O segundo presidente católico dos EUA quer “curar feridas” de um país e de uma Igreja profundamente divididos

| 9 Nov 20

Joe Biden, católico, e Kamala Harris, filha de um jamaicano e de uma indiana, casada com um judeu. “É tempo de sarar feridas”, propõe Biden, citando a Bíblia. Foto: Direitos reservados.

 

Citando o livro bíblico do Eclesiastes, o Presidente eleito dos Estados Unidos, Joseph R. Biden Jr., diz que agora é tempo de curar. Numa mensagem entretanto divulgada na página oficial da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA (USCCB, a sigla em inglês), o seu presidente e arcebispo de Los Angeles, José H. Gomez, lembra que o episcopado reconhece que Biden “se junta ao falecido Presidente John F. Kennedy como o segundo Presidente dos Estados Unidos a professar a fé católica”.

No seu discurso de vitória, na noite de sábado, 7 de Novembro (cerca da 1h30 da manhã de domingo, em Lisboa), Joe Biden afirmou, a dado passo do seu discurso: “A Bíblia diz-nos que para tudo há um tempo: um tempo para construir, um tempo para semear e um tempo para curar. Este é o tempo para curar a América.” Segundos antes, em outra declaração de implícitas referências evangélicas, acrescentara: “Vamos dar-nos uns aos outros uma oportunidade: vermo-nos uns aos outros de novo, escutarmo-nos de novo uns aos outros, deixar de nos tratarmos como inimigos.”

(o vídeo a seguir apresenta o discurso na íntegra, legendado em português do Brasil)

 

Na mensagem da USCCB, o arcebispo Gomez escreve ainda que, neste momento da história do país, “os católicos têm um dever especial de ser construtores de paz, de promover a fraternidade e a confiança mútua, e de rezar por um espírito renovado de verdadeiro patriotismo”.

Começando por agradecer “a Deus pela bênção da liberdade”, o arcebispo afirma que “agora é o momento” de os líderes do país “se unirem num espírito de unidade nacional e se prepararem para o diálogo e compromisso com o bem comum”. E acrescenta: “Como católicos e americanos, as nossas prioridades e missão são claras. Estamos aqui para seguir Jesus Cristo, para testemunhar o seu amor nas nossas vidas, e para construir o seu reino na terra.”

O presidente da USCCB acrescenta: “A democracia exige que todos nós nos comportemos como pessoas virtuosas e autodisciplinadas. Isso exige que respeitemos a livre expressão de opinião e que nos tratemos uns aos outros com caridade e civismo, embora possamos discordar profundamente nos nossos debates sobre questões de direito e de política pública.”

Saudando igualmente a senadora Kamala D. Harris, da Califórnia, “que se torna a primeira mulher na história a ser eleita vice-Presidente”, a mensagem do presidente do episcopado termina desejando que os católicos ajudem a “cumprir a bela visão dos missionários e fundadores dos Estados Unidos: uma nação sob Deus, onde a santidade de toda a vida humana é defendida e a liberdade de consciência e de religião é garantida”.

Kamala, aliás, tem uma alcunha judaica: os enteados do marido, Douglas Emhoff, que é judeu, tratam-na por “momala” – a decomposição de “mo”, para mãe, e “mala” de Kamala. Em ídiche, o nome ganha o som “mamele” que significa literalmente “pequena mamã” e é um termo de carinho para as mães, relata o The Jewish Times.

No seu primeiro discurso depois de aceitar a nomeação democrata para a candidatura, a 13 de Agosto, precisamnete no mesmo local em que agora celebrou a vitória eleitoral, a senadora Harris afirmara: “A minha família significa tudo para mim. E tive muitos títulos ao longo da minha carreira, e certamente, vice-presidente será óptimo, mas ‘momala’ será sempre o que mais significa.” Com a vitória, Emhoff será também o primeiro judeu na vice-presidência dos EUA.

 

Fé em Deus, na ressurreição e na redenção

No National Catholic Reporter (NCR), recorda-se uma afirmação de Joe Biden na sua última semana de campanha: “O Papa Francisco fez perguntas que qualquer pessoa que procure liderar esta grande nação deve responder.” Essa foi uma das muitas alusões ao catolicismo que o Presidente eleito professa e que tem sido referido publica e frequentemente, não só pelo próprio como por muitos meios de comunicação, quer durante a longa campanha eleitoral quer na sequência da sua vitória eleitoral.

A sua fé “em Deus – na ressurreição e redenção – é o fundamento espiritual que acompanhou Biden, na trágica perda da sua esposa e filha de um ano num acidente de carro, e a subsequente morte do seu filho Beau, de cancro no cérebro, aos 46 anos de idade”, em 2015, escrevia há tempos o NCR, agora citado pelo Religión Digital.

“Biden vê realmente a sua fé católica como uma chave para voltar a unir o país e ultrapassar o que nos divide”, dizia, citado pela mesma fonte, Stephen Schneck, director da Franciscan Action Network (Rede de Acção Franciscana). Porque Biden se preocupa com o bem comum, a dignidade da pessoa humana, o cuidado com a criação e uma opção preferencial para os pobres e vulneráveis, acrescentava.

Neste âmbito, aliás, Joe Biden tem um modo de ver as consequências políticas da sua fé cristã muito próximo do de Barack Obama, de quem foi vice-presidente, entre 2008 e 2016. No livro Audácia da Esperança (ed. port. Casa das Letras), que se propõe ser “um apelo a uma nova forma diferente de fazer política”, Obama propõe a missão de fazer pontes, criar mecanismos de diálogo e participação para resolver problemas e a resolução das injustiças sociais graves como caminhos de missão para um político, sempre reivindicando também a sua tradição cristã.

 

O valor “impressionante” do pensamento social católico

Francisco com o então vice-presidente, na altura da visita papal aos EUA, há cinco anos: “O Papa Francisco fez perguntas que qualquer pessoa que procure liderar esta grande nação deve responder”, dizia Biden na última semana de campanha. Foto: Direitos reservados.

 

Joe Biden, o 46º Presidente dos EUA, segundo católico no cargo em 244 anos de história, é oriundo de uma família católica e frequenta a paróquia de São José no Brandywine, em Greenville, estado de Delaware, onde venceu (quando falta contar 1% dos votos) com 58,8%.

No NCR, referiam-se ainda aspectos da sua fé católica, que alia expressões tradicionais a convicções profundas em matéria social: as contas do rosário que ele gosta de agarrar durante momentos de tensão, o boletim da paróquia enrolado na sua mão ao sair da missa no dia das eleições, a citação de várias encíclicas papais durante a campanha eleitoral.

O “impressionante” valor que Biden atribui ao pensamento social católico tem sido interiorizado na sua prática de fé e fundado no luto e na perda, escrevia ainda o NCR, no texto citado. E o agora Presidente eleito, que tomará posse a 20 de Janeiro de 2021, “também demonstrou a capacidade de superar a amargura, trabalhar com o outro lado e concentrar-se na cura de que a nação tão desesperadamente necessita”.

Biden tem, no entanto, contra ele, não só a quase metade dos eleitores que votaram no adversário, como também metade dos católicos que, de acordo com estudos já divulgados, terão votado também no Presidente cessante.

“A Igreja Católica nos Estados Unidos está tão dividida como a política do país, e muitas vezes por causa da política”, afirma David Gibson, director do Centro de Religião e Cultura da Universidade de Fordham, citado no NCR.

De acordo com uma sondagem do VoteCast, referida pelo Religión Digital, 50% dos católicos brancos apoiaram Biden e 49% votaram Trump (em 2016, 64% escolheram Trump e 31% Hillary Clinton, de acordo com uma análise do Pew Research Center). Na eleição da semana que findou, os eleitores católicos representavam 22% do eleitorado, mas estavam fortemente divididos, também consoante as etnias: entre os hispânicos, por exemplo, 67% apoiaram Biden e 32% deram o voto a Trump, de acordo com a mesma sondagem do VoteCast, realizada para vários meios de comunicação, entre os quais a Fox News, PBS, USA Today Network, The Wall Street Journal e The Associated Press.

O mesmo estudo revela ainda que, entre os evangélicos, cerca de oito em cada 10 cristãos evangélicos brancos votaram em Trump, confirmando aquela que tem sido uma base do eleitorado conservador religioso do Partido Republicano. Entre os eleitores sem filiação religiosa, Biden obteve 72% dos votos e Trump 26%. Os judeus representavam 3% do eleitorado e votaram esmagadoramente em Biden, com 68% contra 31%. Entre os muçulmanos, 64% dos votos foram para Biden, 35% para Trump. Finalmente, Trump teve um grande resultado na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os Mórmons: 71% escolheram-no a ele, contra 24% que preferiram Biden.

Evangélicos no Michigan: as igrejas estão divididas ao meio entre republicanos e democratas. Foto: Direitos reservados.

 

O racismo sistémico também no interior das igrejas

Na campanha de Biden em direcção à Presidência, a questão do racismo sistémico e da justiça racial acabaria por ser definidora e esteve presente, de novo, no discurso de vitória de Joe Biden, que clamou que é preciso acabar com esse fenómeno.

Tia Noelle Pratt, socióloga especializada em racismo sistémico na Igreja Católica e no seu impacto na identidade católica afro-americana, é muito crítica do (pouco) que se tem feito até agora: com demasiada frequência, diz, a frase “curar uma igreja e uma nação divididas” é “uma linguagem codificada para dizer que precisamos de fazer sentir melhor aqueles que permitem e perpetuam a supremacia branca, uma vez que a última coisa que o resto de nós é suposto fazer é fazê-los sentir-se desconfortáveis”.

“Essa mentalidade faz parte do que nos levou, como sociedade e igreja, ao lugar onde estamos”, diz Pratt ao NCR. Aliás, como o 7MARGENS referiu há dias, um livro recente de Robert P. Jones investiga como a supremacia branca continua a ser uma ideologia (demasiado) presente nas igrejas dos EUA, seja no catolicismo, seja entre as comunidades evangélicas.

“As igrejas cristãs brancas não foram apenas complacentes e não foram apenas cúmplices; em vez disso, como poder dominante na América, têm sido responsáveis pela construção e manutenção de um projecto de proteger a supremacia branca e resistir à igualdade dos negros. Este projecto enforma toda a história da América”, escreve o autor.

“O que é necessário agora é continuar a avançar no esmagamento do racismo sistémico e da supremacia branca a fim de construir um mundo, uma sociedade e uma Igreja justa e equitativa”, acrescenta Tia Noelle no NCR.

Imperatori-Lee, cubano-americana, afirma que também os hispânicos e latinos são vítimas e actores do mesmo preconceito: “A cultura dominante nos EUA vê os latinos como objectos de racismo”, mas isso não significa que também as comunidades latinas “não participem, historicamente e no presente, no racismo anti-negro e anti-indígena”.

 

“Um parceiro fiável” dos bispos

Biden não alimentará divisões entre os bispos, como fez Trump, diz Stephen Schneck. (Na foto, José H. Gomez, arcebispo de Los Angeles e presidente do episcopado católico dos EUA). Direitos reservados.

 

Um dos temas em que Biden é alvo de crítica, da parte de alguns sectores católicos, é o seu apoio ao aborto legal. “Muitos partidários da direita continuarão a tentar usar a fé de Biden como um cassetete para o espancar em todas as oportunidades”, afirma Gibson, citado pelo NCR. “Mas Joe Biden é realmente ‘Joe Catholic'”, acrescenta. “Ele parece e age e fala como a grande maioria dos católicos praticantes neste país. Tentar usar o seu catolicismo contra ele para fins partidários pode ser um tiro pela culatra”, agora que ele é Presidente.

No próximo futuro, Stephen Schneck antecipa: “Uma administração Biden, apesar das importantes diferenças que terá com a conferência [dos bispos] sobre o aborto, será um parceiro fiável sobre uma série de questões de justiça social, cuidado com a criação e paz, que têm sido destacadas pelo Papa Francisco”.

Schneck, que considera Biden “um democrata centrista” e “um católico que ama a sua Igreja”, acrescenta: “Podemos esperar que a administração Biden não alimente as divisões entre os bispos da América como vimos com Trump”. E diz: “Não espero uma era de bons sentimentos, mas a restauração da normalidade entre a presidência e os bispos, marcada pelo profissionalismo, respeito e abertura à cooperação prática de ambos os lados.”

Steven Millies, director do Centro Bernardin da União Teológica Católica, pensa que a Igreja perdeu a confiança junto de muitos sectores da sociedade e precisa de uma abordagem diferente: “Os jovens mostraram-nos que querem algo melhor, uma visão surpreendentemente próxima do Papa Francisco e do pensamento social católico.”

 

O Presidente Biden a fazer o que os bispos não fazem?

Um encontro inter-religioso nos EUA: “Biden vai procurar construir pontes”, diz John Gehring. Foto: Direitos reservados.

 

“Esta é uma oportunidade sem precedentes para um segundo Presidente católico dos Estados Unidos atrair esses sectores à conversa, para que a sua própria fé pública na Igreja e na nossa república livre seja a lente que foca uma melhor imagem do nosso melhor ‘eu’”, acrescente Millies. “Não será fácil e não acontecerá automaticamente. Sabemos que há uma grande oposição. Mas há razões para ter esperança, e todos nós precisamos de esperança e ajuda para que isso aconteça.”

Uma oposição assim chega ao campo político, como dá conta o mesmo trabalho do NCR: nos últimos dias, vários líderes católicos repetiram as falsas alegações de Trump, de que a vitória de Biden se devia a fraude. Raymond Arroyo, da rede católica de media EWTN, amigo de Trump e um dos opositores do Papa, afirmou: “Podemos nunca saber a extensão da fraude eleitoral nesta eleição ou se ela alterou o resultado final.” Na página no Twitter do Catholic Vote, grupo de extrema-direita, também se lia: “A nuvem de ilegitimidade sobre Joe Biden será muito maior do que qualquer alegada interferência russa.”

“Biden liderará numa altura em que os católicos na nossa Igreja e na política estão profundamente divididos”, diz, entretanto, John Gehring, director de programas católicos da Faith in Public Life Action (Acção de Fé na Vida Pública): “Não há nenhuma encíclica ou ordem executiva que possa mudar essa realidade. Mas espero que ele tire o rufia do púlpito e que fale com humildade e graça. Ele vai procurar construir pontes.”

David Gibson acrescenta que a distância entre o voto católico branco e o voto latino em Biden é um desafio para os líderes católicos, especialmente se o Partido Republicano continuar a seduzir os eleitores brancos com o seu discurso anti-imigrantes, acrescenta o mesmo investigador. E conclui: “Joe Biden tem uma oportunidade de mostrar o tipo de liderança católica que os líderes ordenados da Igreja demasiadas vezes não têm sido capazes de proporcionar.

 

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