AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

“O Casarão”, de Filipe Araújo

O seminário onde se pode viajar. E respirar.

| 22/11/2021

Imagem do filme de Filipe Araújo, O Casarão, sobre o seminário dominicano de Aldeia Nova (Ourém). Foto © Direitos Reservados

 

Parece um túmulo grande, ouve-se. A câmara aproxima-se, lê-se a placa com o nome da localidade – Aldeia Nova –, um drone mostra a vista aérea, meia dúzia de casas, depois um corredor longo, sapatos antigos abandonados e sujos, uma imagem de Jesus…

A aproximação é lenta e misteriosa, como lenta e misteriosa foi a aproximação do realizador, Filipe Araújo, a um lugar que, descobrira ele, falava afinal, também, da presença do pai. É como que desenterrar um passado – um tesouro? – que não se conhece senão por fragmentos: diários, cartas, memórias esparsas, detalhes…

 

Imagem do filme de Filipe Araújo, O Casarão, sobre o seminário dominicano de Aldeia Nova (Ourém). Foto © Direitos Reservados

 

Com tudo isso se irá fazendo, ao longo dos 72 minutos do documentário, essa aproximação espacial à história de um seminário – o da Aldeia Nova, concelho de Ourém – da Ordem Dominicana. Oásis de liberdade no tempo da ditadura. Onde se falava de autores proibidos no resto do país, onde chegavam publicações heterodoxas, onde se respirava o debate de ideias, onde se falava até – pasme-se ou não? – de sexualidade – tema, aliás, que provocará uma pequena nota de humor através das imagens.

Um paradoxo em plena ditadura, nota o realizador, Filipe Araújo, que permite que “num lugar carregado de isolamento [aconteça] a ‘descoberta da liberdade’ por parte de um grupo de pré-adolescentes a preparar-se para algo que nunca chegaria a ser”.

 

Imagem do filme de Filipe Araújo, O Casarão, sobre o seminário dominicano de Aldeia Nova (Ourém). Foto © Direitos Reservados

 

O realizador aproximou-se da história – e da casa – há meia dúzia de anos. Antes, em 2008, morrera-lhe o pai, o investigador universitário Horácio Araújo – que, entre outros trabalhos, também fez uma descoberta: a do manuscrito de Asia Extrema, do jesuíta António de Gouveia, crónica de missão na China, que cruza literatura espiritual e literatura de viagens e integra os relatos das viagens dos também jesuítas Bento de Góis em busca do Preste João, e António de Almeida, o primeiro jesuíta português a entrar na China, companheiro de Matteo Ricci.

No filme, o olhar aproximativo faz-se também de forma temporal. Um vaivém entre presente e passado. O pai buscava por acaso inspiração para um tema de tese quando tropeçou no manuscrito de António de Gouveia. O filho fazia pesquisa para completar o inventário bibliográfico do pai quando deu com um blogue de antigos colegas e seminaristas. Cartas, diários, memórias, fotos…

 

Imagem do filme de Filipe Araújo, O Casarão, sobre o seminário dominicano de Aldeia Nova (Ourém). Foto © Direitos Reservados

 

Tudo isso convocou de novo a infância que ficara arrumada algures: “Todas as noites, para me adormecer, o meu pai tinha por hábito ler-me ou contar-me uma história. Com o correr dos anos, das ficções improvisadas foi passando às narrativas alheias, ainda que, não raras vezes, quando o cansaço acusava, preferisse fechar a luz e puxar antes pelas suas memórias, que, dependendo das minhas reações e do nosso grau de sonolência, aproveitava ou não para efabular, misturando realidade com ficção.”

Assim, a Aldeia Nova e o Casarão entravam pela porta da infância mas só se abririam já na idade adulta. Tal como outras referências: “Assim vi ser-me introduzida a obra de Sophia de Mello Breyner, me solidarizei com um eremita rodeado de animais falantes e aterrei nesse espaço intrigante de Aldeia Nova: à primeira vista, uma espécie de colégio interno controlado por homens de branco no isolamento de uma aldeia sem eletricidade nem água corrente.”

 

Imagem do filme de Filipe Araújo, O Casarão, sobre o seminário dominicano de Aldeia Nova (Ourém). Foto © Direitos Reservados

 

Memórias e aproximações, espaço e tempo conjugam-se nos textos que se decifram, nas fotografias que precisam de lupa, no fogo que arde e se vê, na tímida dança, no futebol jogado e depois transfigurado em formigueiro e, finalmente, em rasto de avião. Um percurso intimista, que começa com o jovem Horácio ido para o seminário com 10 anos, de uma aldeia do Minho (o único dos cinco irmãos a seguir estudos). Passará depois pela vida de um professor universitário, de personalidades reconhecidas como frei Bento Domingues – que também andou no Casarão e seguiu a vida de frade dominicano –, o escritor João de Melo (um excerto do seu Gente Feliz com Lágrimas integra o filme) ou outros homens, que hoje têm filhos como Filipe, ou netos, ou vidas que andaram em muitas andanças e se encontram anualmente e desse modo fecham um ciclo, quando o filme retrata um dos encontros anuais.

(A propósito do percurso intimista, é curiosa a coincidência que faz com que A Metamorfose dos Pássaros, de Catarina Vasconcelos, e agora O Casarão, coincidam em sala. Num país pouco habituado a ter documentários em salas de cinema, ainda por cima com a raiz comum da memória familiar, é um pormenor assinalável. Interessante ainda o facto de O Casarão ter sido o filme mais visto entre quinta-feira e domingo passado, no cinema onde esteve em exibição, e ter tido bons resultados também em Leiria.)

 

Imagem do filme de Filipe Araújo, O Casarão, sobre o seminário dominicano de Aldeia Nova (Ourém). Foto © Direitos Reservados

 

A aproximação faz-se, ainda, pela ligação à vida do que sobra da aldeia e de António, o caseiro, que vive junto do casarão e é guardador de memórias.  Dada altura, as tralhas que subsistem são colocadas numa carrinha, para esvaziar a casa, entretanto vendida. Símbolo da desertificação de uma aldeia e do espaço rural, nota o realizador, símbolo do espaço público que se esvaziou do religioso.

 

Imagem do filme de Filipe Araújo, O Casarão, sobre o seminário dominicano de Aldeia Nova (Ourém). Foto © Direitos Reservados

 

Chuva de Inverno no início, que se abre à Primavera e às cerejas (uma taça delas em cima da mesa do caseiro), trabalhos agrícolas no Verão, outonais folhas caídas uma última balada chuvosa. Queremos melhor do que esta simulação de um tempo que vai e não volta, mesmo quando rodam as estações?

No final, há uma carta de despedida de um dos jovens rapazes, as tralhas que se colocam na carrinha, a casa que se esvazia, as portas que se fecham sobre um tempo e sobre muitas vidas, o regresso a França de um emigrante que viera apenas de férias.

O Casarão permite viajar. E respirar.

 

 

O Casarão, de Filipe Araújo

Documentário. Dez. 2020, cor, 72′

Produção. Blablabla Media, RTP, Portugal

Com António Oliveira, Dinis Dias e Tonito Oliveira. A partir de textos dos ex-seminaristas Horácio Araújo, Mário Rocha Creoulo, Fernando Vaz, José Ribeiro, Eduardo Bento, Nelson Veiga e da obra literária de João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas.

Com o apoio do ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual, Ministério da Cultura e da Sociedade Portuguesa de Autores.

 

Cinema City Alvalade (Lisboa)

Segunda a sexta, 19h35; sábado e domingo, 13h30 e 19h35

(Telefone: 218413040)

 

Cinema City Leiria

Segunda a sexta, 19h45; sábado e domingo, 13h45 e 19h45

(Telefone: 244845071)

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This