deus que ultrapassa a palavra humana: «Nós falamos, mas Deus é que ensina. Nós falamos, mas é Deus quem instrui» (Sermão 153,1).
Para servir bem, o pastor deve escutar muito. Escutar, antes de mais a Palavra que quer anunciar. Mas também escutar a voz daqueles a quem deve anunciar. Nas suas Retratationes, revendo as suas obras, o próprio Agostinho confessa ter falado demais e escutado pouco (Pról. 2). Talvez esteja a ser severo demais consigo, mas está mais uma vez a ser honesto connosco. Embora sempre preferisse escutar em vez de falar (ibi gaudeo ubi audio, non quando praedico (Sermão 179,2), o ministério obrigou-o a falar mais vezes do que desejaria.
Porque o pastor existe e vive em função do seu rebanho, não se deve apascentar a si mesmo, mas às suas ovelhas (Sermão 46,3-8; 313 E,7), nunca pondo os seus interesses à frente das necessidades dos seus fiéis (Sermão 137,11). Quem faz o contrário, está a trair o Evangelho (En. in Ps. 123,9; 125,2; 127,2; 128,1).
Daí emergem algumas atitudes fundamentais que devem qualificar o pastor. Antes de mais, a humildade: deve ser um humilde servo criador de laços de confiança e simpatia (cf. Sermão 269,1; Io. Ev. Tr. 6,1). A humildade de saber ser um homem que fala, em linguagem humana, de coisas não humanas: «De qualquer modo, irmãos, aceitai com benevolência o que eu digo, eu vo‑lo peço: que presteis atenção mais ao que tento explicar, do que àquilo que explico. Sei bem o que estou a dizer e quem sou eu que estou a falar: sou um homem que fala de coisas divinas aos homens» (Sermão 8,17).
“Falar das coisas divinas” não significa ser hermético e inacessível na vida e nas palavras. Pelo contrário, deve procurar estar próximo e fazer-se entender, “descendo” como fez o Senhor. O bispo de Hipona gosta de evocar o episódio do Sonho de Jacob para ilustrar o que significa este ministério:
«… Em Cristo, na verdade, há uma escada da terra ao céu, isto é, da carne ao espírito, porque os homens carnais, progredindo como que subissem, tornam‑se espirituais, e os próprios espirituais descem de um certo modo ao encontro dos carnais para os alimentar com o leite, uma vez que não é possível falar‑lhes como a homens espirituais, mas como a carnais (1Cor 3,1). Assim se sobe e se desce em direção ao Filho do Homem. Na verdade, o Filho do Homem está no alto, na nossa cabeça, pois é o nosso Salvador; mas o Filho do Homem está em baixo, no seu corpo que é a Igreja. Ele é a escada, pois o próprio disse: ‘Eu sou a via (Jo 14,6). Sobe‑se, portanto, a Ele para se compreender que mora no alto dos céus e a Ele se desce porque, nós mesmos, pequenos como somos, nos alimentamos nos seus membros. Através dele se sobe e se desce: na verdade, seguindo o seu exemplo, os seus pregadores sobem a sua voz para o contemplarem no alto, mas abaixam‑se para o anunciar de modo menos elevado» (Contra Faustum, 12,26; Cf. Sermão 122,6).
Pela sua experiência pessoal e pastoral Agostinho sabe que é preciso “descer” ao encontro dos fiéis, entre os quais há muitas diferenças de interesse ou capacidade de acolher a mensagem (Cat. Rud. X,15). De facto, especialmente no que se refere à pregação «todos escutam, mas cada um compreende segundo a sua capacidade: uns reagem como crianças, outros como adultos; uns acolhem a pregação como um alimento lácteo, outros como um alimento sólido» (In Iohanem tract. Xcviii,3).
Não trabalhar para o aplauso

Assembleia sinodal em Roma, em 2023/24: Nos Sermões vemos um pastor que põe em prática o equilíbrio entre a acessibilidade e a qualidade e exigência da formação. Foto © Vatican News
Lendo os sermões de S. Agostinho vemos um pastor que põe em prática este equilíbrio entre a comunicabilidade e acessibilidade e a qualidade e exigência da formação e edificação dos fiéis. Na sua pregação popular aborda todas as grandes questões da fé e da doutrina cristã, incluindo as mais teológicas e difíceis, mas sempre atento às condições dos seus ouvintes, num imenso respeito por todos. O Pastor sabe que lhe cabe o serviço de semear e cultivar, mas é ao Senhor da Messe que compete fazer dar fruto (Sermão 340,1).
Por isso, todo o empenho do Pastor não se deve focar no aplauso ou em suscitar emoções fáceis e superficiais. Mesmo quando o reconhecimento acontece espontaneamente da parte dos fiéis (Vida de Agostinho, 7,1; Sermão 19,4; 37,17; 131,5; 135,4; 289,6), a prioridade deve ser sempre agradar ao Senhor e não aos servos (Sermão 95,1; 229 E,4; 293 A,1): «Quero uma boa conduta, não os aplausos», adverte. «Vós aplaudis, mas eu pergunto‑me como viverão aqueles que me aclamam» (Sermão 339,1).
Isto não deve de modo algum servir de pretexto para se facilitar na devida preparação e qualidade dos serviços prestados pelo pastor. A beleza continua a ser fundamental no ensino e anúncio da Verdade, sem que se confunda com o espetáculo como objetivo último: «Devemos temer tanto mais os que abundam em eloquência sem sabedoria, quanto mais o auditório se compraz em suas futilidades» (De doctrina christiana, IV,5,7).
O pastor deve querer e tudo fazer para ser escutado, mas não para ser ele o celebrado. É um equilíbrio que todos os pastores sabem não ser fácil. Agostinho também o sabia. Rejeitando o populismo clerical, acolhe de bom grado a aprovação dos fiéis, mas apenas como ministro de Deus que não deve ser ignorado: «Se digo que não quero ser louvado por aqueles que vivem corretamente, minto… Não o quero totalmente nem totalmente não o quero. Não o quero totalmente para não incorrer no perigo dos louvores humanos, nem totalmente não o quero, para não ser ignorado por aqueles a quem prego» (Sermo. 339,1)
Em suma, uma só ambição deve presidir a tudo o que o pastor faz e diz: “vivermos com Cristo”: «Que é que eu quero? Que é que eu desejo? Que é que eu ambiciono? Porque é que eu falo? Porque é que me sento aqui? Porque é que eu vivo? Só com esta intenção: para vivermos juntos com Cristo. A minha ambição é esta, a minha honra é esta, a minha riqueza é esta, a minha alegria é esta, a minha glória é esta» (Sermão 17,2).
O princípio da caridade
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Terras pastoris em Huíla (Angola): “Sem o entusiasmo e alegria da fé, o anúncio será menos fecundo”. Foto © BwalaMidia
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O Pastor é aquele que preside à caridade, ou, noutros termos, um “delegado da caridade” de Cristo à Igreja local em que serve e à Igreja universal a que pertence, pois «os membros de Cristo estendem-se a todo o mundo» (Io. Ev. Tr. 10,8). A caridade é o motor que move o pastor (En. in Ps. 44,33) e os bons pastores são os que «ardam de amor e agradam o Amor» (Ep. 228,12).
Se Deus ama quem dá com alegria (1Cor 9,7), muito mais quem se dá com alegria. Por isso, citando esta palavra, Agostinho exorta: «exultemos com o fervor do espírito e alegremo-nos na tranquilidade do bom trabalho» (Cat. Rud. X,14). Alegria e caridade, porque «a caridade sem alegria não pode ser verdadeira caridade» (En. in Ps. 76,6).
Sem o entusiasmo e alegria da fé, o anúncio será menos fecundo. Estas são fundamentais notas do zelo apostólico: «Se o fogo não arde no ministro que anuncia, não se acenderá naquele a quem anuncia» (En. in Ps. 103,2.4). É este fogo do amor de Cristo que impele o pastor a servir os seus irmãos na fé. Cristo é sempre o modelo e critério:
«És um bom servo de Cristo se servires aqueles que Cristo serviu […]. Fez-te servo aquele que, com o seu sangue, te libertou… Sabei amar os vossos servos, em nome do vosso Senhor. Que ele nos conceda fazer um bom serviço, pois querendo ou não, somos servos que servimos não por necessidade, mas por caridade» (En. in Ps. 103, 3,9).
Por conseguinte, é o Amor de Cristo que move e qualifica o serviço pastoral, ao “libertar” de todas as formas de servidão, para a total disponibilidade para o serviço na caridade, sem interesses nem “necessidades”. O serviço pastoral é uma livre “servidão” animada pela caridade. Por isso Jesus perguntou três vezes a Pedro se o amava, antes de lhe confiar a missão de “apascentar” a Igreja (Sermão 340,1. 3). E Agostinho conclui: «Seja empenho de amor apascentar o rebanho do Senhor» (Io. Ev. Tr. 123,5).
Imitando o Bom Pastor, o ministro da Igreja deve amar a todos por igual (Sermão 340,1: omnes amandi), acolhendo todos os que se aproximam e ir ao encontro dos que andam longe (Sermão 46,15), dedicando especial atenção aos mais pequenos e débeis (Sermão 77 C, 1). É o Amor que estimula a solicitude do pastor, sobretudo para com os que estão em maior perigo, porque «se a segurança está garantida, a caridade faz parecê-la sempre precária» (Sermão 339,2).
Com a mesma caridade, o pastor deve exercer a medicina das almas, tendo em conta os diversos tipos de enfermidade e de doentes, adequando o ensino e correção situação de cada pessoa:
«O facto de devermos ter a mesma caridade para com todos não significa que seja necessário usar o mesmo remédio para todos. Da mesma forma, a caridade faz renascer uns, com outros torna-os mais fracos; procura edificar a uns, evita ofender outros; inclina-se para uns, ergue-se diante de outros; com uns é complacente, com outros severa; inimiga de ninguém, é mãe de todos» (De catechizandis rudibus,15,23).
Para o bom trabalho e equilíbrio do Pastor, este deve amar e sentir-se amado. A comunhão e colaboração dos fiéis é um estímulo essencial para o bom ministério dos pastores e o próprio progresso espiritual de todos (Sermão 82,15; 255 A). Agostinho mostrou uma especial preocupação com a saúde espiritual e mental dos pastores; motivo pelo qual ele próprio nunca quis viver isolado, mas em comunidade e implementou, enquanto pôde, este modelo.
Sabe por experiência própria que «onde o amor é maior a tarefa é mais leve», (Ep. 101,1). Esta comunhão e reciprocidade da caridade concretiza-se na solicitude também recíproca: o pastor que zela pelos seus fiéis, estes que velam e oram pelos seus pastores (Sermão 355,7). Na sua pregação é frequente Agostinho reconhecer esta retribuição da parte dos fiéis:
«Confesso-vos que temia que este frio pudesse arrefecer o vosso desejo de vos reunirdes. A vossa numerosa participação, por outro lado, mostra o fervor do vosso espírito: tenho a certeza de que rezaste por mim para que eu possa pagar a dívida que tenho convosco… vejo que viestes em maior número do que o habitual, movidos pelo desejo de ouvir e animados por uma devoção sincera. Que Deus satisfaça a vossa expectativa através da nossa boca. Claro que não terias vindo se não fosse o amor que vos impulsionou: mas que amor? Se for amor por nós, também está bem. Desejamos ser amados por vós. Não queremos, contudo, ser amados por nós próprios. Amamos-vos em Cristo; e é em Cristo que vós, por vossa vez, deveis amar-vos uns aos outros. E o nosso amor uns pelos outros geme por Deus» (Io. Ev. Tr. 6,1).
Ministros da união e comunhão

Philippe de Champaigne, Santo Agostinho: “Agostinho sabe que um dos obstáculos à comunhão da Igreja é o apego desmesurado aos cargos assumidos.”
É frequente o pastor hiponense terminar a sua pregação com exortações análogas a esta do Sermão 280,6: «Obedeçamos todos ao mesmo Senhor, sigamos todos o mesmo Mestre, acompanhemos o mesmo Príncipe, submetamo-nos à mesma Cabeça, dirijamo-nos para a mesma Jerusalém, persigamos a mesma caridade e abracemos a mesma unidade».
O pastor é aquele que vai à frente, numa Igreja que caminha sinodalmente na mesma Esperança.
Agostinho sabe que um dos grandes obstáculos à comunhão e unidade da Igreja é o apego desmesurado aos cargos assumidos que, em vez de serem desempenhados como serviço, são vistos como promoção e motivo de presunçoso orgulho, contrário ao espírito de Cristo que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,45). Tal inversão do verdadeiro sentido do ministério pastoral subverte não apenas o significado dos ministérios, como promove os conflitos em vez da comunhão. Neste contexto, o Bispo de Hipona chega a elogiar o comportamento dos fiéis que se recusam a obedecer a um bispo que prepotente que, em vez de obedecer a Cristo, ameaça usar a força para impor o próprio domínio pessoal (Ep. 64,4).
«No caso dos fiéis de Vigesilit, que nos são muito queridos juntamente convosco no amor de Cristo, não quiseram receber o seu bispo, alguém que foi destituído pelo Concílio Plenário de África, agiram sabiamente e não podem nem devem ser obrigados a aceitá-lo […]. Na verdade, nada manifesta melhor a imoralidade da sua causa do que aquele que, usando as autoridades terrenas e com meios violentos e com perturbações e lamentações, tenta recuperar uma honra perdida. Porque não quer servir a Cristo, mas sim exercer sobre os cristãos uma prepotência que eles rejeitam» (Ep. 64,4).
Este episódio mostra-nos três coisas: por um lado, a autoridade ministerial só é verdadeira quando se orienta para o bem do povo de Deus; por outro, a concórdia é o ideal da Igreja, mas não deve ser imposta por qualquer meio coercivo nem a qualquer preço; finalmente, os pastores devem saber que estão sujeitos ao juízo de Deus que também se pode manifestar através do juízo dos seus fiéis. Assim se consuma o ideal da corresponsabilidade no cuidado da Família do Senhor.
Acerca dos Pastores
(excertos do Sermão 46 de Santo Agostinho; tradução de José António Gonçalves/Isidro Lamelas)
Somos cristãos para nós e bispos para vós

O Bom Pastor, escultura nas Catacumbas de São Calisto (Roma): “O facto de sermos cristãos é para nós, o facto de sermos pastores é para vós.” Foto © Joaquim Félix
- (…) Eis o que diz o Senhor Deus: Ai dos pastores de Israel que se apascentam apenas a si mesmos! Não são porventura as ovelhas que os pastores devem apascentar? (Ez 34, 2). Isto é, os pastores não devem apascentar-se a si mesmos, mas às ovelhas. Esta á a primeira razão, pela qual estes pastores são acusados: porque se apascentam a si mesmos e não às ovelhas. Quem são os que se apascentam a si mesmos? São aqueles de quem o Apóstolo diz: Todos procuram os seus interesses e não os de Jesus Cristo. (Fl 2, 21). Nós, a quem o Senhor, de acordo com o seu desígnio e não de acordo com os nossos merecimentos, nos estabeleceu neste lugar, do qual é preciso dar estrita conta, somos revestidos por duas realidades que devem ser distinguidas: uma é que somos cristãos, e outra é que somos pastores. O facto de sermos cristãos é para nós, o facto de sermos pastores é para vós. No que se refere ao facto de sermos cristãos, tem-se em vista o nosso bem; no que se refere ao facto de sermos pastores, apenas se tem em vista o vosso bem. E há muitos que, sendo cristãos e não pastores, chegam a Deus talvez por um caminho mais fácil e caminhando talvez de maneira tanto mais desembaraçada, quanto menor é a carga que transportam. Nós, porém, para além de sermos cristãos, razão pela qual daremos contas a Deus da nossa vida, também somos pastores, razão pela qual daremos contas a Deus da nossa administração… Se alguém tem uma posição de chefia, a ponto de se alegrar pelo facto de estar em lugar superior, procura a sua honra e tem em vista apenas os seus interesses, apascenta-se a si mesmo e não às ovelhas. É para estes que o sermão se dirige. (…) Com efeito, se Deus não abandonar as suas ovelhas, os maus pastores hão de sofrer os castigos devidos, mas as ovelhas hão de receber os bens prometidos. (…)
Crítica do pastor e pregador populista
- Deus nos livre de vos dizermos: “Vivei como quiserdes, ficai tranquilos, pois Deus não perde ninguém, conservai apenas a fé cristã. Ele não vai perder o que redimiu, nem aqueles por quem derramou o seu sangue. E, se quiserdes recrear os vossos espíritos com espetáculos, ide a eles. Que mal tem isso? Ide a essas festas que se celebram por toda a cidade, participai na alegria dos que se banqueteiam e dos que acham que se divertem nas mesas públicas, mas que na realidade se perdem, e celebrai-as à vontade. A misericórdia de Deus é sem limites e tudo perdoa. Coroai-vos com as rosas, antes que elas murchem. Banqueteai-vos, quando quiserdes, na casa do vosso Deus. Enchei-vos de comida e de vinho juntamente com os vossos. Foi precisamente para isto que esta criatura vos foi dada, para usufruirdes dela. Deus não ia dá-la aos pagãos e aos ímpios sem que vo-la desse também a vós”. Se disséssemos estas coisas, talvez juntássemos multidões mais numerosas. E se há alguns que acham que nós, ao dizermos estas coisas, não estamos a falar corretamente, são, todavia, poucos os que estamos a ofender, agradando assim à multidão. Se fizermos isto, dizendo palavras nossas, em vez das palavras de Deus e das palavras de Cristo, então seremos pastores que nos apascentamos a nós mesmos e não às ovelhas.
Um mau pastor mata as ovelhas boas

“Ovelhas com defeitos estão por toda a parte, ao passo que as ovelhas sãs e bem nutridas são pouco numerosas, isto é, as que se robustecem com o alimento da verdade e as que usam bem as pastagens que são os dons de Deus.” Foto © Wiggler | Pixabay
- (…) ovelhas com defeitos estão por toda a parte, ao passo que as ovelhas sãs e bem nutridas são pouco numerosas, isto é, as que se robustecem com o alimento da verdade e as que usam bem as pastagens que são os dons de Deus. Mas aqueles maus pastores não poupam as que são assim. Parece-lhes pouco não tratarem as débeis e enfermas, as transviadas e perdidas. E, por aquilo que eles são, acabam mesmo por matar as que são fortes e robustas. Mas elas vivem. Vivem pela misericórdia de Deus. Todavia, pelo que depende dos maus pastores, elas são mortas por eles. “Como é que eles as matam?”, perguntas tu. Vivendo mal, dando-lhes mau exemplo. Terá sido em vão que foi dito ao servo de Deus, eminente entre os membros do sumo Pastor: Apresenta-te diante de todos como exemplo de boas obras (Tito 2, 7)? E ainda: Torna-te modelo para os féis (1Timóteo 4, 12)? Com efeito, a ovelha, mesmo a que é forte, vendo que a maior parte das vezes o seu pastor vive mal, se desviar os olhos das regras do Senhor, para os voltar para o homem, logo começa a dizer no seu coração: “Se o meu pastor vive desta maneira, quem sou eu para não fazer o que ele faz?”. Acaba por matar a ovelha forte. Ora, se ele mata a ovelha forte, que é que fará das outras, ele que, vivendo mal, matou aquela que não foi robustecida por ele, mas que talvez já a tenha encontrado robusta? Digo a Vossa Caridade e de novo o repito: ainda que as ovelhas vivam, ainda que elas sejam fortes na palavra de Deus e se agarrem àquilo que ouviram do seu Senhor: Fazei o que eles dizem, mas não façais o que eles fazem (Mateus 23, 3), todavia quem vive mal aos olhos do povo, por aquilo que é, acaba por matar quem o vê. Sendo assim, que o pastor não se gabe pelo facto de o outro não estar morto. O outro continua a viver, mas ele não deixa de ser homicida. (…)
Construir sobre a rocha
- Ora como avaliar esses pastores que, por medo de ferir aqueles a quem falam, não só não os previnem para as tentações iminentes, mas também prometem uma felicidade deste mundo, coisa que Deus não prometeu ao mundo? Deus prediz que para este mundo hão de vir trabalhos sobre trabalhos até ao fim, e tu queres que um cristão escape a esses trabalhos? Pelo facto de ele ser cristão até tem, ainda, de suportar algo mais neste mundo. (…) Agora tu, ó pastor que procuras os teus interesses em vez dos de Jesus Cristo, depois de o Apóstolo dizer: Todos os que querem viver piedosamente em Cristo, experimentarão a perseguição, (…) Presta atenção ao que constróis e onde o constróis. A casa que tu constróis está sobre a areia (Mateus 7, 26)? O inverno há de chegar, a torrente há de vir, o vento há de soprar, hão de lançar-se contra essa casa, que cairá e será grande a sua ruína. Tira-a da areia e coloca-a sobre a rocha (Mateus 7, 25, 27). Que esteja em Cristo aquele que tu queres que seja cristão…
O bom pastor não deixa que o errante se perca

Jean-Baptiste de Champaigne (1631–1681), O Bom Pastor: “Não reconduzistes a que estava transviada, razão pela qual não estamos seguros no meio dos hereges. E não procurastes a que estava perdida.” Palais des Beaux-Arts de Lille/Wikimedia Commons.
Não reconduzistes a que estava transviada. Aí está a razão pela qual não estamos seguros no meio dos hereges. E não procurastes a que estava perdida (Ezequiel 34, 4). (…) Ouço o Apóstolo a dizer-me: Prega a palavra, insta oportuna e inoportunamente (2Tm 4, 2). Oportunamente a quem? Inoportunamente a quem? Oportunamente aos que querem e inoportunamente aos que não querem. Realmente sou importuno, reconheço-o: Tu queres transviar-te, tu queres perder-te, mas eu não quero. Ao fim e ao cabo, aquele que me faz tremer também o não quer. Se eu o quisesse, repara no que ele me diz e increpa: Não reconduzistes a que estava transviada, não procurastes a que estava perdida (Ezequiel 34, 4). Hei de temer-te mais a ti que a ele? Todos temos de comparecer diante do tribunal de Cristo (2Coríntios 5, 10). (…) Reconduzirei a transviada e procurarei a perdida. Queiras ou não, é isso que eu farei. E ainda que eu, na minha missão de busca, venha a ser arranhado pelas silvas dos bosques, embrenhar-me-ei nos lugares mais esconsos, arrancarei todas as sebes e, tanto quantas as forças que me forem concedidas pelo Senhor que me enche de temor, penetrarei em todos os lugares. Reconduzirei a transviada, procurarei a que anda perdida. (…)
Se um cego guia outro cego, ambos caem no buraco
- (…) Se Deus dissesse: “Fazei tranquilamente o que eles fazem, porque eu vou condenar esses mal-comportados, mas poupar-vos-ei a vós, porque seguistes as orientações dos vossos chefes”; se Deus dissesse isto, fugiriam aterrorizados os maus pastores, que não apascentam as ovelhas, mas que se apascentam a si mesmos. (…) Fazei o que eles dizem, mas não façais o que eles fazem (Mateus 23, 3). De facto, quando vós não fazeis o que fazem os maus pastores, eles não conseguem apascentar-vos, porém, quando fazeis o que eles dizem, sou Eu que vos apascento. É que eles dizem as minhas coisas, mas não as fazem. “Nós seguimos tranquilamente os nossos bispos”, dizem eles. Os hereges dizem isto muitas vezes, quando disso estão convencidos pela evidentíssima verdade: “Nós somos ovelhas, eles terão de dar contas de nós”. É claro que eles darão má conta da vossa morte. Da morte da ovelha perversa dará má conta o mau pastor. Mas acaso continuará viva a ovelha, pelo facto de se apresentar a sua pele? Censura-se o pastor, porque negligenciou a ovelha transviada, a qual, por causa disso, veio a cair nas fauces do lobo que a devorou. De que lhe aproveita apresentar a pele como prova? O dono pede-lhe contas da ovelha. (…) Deus toma nota das suas palavras e ações e examina os seus pensamentos. O mau pastor presta contas da pele da ovelha morta. “Gritei-lhe as tuas palavras e ela não me quis seguir; esforcei-me para que não se afastasse do rebanho e não me obedeceu”. (…) Devia ter reconduzido a ovelha perdida, para não apresentar a pele da ovelha morta. Sendo assim, se aquele que não procurou a ovelha transviada, não consegue dar uma conta boa, que conta dará quem a fez transviar? O que eu digo é isto: Se na Igreja Católica aquele que foi constituído bispo não deu boa conta da ovelha, se não procurou a que se transviou do rebanho de Deus, que conta há de dar o herege, que não só não retirou a ovelha do erro, mas também a impeliu ao erro?
Nunca hão de faltar bons pastores

Mosaico O Bom Pastor. Museu de Galla Placidia, Ravenna, Itália.”Deus nos livre que agora faltem os bons pastores. Deus nos livre de a sua misericórdia os não suscitar e constituir. Realmente, se há boas ovelhas, também há bons pastores, pois os bons pastores fazem-se das boas ovelhas.”
- (…) Deus nos livre que agora faltem os bons pastores, Deus nos livre que eles faltem. Deus nos livre de a sua misericórdia os não suscitar e constituir. Realmente, se há boas ovelhas, também há bons pastores, pois os bons pastores fazem-se das boas ovelhas. Mas todos os bons pastores estão num só, são um só. Se eles apascentam, é Cristo que apascenta. (…) Também ao próprio Pedro, a quem o Senhor confiava as suas ovelhas, como se um estivesse no outro, queria torná-lo um consigo e assim entregar-lhe as ovelhas, para que Cristo fosse a cabeça e Pedro assumisse a imagem do corpo, ou seja, da Igreja e, tal como o esposo e a esposa, fossem os dois uma só carne. Por isso, ao querer confiar as ovelhas a Pedro, que é que lhe pergunta primeiro, para não dar a impressão de que lhas entrega como se ele fosse um estranho? Pedro, amas-me? E ele responde: Amo. De novo lhe pergunta: Amas-me? E ele responde: Amo. Pergunta-lhe pela terceira vez: Amas-me? E ele responde: Amo (Jo 21, 15-17). O Senhor quis certificar-se do amor, para consolidar a unidade. (…) Mesmo quando o próprio Pedro e os outros Apóstolos ainda estavam nesta carne e nesta vida, o único pastor, em quem todos eles eram um, disse: Tenho outras ovelhas que não são deste redil e preciso de conduzi-las também, para que haja um só rebanho e um só pastor (Jo 10, 16). Que todos estejam, pois, no único pastor, que falem a única voz do pastor, que as ovelhas possam ouvir, seguindo o seu pastor, não este ou aquele, mas o único. (…)
Seguir a voz de Cristo, ouvindo a voz do pastor
- (…) Nós conhecemos o Cântico dos Cânticos: são Cânticos santos, Cânticos amorosos, de um amor santo, de uma caridade santa e de uma santa doçura. Claro que eu gosto de ouvir ali a voz do pastor, a voz do dulcíssimo esposo. Mostra-a, se tens algo a dizer. Escutemo-la. “A esposa – afirmam eles – diz ao esposo: Diz-me, amado da minha alma, onde apascentas o teu rebanho e onde descansas (Ct 1, 6). E ele responde (dizem eles): No meio-dia”. Há pouco apresentava-te testemunhos evidentes, sem que tivesses como interpretar de outra maneira: Pede-me e eu te darei os povos por tua herança e os confins da terra como tua propriedade (Sl 2, 8). hão de lembrar-se do Senhor e a Ele hão de converter-se todos os confins da terra (Sl 21, 28). Que é que significa isto que me apresentas no Cântico dos Cânticos? Coisa que provavelmente tu não entendes. De facto, aqueles Cânticos são enigmáticos, poucos puderam entendê-los e só a poucos que lhes bateram à porta, elas se abriram. Aceita e apega-te devotamente às coisas claras, para que com mérito te sejam desvendadas as obscuras. Como é que poderás ser perscrutador das coisas obscuras, se desprezas as manifestas?
Isidro Lamelas é padre da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.










