O sentido dos ritos
Para lá dela, no entanto, vai surgindo uma sensação perturbadora de anacronismo, tornada mais forte quando o padre, longe de parecer incomodado, começa a indicar aos presentes em que momento se devem levantar e sentar ao longo da cerimónia. E agravada pelo fotógrafo a circular livremente, o telemóvel a tocar no início, as crianças a movimentarem-se constantemente, os convidados a segredarem conversas, a música pop e em inglês. Enquanto o padre repete uma lição que provavelmente dirá mais algumas vezes durante aquele dia, há dois mundos que coabitam no mesmo espaço. Uma Igreja que procura sobreviver aos novos tempos, resistindo à secularização, à perda da autoridade, ao progresso cultural e social, às novas regras sobre o certo e o errado que já não é ela a determinar. E o novo mundo moderno que quer escapar às amarras da tradição e aos ditames da velha ordem e que, nesse movimento, se vai desprendendo de todos os rituais que antes davam forma à identidade individual e coletiva.
Naquilo que gostamos de designar como o Portugal verdadeiro, a existência desses dois mundos ainda é inegável. Vamo-nos emancipando das velhas regras ao mesmo tempo que procuramos manter os casamentos religiosos, proferindo votos matrimoniais cuja leveza é revelada pelas estatísticas oficiais. A Igreja vai tendo um papel cada vez mais diminuto na infância, mas tentamos mostrar aos mais novos o que é receber a cruz e beijar o Senhor, fazer a primeira comunhão, visitar Fátima em agosto, levar flores à campa familiar no primeiro de novembro. Os dois mundos vão coexistindo.
A importância deste tipo de ritos é uma temática tão antiga no pensamento filosófico como a própria filosofia e é transversal às várias culturas humanas. Talvez porque, como muitos pensadores indicam, seja um instinto natural. Cumpre uma função social fundamental: a de denotar pertença. Aquele que pratica os nossos rituais é reconhecível como um de nós, como aquele que respeita as nossas regras e em quem, por isso, podemos confiar. Mas cumpre igualmente um papel de sentido. Necessitamos de ritos para nos relacionarmos com a transcendência, para compreendermos o nosso lugar no universo, para nos ajudar a lidar com a estranheza de estarmos vivos. A repetição de um ritual, que é comum e valorizado socialmente, permite lidar com a angústia de compreendermos que há coisas que não conseguimos compreender.
É por tudo isto que aflige o modo como o homem moderno procura emancipar-se de todo o passado, com uma crença certa de que pode prescindir das estratégias de sentido que foram sendo desenvolvidas desde tempos imemoriais. Na verdade, muitos dos sintomas que registamos hoje são reflexo dessa tentativa de criar um homem liberto de todos os grilhões. A modernidade trouxe-nos conforto, tecnologia, abundância e listas infindas de indicadores de progresso. Mas não tem uma resposta para a questão do sentido.
Por essa razão, cada vez mais se sente a emergência de parar e olhar para trás. Dificilmente tal significará recuperar o sentido dado pelo ritual católico de outros tempos – que parece irremediavelmente anacronizado –, mas terá de passar pelo regresso aos mitos da pertença e pela reinvenção dos ritos do sentido. Afinal, quando o Reino Unido sente a necessidade de criar um Ministério da Solidão, como aconteceu em janeiro de 2018, ou cientistas tentam desenvolver fármacos para combater a solidão, o sinal está dado de que há algo de muito errado no caminho que foi percorrido. Em Portugal, ainda vive um homem que tem um pé na igreja de Vizela e outro no mundo urbano moderno. Talvez por termos ainda dois mundos, o nosso caminho de reflexão e reencontro possa ser mais fácil.
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