O Senhor a receber das mãos do servo

| 19 Jan 2022

Teofania

Ícone da Teofania de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo (Baptismo do Senhor)

 

Sendo hoje 6 de Janeiro (19 de Janeiro no calendário gregoriano), no calendário juliano (seguido por grande parte dos cristãos ortodoxos em todo o mundo), celebramos a Festa da Teofania de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo, isto é, a festa da manifestação ou revelação ao mundo da Sua divindade, no mistério do Seu Baptismo no rio Jordão, das mãos de São João Baptista. O Baptista do Senhor é também chamado o Seu Precursor, porque abriu ou preparou os caminhos do Senhor, não só no Seu ministério e pregação terrena, mas antecedendo-O até na pregação aos espíritos que jaziam no Hades ou mansão dos mortos.

Grande parte deste mistério ou paradoxo, que desperta imensa maravilha, é o Senhor da criação receber o baptismo das mãos do servo; é o maior submeter-Se ao menor; é o Criador que tudo circunscreve e tudo abraça ser imerso na criatura das águas; é a fonte de toda a santidade e pureza dignar-Se receber um ritual de purificação; é o Santo dos Santos, alheio a todo o pecado, praticar um rito de confissão e de arrependimento, dizendo: “Deixa por agora, pois assim nos convém cumprir toda a justiça.”

A hinografia ortodoxa debruça-se sobre este mistério e canta-o na linguagem poética da teologia ou na linguagem teológica da poesia – pois a teologia cumpre-se sobretudo ao dar voz à Revelação divina por meio da doxologia, da glorificação, do louvor, que nascem do maravilhamento. A ortodoxia é, portanto, não apenas a recta doutrina, mas o recto louvor.

Não nos assistindo maior inspiração para aprofundar este mistério sublime, mas desejando partilhar com os leitores algo de edificante a respeito desta Festa, lembrámo-nos de traduzir a seguinte meditação de São Teófano o Recluso, marcada por aquela profundidade, clareza de pensamento e concisão que assiste aos santos. Recorremos à versão francesa de Claude Lopez-Ginisty (disponível online) e consultámos o texto russo.

São Teófano

São Teófano o Recluso, bispo de Tambov (+1894)

 

“Todos os mistérios refulgem aqui”

 (Leituras da Divina Liturgia: Tito 2:11-14; 3:4-7; Mateus 3:13-17)

O Baptismo do Senhor é chamado Teofania [manifestação ou revelação divina][1] porque nele Se manifestou tão palpavelmente o verdadeiro Deus uno, adorado na Trindade: Deus o Pai, pela voz do céu; Deus o Filho Encarnado, pelo Baptismo; e Deus o Espírito Santo, pela Sua descida sobre Aquele [que era] baptizado.

Aqui, é também manifestado o mistério da relação entre as Pessoas da Santíssima Trindade. Deus o Espírito Santo procede do Pai e repousa no Filho, mas não procede d’Ele. Aqui se manifesta também isto, que a economia encarnada da salvação[2] é realizada por Deus o Filho Encarnado, coessencial[3] ao Espírito Santo e a Deus o Pai.

E é manifestado também isto, que a salvação de cada homem não pode ser realizada de qualquer outro modo senão no Senhor Jesus Cristo, pela graça do Espírito Santo, segundo o bom-prazer do Pai.[4]

Todos os mistérios cristãos[5] refulgem aqui com a sua luz divina e iluminam as inteligências e os corações daqueles que, com fé, celebram esta grande festa. Vinde, subamos sabiamente ao monte e mergulhemos na contemplação destes mistérios da nossa salvação, cantando: “Ó Senhor, no Teu Baptismo no Jordão, foi revelada a adoração da Trindade”,[6] salvação que nos edifica na Trindade e nos salva na Trindade.

[São Teófano o Recluso, Bispo de Tambov (+1894), Pensamentos para Cada Dia do Ano]

Bênção das Águas. Teofania

Bênção das Águas: o Celebrante abençoa o “resgatador”, que foi buscar a Cruz lançada às águas.

 

 

Bênção das águas “extramuros” – Festa da Teofania, 19 de janeiro de 2020, no Mosteiro do Nascimento da Mãe de Deus, em Vila Franca de Xira. Cerimónia
presidida pelo metropolita João I, Primaz da Igreja Católica Ortodoxa de Portugal.

 

Bênção das águas “extramuros” – Festa da Teofania, 19 de janeiro de 2019, no Mosteiro do Nascimento da Mãe de Deus, em Vila Franca de Xira. Cerimónia
presidida pelo bispo Damasceno Ribeiro, bispo de Coimbra e Aveiro da Igreja Ortodoxa de Portugal.

 

[1] São Teófano usa o termo russo Богоявле́ние (Bogoyavlénie), cujas raízes decalcam exactamente o mesmo sentido do grego θεοφάνεια (Theopháneia), donde temos o português Teofania.
[2] A economia ou dispensação divina, na linguagem dos Padres da Igreja (teólogos dos primeiros séculos do cristianismo), significa o plano divino para a Salvação dos homens, e refere sobretudo a obra da Encarnação do Verbo, com a Sua kenosis (auto-esvaziamento), paixão, morte e glorificação (Ressurreição e Ascensão). Donde a “a economia encarnada da salvação” significa a obra da Encarnação, realizada para a nossa Salvação.
[3] Coessencial, isto é, consubstancial, que partilha a mesma essência ou substância.
[4] São Teófano usa o russo благоволе́ние (blagovolénie), que é também decalcado do grego bíblico εὐδοκία (eudokía), significando a boa-vontade, benevolência ou bom-prazer divino, como em Lucas 2:14.
[5] Mistérios, na linguagem dos Padres Gregos (e também dos Padres Russos) significam também os Sacramentos da Igreja, que actualizam os mistérios de Cristo, ou o grande mistério da Salvação.
[6] Palavras iniciais do Tropário da Teofania, hino que sumariza o significado da Festa, no Rito Bizantino.

 

Damasceno Ribeiro é bispo de Coimbra e Aveiro, da Igreja Ortodoxa de Portugal

 

 

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