O segundo passo

| 13 Set 2022

deserto, pegadas, pés

“O segundo passo é o da harmonia que só se atinge quando nos desapegamos do que pensamos e abrimos o coração à escuta da Voz do Espírito Santo.” Foto © Mier Chen/Unsplash

 

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) divulgou o Relatório de Portugal para o Sínodo 2021/2023. Pouco tempo depois, surge uma Carta Aberta (CA) com vários signatários cujo primeiro nome é conhecido na sociedade portuguesa a criticar o tom negativo do texto e que esquecia o que de positivo faz, também, parte da vida da Igreja. Por fim, vale a pena ver a leitura que o padre Peter Stilwell fez desta situação — é só um relatório. Não tem valor doutrinal. Qualquer crítica nesta fase é inoportuna e inconsequente. Mas se a CA agitou as águas da comunicação social, será inoportuna?

Concordo com o padre Peter em que o relatório da CEP é uma fotografia daquilo que as comunidades católicas em Portugal pensa sobre a vida da Igreja, pelo que não poderia ser escrito de outro modo. A Carta Aberta é, no espírito sinodal, legítima, mas vem tarde. Por que razão o seu conteúdo não faz parte do relatório a não ser que não tenha sido enviado como resultado da consulta sinodal? Mas há uma nuance no relatório que nem a Carta Aberta ou o padre Peter referem e que, como experimentalista, me deixou, verdadeiramente, perplexo.

Quando é descrito o modo como foram recolhidos os contributos, o relatório diz:

“Na sua maioria, o alcance da escuta sinodal ficou restringida à realidade diocesana, em parte devido a uma débil estratégia de divulgação, enfraquecida pela incapacidade de simplificar a explicação sobre a relevância e a dinâmica da consulta sinodal.” “As comunidades que tiveram pouca ou nenhuma informação sobre o sínodo, e que não estavam enquadradas nas realidades eclesiais, apesar de serem compostas por cristãos, não se organizaram espontaneamente, à exceção de alguns grupos, como foi o caso da auscultação aos docentes universitários, que envolveram crentes e não crentes na sua reflexão.” “Aliás, ficou em falta uma divulgação cuidada a nível nacional, que facilitasse a convocatória daqueles que não frequentam o espaço eclesial e que não estão por dentro da dinâmica paroquial. As dioceses alertaram para as dificuldades criadas por um calendário apertado, que dificultou o tempo de divulgação necessário à mobilização desejada.”

Se um investigador principal de um projecto financiado pela FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) tivesse apresentado um relatório de projecto a dizer que:

  • não conseguiu publicar os resultados em revistas internacionais porque não conseguiu montar bem a técnica de medida que os permitia obter, dado que não conseguiu apreender bem os seus princípios;
  • por outro lado, se o relatório afirmasse ainda que os outros parceiros do projecto receberam pouca informação da sua parte e, por isso, não conseguiram organizar-se para darem o seu contributo para a investigação;
  • e que, por fim, apesar de constar no projecto, a divulgação do trabalho a nível nacional ficou em falta porque andávamos no laboratório ocupados com outras coisas;

no mínimo, a FCT pediria o financiamento de volta.

Neste momento, o relatório contém o que contém e qualquer crítica ao mesmo é chuva que cai em chão molhado. Mas a fotografia que revela daquilo que muitos cristãos pensam é preocupante. A sensação com que fiquei foi a de um povo que não conhece ou encarna a profundidade espiritual contida no pensamento que parte da vivência católica. Por exemplo, no que toca à moral sexual, do contacto e experiência que S. João Paulo II teve com as famílias surgiu a Teologia do Corpo. Isto é, uma dimensão da sexualidade que faz do nosso corpo um modo de conhecermos mais e melhor Deus. Quando era jovem foi-me dado a conhecer esta Teologia do Corpo e confesso ter influenciado profundamente o meu modo de ser, estar e pensar. O leitor conhece a Teologia do Corpo?

Mas a Carta Aberta parece esquecer que o sínodo não se reduz ao primeiro passo de escuta daquilo que as pessoas pensam e que devem sentir-se livres de expressar como conseguirem, sem pensarem se estão a ser, ou não, correctas quanto à Doutrina. Pois existe um segundo passo.

Na entrevista a Maria João Avillez, o Papa Francisco diz que “não há Sínodo sem a presença do Espírito Santo. Quem é a personagem principal do Sínodo? O Espírito Santo. E como se faz isso? Cada um diz o que sente, ou que pensa, e depois juntos procuram a harmonia – outra vez a palavra – do Espírito Santo. Gosto de S. Basílio porque define o Espírito Santo como harmonia. Diz: ‘Ele é a harmonia’. Então, no [caminho] sinodal está a diversidade, o que cada um vai dizendo, mas é o Espírito que cria a harmonia.”

O segundo passo é o da harmonia que só se atinge quando nos desapegamos do que pensamos e abrimos o coração à escuta da Voz do Espírito Santo. Algo que apenas se consegue na oração e numa profunda união com Deus que, na carne e concreto da vida, se faz amando o outro cuja pessoa é Jesus para mim.

Francisco diz ainda que “Se o Espírito Santo não está presente é um parlamento”. E isso é, por exemplo, aquilo que me parece estar a acontecer com as notícias que nos chegam do caminho sinodal na Alemanha.

Este caminho sinodal é essencial para a vida da Igreja porque o seu protagonista é o Espírito Santo. Mas não podemos esquecer do segundo passo. E se o relatório reconhece que as falhas ocorridas levaram a um primeiro passo um pouco atabalhoado, espero que tenhamos aprendido a lição para darmos melhor o segundo passo.

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://tinyletter.com/miguelopanao. Contacto: miguel@miguelpanao.com

 

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