Corredores vazios, janelas partidas, cadeiras apodrecidas, cadáveres de pombos que ali fizeram ninho: a lente do fotógrafo e artista plástico Miguel Cardoso captou o que resta do antigo Seminário de Leiria e essas imagens, agora expostas na Igreja de São Pedro, em pleno centro histórico da cidade, lançam a quem as vê uma pergunta: “que futuro para este edifício?”. É verdadeiramente “O clamor da ruína”, título da exposição com entrada gratuita que foi inaugurada no último fim de semana e ficará patente até 30 de novembro. Entretanto, espera-se que esse grito seja ouvido… e respondido.
Organizada pelo Museu da Imagem em Movimento do Município de Leiria e o Departamento do Património Cultural da Diocese de Leiria-Fátima, esta mostra é um dos primeiros frutos do seu Laboratório sobre Arte Religiosa e nasce concretamente de uma residência artística de Miguel Cardoso no antigo seminário, que decorreu durante o passado mês de maio
“Entre corredores vazios, quartos despojados e vestígios de um tempo suspenso, fui registando em imagem aquilo que o olhar não vê de imediato: a persistência do sagrado, mesmo na ausência. O que encontrei foi um espaço carregado de memória, de silêncio e de beleza inesperada; um lugar que, apesar do abandono, ainda pulsa com uma certa espiritualidade. Essa presença invisível foi o que me interessou fotografar”, explica Miguel Cardoso ao 7MARGENS. “Mais do que documentar o edifício, procurei criar uma espécie de ensaio visual acerca da ideia de sacralidade sobre o que resta, sobre o que persiste, sobre o que se transforma”, acrescenta.

A nova exposição de Miguel Cardoso quer retratar “a persistência do sagrado, mesmo na ausência”. Foto: Direitos reservados
Também por isso, o fotógrafo reutilizou as velhas cadeiras do seminário para servirem de suporte a alguns dos registos que fez. “Mais do que simples mobiliário, evocam o gesto de estar, de se sentar, de parar, de olhar com tempo. São testemunhas silenciosas de um espaço onde se aprendia a escutar, a refletir e a permanecer”, justifica.
Quanto às fotografias, na sua maioria impressas em grande escala sobre tecidos suspensos, “evocam as colchas que se colocam nas janelas durante as procissões, um gesto profundamente enraizado na tradição católica que sempre me tocou: o de abrir a casa ao divino, de embelezar a passagem, de fazer parte. Esses tecidos flutuantes não são apenas suportes para a imagem, são janelas imaginárias para dentro do edifício e, espero, para dentro de cada um de nós”, assinala o artista plástico.
Uma exposição que é um manifesto e uma oportunidade

“Será possível encontrar lugar para um renovado olhar sobre a arte sacra de Leiria?”, questiona o curador desta exposição, Marco Daniel Duarte. Foto: Direitos reservados
Construído no século XVII por ordem do bispo Pedro Vieira da Silva, no contexto da Reforma Tridentina, o antigo Seminário de Leiria foi mais recentemente a casa do Distrito de Recrutamento e Mobilização Militar (DRM), e representa muito mais do que um simples edifício abandonado, referiu por seu lado Marco Daniel Duarte, curador da exposição, durante a inauguração da mesma. “Se considerarmos Leiria como uma grande sala – um espaço comum, uma polis em que todos queremos viver –, há nela um elefante. Esse elefante é um edifício em ruína, do qual os leirienses guardam memórias”, mas que na prática se encontra ao abandono e esquecido, lamentou.
Também José Ornelas, bispo da diocese de Leiria-Fátima, foi claro ao classificar o estado do antigo seminário como “uma ferida aberta no meio da cidade”, e como “um desafio” que exige uma resposta da comunidade. Resposta essa que pode não ser a mais óbvia, dado que na sua perspetiva o edifício “não está limitado a ser novamente apenas um local de eventos religiosos” mas “está aberto à interpretação e à partilha de tudo o que diz respeito à condição humana”.
Igualmente presente na inauguração da mostra, Gonçalo Lopes, Presidente da Câmara Municipal de Leiria, abordou directamente a questão da propriedade do edifício, que pertence atualmente ao Ministério da Defesa. “Esta discussão é importante não só entre nós, que estamos de acordo, mas também para que chegue a quem tem poder de decisão e influência”, afirmou, defendendo que “se o património é da Igreja, então que regresse à Igreja” e que o futuro do espaço “passa não apenas pela recuperação arquitetónica, mas também pela criação de um pólo de atracção turística que complemente a oferta de Fátima, aproveitando o potencial da região”.
Mas “será possível refazer o diálogo entre o edifício e a cidade? Será possível curar aquela ferida na malha urbana de Leiria? Será possível encontrar lugar para um renovado olhar sobre a arte sacra de Leiria? Pode o clamor da ruína trazer nova luz a uma das mais importantes casas da intelectualidade leiriense? Que futuro para o antigo edifício do Seminário de Leiria?”. As perguntas são de Marco Daniel Duarte e são também da própria exposição “O clamor da ruína”, que se apresenta assim como um manifesto e como uma oportunidade. Como concluiu Miguel Cardoso, que ela “possa ser o início de uma história maior, que ainda está por escrever”.
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