Testemunho

O sentido da Páscoa perante a fragilidade, segundo o cardeal Martini

| 9 Abr 2023

O Cardeal Carlo Maria Martini. Foto © Vatican Media

O Cardeal Carlo Maria Martini. Foto © Vatican Media

 

Num artigo publicado pelo jornal católico Avvenire, em 15 de abril de 2011, o cardeal Carlo Maria Martini meditava sobre o mistério da Páscoa, trazendo para o coração dessa meditação a existência humana que, “para além da retórica fácil, se joga sobretudo no terreno do obscuro e do difícil”.

Ele referia-se, por exemplo, aos doentes, pensando sobretudo “naqueles que sofrem sob o peso de diagnósticos pouco auspiciosos, naqueles que não sabem a quem comunicar a sua angústia, e também em todos aqueles para quem se aplica o antigo, icónico e quase intraduzível ditado senectus ipsa morbus, ‘a velhice é, pela sua própria natureza, uma doença’”.

Nos doentes, o cardeal via “o estigma da fraqueza e fragilidade humana”, já que “eles são provavelmente a maioria dos homens e mulheres deste mundo”.

Ao contrário do Natal, que que se liga ao nascimento da vida e a uma atmosfera de alegria, incluindo para não-cristãos e não-crentes, a Páscoa “permanece um mistério mais escondido e difícil”.

“É por isso – escrevia, então, o conhecido cardeal e arcebispo de Milão – que gostaria que a Páscoa fosse sentida sobretudo como um convite à esperança também para os que sofrem, para os idosos, para todos aqueles que estão dobrados sob o peso da vida, para todos os excluídos dos circuitos da cultura dominante, que é (enganosamente) a do ‘estar bem’ como um princípio absoluto”.

Evocando a saudação e o grito “Cristo ressuscitou, Cristo ressuscitou verdadeiramente”, trocado nestes dias pelos cristãos do Oriente, o purpurado desejava que essa saudação e esse grito “viajassem pelas enfermarias dos hospitais, entrassem nos quartos dos doentes, nas celas das prisões”, que levantassem “um sorriso de esperança mesmo naqueles que estão nas salas de espera para os complicados testes exigidos pela medicina de hoje, onde frequentemente se encontram rostos tensos, pessoas que tentam esconder o nervosismo que as agita”.

No momento em que escrevia a reflexão, Martini era já idoso, assumindo-se como “um pouco enfraquecido em força, já na lista de chamada para uma passagem inevitável” (viria a morrer pouco mais de um ano depois, em 31 de agosto de 2012). Mas nem por isso deixava de se perguntar: “o que me diz hoje a Páscoa? (…) E o que poderá também dizer àqueles que não partilham da minha fé e esperança?”.

A sua resposta começava por recorrer à carta de São Paulo aos Romanos (8,18): “Os sofrimentos do momento presente em nada são comparáveis à glória futura que se há-de revelar em nós”. Acrescenta que eles são, antes de mais, os sofrimentos de Cristo na sua Paixão, “para os quais seria difícil encontrar uma causa ou uma razão se não se olhasse para além do muro da morte”.

“Mas há também – alertava o cardeal – todos os sofrimentos pessoais ou coletivos que sobrecarregam a humanidade, causados quer pela cegueira da natureza, quer pela maldade ou negligência dos homens. Temos de repetir corajosamente para nós próprios, superando a nossa resistência interior, que não há proporção entre aquilo que temos de sofrer e aquilo que temos de esperar”.

“Não estamos desanimados”, dizia, porque “não fixamos o nosso olhar nas coisas visíveis, mas sim nas invisíveis. As coisas visíveis são momentâneas, as coisas invisíveis são eternas”.

Voltando a S. Paulo, que dizia no mesmo capítulo da carta aos Romanos, que a esperança se refere àquilo que ainda não se vê e não àquilo que está diante dos nossos olhos, o antigo arcebispo de Milão comentava: “Esperar desta forma pode ser difícil, mas não vejo outra saída para os males deste mundo, a menos que se queira esconder o rosto na areia e não se queira ver ou pensar nada.”

“Mais difícil, porém, é para mim expressar aquilo que a Páscoa pode dizer àquelas pessoas que não participam da minha fé e estão dobrados sob o peso da vida”, observava ele. “Nisto, sou ajudado por pessoas que conheci e nas quais senti uma fonte misteriosa, que as ajuda a olhar o sofrimento e a morte de frente, mesmo sem poderem dar razões para o que se seguirá. Vejo assim que há dentro de todos nós algo daquilo a que S. Paulo chama ‘esperar contra toda a esperança’ (Romanos, 4.18), ou seja, uma vontade e coragem de continuar apesar de tudo, mesmo que não se tenha compreendido o significado do que aconteceu”, demonstrando “uma resiliência que tem algo de milagroso”.

Entre os exemplos que o arcebispo Carlo Maria Martini dava, em 2011, destacam-se o tsunami de 26 de Dezembro de 2004 e as inundações de Nova Orleães causadas pelo furacão Katrina no mês de Agosto seguinte, com tudo o que foi feito com energia indomável, para enfrentar a adversidade. Aludiu também às energias de reconstrução que surgem do nada após a tempestade das guerras. E recordou as palavras que Etty Hillesum escreveu a 3 de Julho de 1942, antes de ser levada para Auschwitz para morrer, quando tinha 28 anos: “Olhei para o rosto da nossa iminente destruição, o nosso previsível fim miserável, que já se manifestava em muitos momentos comuns da nossa vida quotidiana. Foi esta possibilidade que incorporei na perceção da minha vida, sem experimentar uma diminuição da minha vitalidade em consequência disso. A possibilidade da morte é uma presença absoluta na minha vida, e por causa disso a minha vida adquiriu uma nova dimensão”.

Para viver esta “nova dimensão”, Martini dizia-nos que não podemos contar com a ciência, exceto para lhe pedir alguns meios técnicos. “A questão é sobre o significado do que está a acontecer, e ainda mais sobre o amor que é oferecido mesmo em tais conjunturas. Há alguém que me ama tanto que me sinto cheio de vida mesmo em fraqueza, que me diz: “Eu sou a vida, vida para sempre.”

“Desta forma a ressurreição entra na experiência diária de todos os sofrimentos, especialmente os doentes e os idosos, dando-lhes a possibilidade de ainda produzirem frutos abundantes apesar da fraqueza que os assola. A vida na Páscoa revela-se mais forte do que a morte e é assim que todos nós esperamos agarrá-la”, concluía o cardeal Carlo Maria Martini.

 

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