O segundo presidente católico na história dos EUA (pré-publicação exclusiva de novo livro de Massimo Faggioli)

| 16 Jan 21

Massimo Faggioli, Joe Biden e il cattolicesimo negli Stati Uniti (“Joe Biden e o catolicismo nos Estados Unidos”); Editrice Morcelliana, 2021, 202 pág.

Segundo Presidente católico nos 230 anos de história dos Estados Unidos, Biden é o primeiro no cargo “a exprimir publicamente a sua alma religiosa, não vagamente religiosa mas cristã; ecuménica, mas católica; duma forma militante mas não belicosa, testemunhal”.

A ideia é de Massimo Faggioli, historiador do catolicismo e professor de Teologia e Estudos Religiosos na Universidade Villanova (Filadélfia), além de colaborador de várias publicações de prestígio, entre as quais o La Croix International, a UCANews e a revista Commonweal. Faggioli desenvolve-a no livro Joe Biden e il cattolicesimo negli Stati Uniti, que será posto à venda na próxima quarta-feira, dia 20, em simultâneo nos Estados Unidos e em Itália, coincidindo com a tomada de posse do novo Presidente, Joe Biden. O 7MARGENS antecipa a seguir um excerto, em pré-publicação, cedido pelo autor.

Faggioli, que já recebeu vários prémios nas áreas de Teologia, investigação e comunicação, tem estudado sobretudo a história do Concílio Vaticano II, a relação entre catolicismo e cidadania e o pontificado de Francisco, do qual é um dos analistas mais reconhecidos.

Neste seu novo livro, o autor analisa a presença do catolicismo na esfera pública dos EUA, faz a história dos quatro candidatos católicos que concorreram a eleições – Al Smith (1928), John Kennedy (1960), John Kerry (2004) e Joe Biden (2020) – e estuda as relações entre a Presidência americana, os católicos dos EUA e o Vaticano, bem como da Igreja americana diante da globalização. No último capítulo, Faggioli analisa mais em pormenor o papel de Biden entre o passado e o futuro do catolicismo nos Estados Unidos.

Como católico na vida pública, Biden reflecte a convicção de que a política é uma profissão profundamente nobre, uma forma de magistério, uma vocação laical”, escreve, precisamente nesse último capítulo. “Biden é um desses crentes para os quais a vida pública não é teatro, a religião não é um conjunto de regras e que os aspectos paradoxais do catolicismo não podem ser resolvidos matematicamente com os aut aut (ou ou) dos cultural warriors. Biden transcende tudo isto. Esta nova síntese é uma oportunidade para o país e para a Igreja, quando se inicia uma nova era na vida política e eclesiástica dos Estados Unidos.”

 

O segundo presidente católico na história dos EUA 

Joe Biden com a vice-Presidente, Kamala Harris, na noite em que foram declarados vencedores das eleições: “Durante toda a campanha, Biden apoiou-se sempre na centralidade da sua fé.” Foto: Direitos reservados.

 

Ao longo dos duzentos e trinta anos da sua história, a grande maioria dos presidentes dos Estados Unidos foram membros de igrejas cristãs não católicas, ou seja, Episcopaliana, Presbiteriana, Metodista e Baptista. Para a América, a pessoa de Biden traz consigo todo o historial de um particular grupo religioso, precisamente aquele considerado por muitos americanos e por longo tempo como estranho e hostil ao projecto americano. Biden é não apenas o segundo católico a ser eleito depois de Kennedy (1961-1963) mas também o quarto a candidatar-se (depois de Al Smith em 1928 e John Kerry em 2004) para ocupar o cargo político, mas igualmente moral e religioso, inerentes à Presidência americana, sobretudo num momento de transição delicado quer para a nação quer para a Igreja.

Joe Biden é o segundo presidente católico, o que por si só seria já mais do que suficiente para concentrar as atenções nas eleições americanas de 2020 dada a sua relevância histórica quer na vertente política quer religiosa. Mas a este facto histórico somam-se uma série de outras circunstâncias que a tornaram numa eleição deveras extraordinária. Durante toda a campanha eleitoral Biden apoiou-se sempre na centralidade da sua fé sem deixar a mínima dúvida de onde proveem as suas raízes e tudo aquilo que o sustenta.

Quando define as eleições como “uma batalha pela alma da América” a retórica eleitoral que usa não deixa lugar a quaisquer dúvidas. No seu discurso de aceitação a 7 de Novembro, Biden citou quer a Bíblia quer o hino litúrgico On eagle’s wings (“Nas asas da águia”) um hino típico do estilo litúrgico da Igreja pós-Concílio Vaticano II, explicando que “representa a fé que me sustém e que eu creio que sustenha a América. E eu espero, espero poder trazer conforto e alívio “. E conclui o discurso envolvendo Deus na história afirmando “e agora, juntos, sobre as asas da águia, preparemo-nos para nos lançarmos na obra para a qual Deus e a história nos chamaram”.

Em Junho, Biden foi convidado para falar no funeral de George Floyd, morto pela polícia de Minneapolis durante uma manifestação. Nesse momento de grandes desordens no país tinha afirmado: “Cresci com a doutrina social da Igreja, que me ensinou que uma fé sem obras é uma fé morta e que seremos reconhecidos por aquilo que tivermos feito.” E no seu discurso de 26 de Novembro de 2020, o dia de Acção de Graças (Thanksgiving Day), falou como consolador da América em luta com a pandemia, evocando os momentos de luto por si vividos dizendo: “Cortam-te a respiração. É muito difícil participar na festa, é muito difícil dar graças. É igualmente difícil pensar no futuro, é difícil esperar. Percebo bem tudo isto.”

Biden é o primeiro Presidente católico na história americana que exprime publicamente a sua alma religiosa, não vagamente religiosa mas cristã; ecuménica, mas católica; duma forma militante mas não belicosa, testemunhal. Esta sua posição, refractária ao uso do catolicismo como arma de arremesso numa “guerra de culturas”, impediu o Presidente eleito de beneficiar dum efeito “lua de mel” com a Igreja institucional após a eleição de 3 de Novembro.

Com efeito, a eleição para a Casa Branca não aliviou as tensões entre Biden e os bispos nem tampouco as tensões no seio do episcopado. Quer o Papa quer os órgãos oficiais do Vaticano aceitaram o resultado das eleições como um dado de facto enquanto que, nos Estados Unidos, a Conferência Episcopal lançou sinais de hostilidade ao decidir criar uma comissão ad hoc para acompanhar a Presidência de um católico cujas posições políticas se diferenciam daquelas expressas pelo magistério tanto no que se refere às questões típicas da geração de Biden, tal como o aborto, mas também sobre as questões características do século XXI como o casamento entre homossexuais, os direitos LGBT e a liberdade religiosa.

 

Uma liderança laical

Joe Biden com o Papa Francisco no Vaticano: ao contrário do bispo de Roma, Biden representa o velho catolicismo americano, de sólida formação e moldado pelas escolas. Imagem da capa do livro.

 

Sob muitos pontos de vista, Joe Biden não encarna nem a América nem a Igreja Católica do século XXI. Apesar de pertencerem à mesma geração, o segundo Presidente católico dos Estados Unidos, ao contrário do bispo de Roma, representa o velho catolicismo: a era da Igreja Católica americana, moldada pelas escolas, as ordens religiosas que dirigiam essas escolas com pessoal (homens mas especialmente mulheres) de sólida formação e a custo quase zero; e a história da imigração católica europeia que se concentrou em algumas zonas do país (a Costa Leste, Grandes Lagos, o Alto Midwest, com os latinos concentrados apenas em certas áreas do país).

O desafio que Biden tem pela frente não é totalmente diferente dos desafios que enfrentam os bispos e os líderes da Igreja, ou seja, como dar voz a uma Igreja que, albergando múltiplas componentes sociais e étnicas, se deparam com grandes dificuldades para se fazerem representar junto das instâncias políticas e culturais. Dentro de pouco tempo, a Igreja Católica americana passará a ser constituída por uma maioria latino-americana e, portanto, já não europeia. E, no entanto, esta nova realidade parece em nada afectar a política das hierarquias da Igreja dos Estados Unidos.

Para se poder entender o estado da Igreja convém ter em conta aqueles/as católicos/as que ocupam posições de relevo quer seja de poder político, quer seja de magistério civil e não apenas os bispos e o clero. Numa Igreja identificada com os abusos sexuais, a eleição do católico Biden para a Presidência dos Estados Unidos assume, por assim dizer, o significado de uma liderança laical substituta. Numa Igreja com um ainda tão elevado controlo clerical como a Igreja Católica nos Estados Unidos, o escândalo manchou de modo duradouro as percepções, a um nível profundo, não só do sacerdócio, mas da Igreja como um todo. Minou, sobretudo, a credibilidade no terreno que se tinha proposto, ou seja, de ser “especialista em humanidade”, conforme a declaração feita por Paulo VI na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, no dia 4 de Outubro de 1965.

A propósito de humanidade: os católicos que, durante os últimos dias da Administração Trump ajudaram a bater o recorde de execuções representam um catolicismo contra-revolucionário numa guerra de fricção quer contra a modernidade iluminística, quer quanto ao Magistério da Igreja que não se circunscreve apenas à questão da pena de morte. Porém, no quadro de uma nova consciência dos desvios dos sistemas de justiça e de justiça penal no contexto do racismo sistémico, a cooperação formal e material dos católicos em permitir que os Estados Unidos sejam a única democracia constitucional ocidental que ainda procede a execuções capitais, tornou-se numa matéria de escândalo tanto para os católicos americanos como para o catolicismo global.

 

Ser Presidente de todos os católicos é a tarefa mais árdua

Assalto ao Capitólio 6 Janeiro 2021, EUA

Assalto ao Capitólio a 6 de Janeiro, com uma faixa usada pelos manifestantes a dizer “Jesus 2020”: “Biden será chamado a ser o Presidente de todos os católicos, uma empresa bem mais árdua do que ser Presidente de todos os americanos.” Foto © Hamil Harris/Religion Unplugged, cedida pelo editor

 

A eleição de 2020 desmentiu as previsões apocalípticas de uma exclusão dos católicos da vida pública. Dado que o Presidente é chamado a ser o Presidente de todos os americanos, Biden será chamado a ser o Presidente de todos os católicos, uma empresa bem mais árdua. Joe Biden encarna um catolicismo imbuído de humanidade, alimentado por valores de solidariedade, compaixão e dignidade humanas. Simbolicamente oferece aos católicos e à América uma nova forma de estar como alternativa à presença reaccionária e neo-integralista mas também, como leigo que é, da presença clerical, para assim operar nesse particularíssimo ministério ao mesmo tempo leigo e religioso que é a presidência dos Estados Unidos. Durante a presidência de Biden, a Igreja Católica americana poderá re-emergir da laicidade e renovar o significado simbólico e público do que é ser católico no actual mundo globalizado, entre a vaga funda da secularização do século XX e o actual regresso a fortes identidades religiosas.

Como católico, Joe Biden terá de enfrentar ventos contrários mais fortes do que os seus predecessores. O carácter problemático e desolador da cultura do consumismo tardo-capitalista tornou uma posição antagonista cujo slogan é “Cristo contra a cultura” extremamente atraente para muitos. Para muitos, mas não para Joe Biden. Além de outras tantas convergências políticas possíveis entre o Papa Francisco e Joe Biden, encontramos aqui uma convergência ainda mais profunda; ou seja, a recusa de renunciar a uma teologia fundada sobre uma avaliação optimista da Criação, quer dizer, uma posição que enfatiza a encarnação e a sacramentalidade. A história é locus pela graça e a graça manifesta- se na luta.

Massimo Faggioli, autor do livro. Foto: Direitos reservados.

Como católico na vida pública, Biden reflecte a convicção de que a política é uma profissão profundamente nobre, uma forma de magistério, uma vocação laical. Biden é um desses crentes para os quais a vida pública não é teatro, a religião não é um conjunto de regras e que os aspectos paradoxais do catolicismo não podem ser resolvidos matematicamente com os aut aut [ou ou] dos cultural warriors. Biden transcende tudo isto. Esta nova síntese é uma oportunidade para o país e para a Igreja, quando se inicia uma nova era na vida política e eclesiástica dos Estados Unidos.

 

Tradução: Carmo Sennfelt
Edição e subtítulos: 7MARGENS

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