Comentário

O segundo apagamento de Aristides

| 20 Out 21

Aristides de Sousa Mendes e visto concedido em 1940, foto Vatican News sem creditos

Aristides de Sousa Mendes e um dos vistos por ele concedidos em 1940. Foto: Direitos reservados.

 

“Mesmo que me destituam, só posso agir como cristão, como me dita a minha consciência; se estou a desobedecer a ordens, prefiro estar com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus.”

Esta afirmação de Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus em 1940, confirmada por muitas outras de cariz semelhante, mostra bem qual foi o fundamento para a sua decisão de, contra as ordens expressas de Salazar, conceder indiscriminadamente vistos de passagem a milhares de pessoas em fuga do terror nazi, que ocupara França e estendera os seus tentáculos a grande parte da Europa.

Portugal era, então, uma porta de saída para muitos judeus e outros perseguidos. Melhor: era uma via de passagem para quem pretendia rumar aos Estados Unidos ou a outros destinos. Mas para isso, precisava de ter o visto de passagem, a par de outros três documentos semelhantes que permitiam sair de França, entrara em Espanha e assegurar que havia um destino final, como recordou a historiadora Margarida de Magalhães Ramalho na cerimónia de concessão de honras de Panteão Nacional ao antigo diplomata.

Aristides de Sousa Mendes decidiu, depois de três dias de “uma enorme luta interior”, como também disse a historiadora, conceder os vistos. Fez o que a sua consciência lhe ditou, fundada nas suas profundas convicções de cristão, que aliava o conhecimento teológico e bíblico a uma profunda espiritualidade, como também recordou o neto António Moncada Sousa Mendes em entrevista à RTP2, domingo passado.

Sabido que é assim, é estranho que essa dimensão de Aristides seja obliterada, pelo menos em parte, sobretudo pela mensagem mediática que passa a propósito de Aristides. No Panteão, o Presidente Marcelo evocou São Paulo e as Bem-Aventuranças, Margarida Ramalho referiu-se ao discurso do Papa Francisco no ano passado, acerca do valor da consciência, e a própria deputada Joacine Katar Moreira, quem primeiro propôs o nome de Aristides para o Panteão Nacional, confessava ao Público ser “emocionante que Aristides, enquanto homem religioso que era, [dissesse] que antes obedecer a Deus e desobedecer aos homens do que o contrário”. Mas na linguagem mediática, e não apenas a propósito da cerimónia do Panteão, mas já em outras ocasiões, prevalece o enaltecimento genérico da “ética”, sem se referir qual a matriz ética em causa.

 

O católico Aristides contra (o católico) Salazar
selos, memória, Holocausto, Aristides de Sousa Mendes

Selo de homenagem a Aristides, da emissão “Memória dos salvadores do Holocausto”, publicada em Junho, que presta ainda tributo a Carlos Sampaio Garrido, Teixeira Branquinho, padre Joaquim Carreira e José Brito Mendes.

Não significa isto que a ética cristã tenha de ser considerada superior. Aristides poderia ter feito o que fez em nome de uma corrente filosófica, de outra fé – judaica, muçulmana… – ou, simplesmente, em nome da defesa dos direitos humanos. E o valor da sua decisão e dos seus actos não seria menor (nem maior). Mas omitir ou desconsiderar a matriz da sua convicção e do seu agir é condená-lo, afinal, a um outro apagamento – sem dúvida, muito menos grave que aquele a que Salazar o obrigou, mas nem por isso profundamente injusto para um homem de convicções.

Pergunto-me se, neste apagamento, não haverá também uma quota-parte de responsabilidade da Igreja Católica – não só da hierarquia. Afinal, o católico Aristides opôs-se ao católico (deveria esta palavra ficar aqui entre aspas, para dizer que era assim que o próprio se designava?) Salazar. De um lado, estava alguém que ia à missa, frequentava os sacramentos, baptizava os filhos (até teve muitos…) e, além disso, salvou milhares e milhares de vida – 20 mil? 30 mil? Do outro, alguém que ia à missa, frequentava os sacramentos e, além disso, condenou muitas pessoas (incluindo católicos), que reivindicavam apenas a liberdade de consciência, à prisão e à tortura e milhares de jovens ao sofrimento e à morte em três frentes de uma guerra insana.

Admita-se que, após os desmandos persecutórios e a instabilidade da Primeira República, Salazar aparecera como o garante da liberdade de acção da Igreja – mas tal atitude seria, afinal, um abraço de urso, deixando a instituição imobilizada na acção profética que deveria ter tido em relação ao regime ditatorial. Talvez por isso, nunca foi resolvido algum mal-estar do catolicismo português em relação a muitos dos seus melhores, que lutaram contra o regime – e, por via disso, contra a conivência de boa parte da hierarquia com a ditadura.

Talvez seja de reflectir se Aristides, no fundo, não será uma vítima indirecta dessa conivência com o poder que um certo catolicismo teimou em assegurar – e que continuou, até hoje, num discurso e numa prática que não vê bem a discordância, a crítica ou a liberdade de opinião no interior da Igreja (apesar da afirmação do Papa Pio XII, em 1940, segundo o qual a opinião pública é “vital” para a Igreja). Aristides, como disse bem o bispo de Setúbal – que esteve na cerimónia do Panteão, ao lado do patriarca de Lisboa – é exemplo de como nos devemos “rebelar” contra o desvirtuamento de “valores sagrados”. Mesmo que, acrescento agora, esse desvirtuamento seja feito por pessoas que se apresentam como católicos que, como Salazar, também vão à missa e frequentam os sacramentos, mas fazem depois um discurso do “nós contra eles”, incitando ao ódio contra o estrangeiro ou contra quem é diferente, pensa diferente ou vive de modo diferente… Tudo, afinal, nos antípodas do “amor aos inimigos” e do “amor ao próximo” como máximas evangélicas. E isto é válido não apenas para a Hungria ou a Polónia (ou a Rússia ou o Brasil)…

Esta timidez da Igreja Católica, que deveria ser a primeira a enaltecer o exemplo de Aristides de Sousa Mendes (ou do padre Joaquim Carreira, outro Justo Entre as Nações), a divulgar a sua acção, a aprofundar as razões da sua decisão, deve ser objecto de reflexão. Afinal, como disse o Papa Francisco em 17 de Junho de 2020, a propósito de Aristides de Sousa Mendes: “O seu exemplo deve servir para que a liberdade de consciência seja respeitada sempre e em todo o lado e que cada cristão possa dar mostras de coerência com uma consciência recta e iluminada pela Palavra de Deus!”

É preciso acrescentar algo mais?

 

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Ainda antes de acabar o curso fui à minha primeira entrevista de trabalho “a sério”, numa produtora de filmes num bairro trendy de Lisboa. Roubei um dia à escrita da tese de mestrado, apanhei o comboio e lá fui eu, tão nervosa quanto entusiasmada. O dono começou por me perguntar se fazer cinema era o meu sonho. Fiquei logo sem chão. Sofri, desde muito cedo, de um mal que me acompanha até hoje: sonhava demais e muitos sonhos diferentes.

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