Discografia reeditada

O sentido humanista na obra de José Afonso

| 5 Nov 2022

Monumento a José Afonso, em Grândola. Foto © Wikimedia Commons 

 

Tem vindo a ser noticiada a reedição da obra discográfica de José Afonso (1929-1987). De seu nome completo José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, toda a obra se desenrolou e notabilizou sob este nome de José Afonso, entre o familiar e o funcional. A reedição do principal da sua obra constitui uma iniciativa digna de todos os encómios, já que será salvaguardada a qualidade original e a interpretação pessoal do autor.

Uma mensagem divulgada em fevereiro de 2017 lembrava que “O seu nome está nobremente ligado a essa madrugada do 25 de abril de 1974 em que, ao som de Grândola, um povo se libertou e inaugurou uma nova época da sua História.” Esta ligação pode entender-se como uma homenagem ao cantor, poeta, compositor e interveniente social que foi José Afonso.

Com efeito, a sua criação poética e musical esteve ligada ao espírito que conduziu ao movimento de abril de 1974, instaurando ao lado da intenção de denúncia o sentido da afirmação da liberdade, da consciencialização política e da participação cívica, valores pelos quais sempre pugnou, próximos dos princípios humanistas e cristãos que nessa altura norteavam e norteiam a intervenção social e cultural. E esteve também presente no reconhecimento da riqueza do canto (poesia, música e voz) de José Afonso. Várias vezes temos registado, com algum escândalo de alguns, o nosso apreço pelo universo da sua música e da sua mensagem.

Devemos reconhecer que há dois José Afonso, após aquele prólogo vital que foi o tempo das canções e baladas de Coimbra, na tradição do tipo e modelo de canções que cristalizaram no que veio a chamar-se “fado de Coimbra”, ou a canção de Coimbra, no seu estilo musical característico e original. Não sei se esta dimensão fadista se pode incluir no “património imaterial da humanidade”, acoplado ao fado de Lisboa. Mas esse é outro problema.

Os dois José Afonso que discernimos têm outras datas: o antes e o depois de abril de 1974, com o deslizamento mental, político e social que conduziu de um período ao outro.

O primeiro destes José Afonso é o dos Cantares do Andarilho, o das Cantigas do Maio, o do Traz outro amigo também, o do Venham mais cinco, incluindo aquela natural perda de fôlego ou de garra poética que vemos depois em Eu vou ser como a toupeira. Aliás é significativo que a capa e contracapa dos Cantares do Andarilho apresente a tradicional figura da columbina mensageira da paz, de ramo de oliveira no bico, imagem simbólica de uma atitude que Urbano Tavares Rodrigues assinala como “os ecos de uma grande fraternidade sonhada e assumida”.

 

Este é o grande José Afonso: o da voz inconfundível, rica de múltiplos harmónicos, de expressões cheias de um lirismo poderoso e de um sentido de humanidade poucas vezes conseguido pela música popular de qualquer espaço do mundo.

É o José Afonso dos filhos da madrugada que procuram a mensageira pomba chamada, do homem que se põe a pensar diante dos dramas humanos; dos meninos que vão correndo para ver o sol chegar, o sol do ser livre, do ser inteiro, do pleno ser humano. É o José Afonso da estrela de alva, a que vem ao romper da aurora.

É ainda o do olhar terno sobre a mulher da erva, que na caminhada nem alembra do amanhecer. É também a da vila morena, terra da fraternidade, uma clara mensagem de raiz cristã, como a da liberdade, igualdade e fraternidade, mesmo quando sejam depois objeto de falsificação. É a ânsia de colocar em cada esquina um amigo e em cada rosto igualdade.

É também o cantor da melhor poesia portuguesa, desde a de raiz popular como o Milho Verde ou a Senhora do Almortão, ou a Maria Faia, até ao melhor da poesia das redondilhas de Camões, do “verdes são os campos”, de “aquela cativa que me tem cativo” ou mesmo do drama poético de Jorge de Sena, a quem roubam a pátria e a humanidade.

Este é o José Afonso verdadeiro, que com uma verve poética mais profunda que múltipla, semeou o cancioneiro português com alguns dos melhores cantos que produziu.

É o poeta que se exprime pelas imagens, pelos símbolos, pela linguagem polissémica, repleta de figurações e cheia de força e vitalidade, e de sinais de esperança, como  o “olha a montanha, que vem rompendo o dia”. E já agora: uma homenagem à simplicidade extraordinária das melodias retiradas da guitarra de Rui Pato nos Cantares do Andarilho, por certo um dos mais belos e nobres diálogos entre um instrumento e o seu canto.

O segundo José Afonso já é outro. É já nome de poeta de outra linguagem de intervenção direta pelos conceitos e lugares da linguagem revolucionária em curso. Superadas as limitações da expressão, a sua linguagem tornou-se menos simbólica e mais direta, mais agreste, mais imediata. É o José Afonso d’“o que faz falta é animar a malta”, do “dar poder à malta”, da “busca do poder popular”. É a intervenção política imediata, sem o aveludado da imagem e com a agressividade das arestas picantes. É a ausência poética do esmagar a burguesia, da regra que é o dente por dente. Dito de outra maneira, um José Afonso poeticamente mais pobre e de uma intervenção social que dispersa mais do que reúne. Ele que nunca quis militância em partidos, deixou-se arrastar pela vulgaridade de alguns dos seus lemas menos humanizáveis e mais conflituantes.  Mas ainda por lá encontramos a decisão dos índios da meia praia que levam avante a sua construção.

 

Algumas linhas do humanismo do canto

Na temática do seu cantar, importaria registar alguns vectores:

  • O vector da ternura: as trovas e cantigas de embalar, que quando a luz se apaga nas janelas espera que outra venha para a render; o do vejam bem o homem a desbravar os caminhos do pão, esperando que lhe deitem a mão. E da fragância morena, das rubras papoilas, do branco luar, da mensageira pomba chamada…

  • O vector da atenção aos valores do humanismo: a procura da manhã clara, o drama dos emigrantes, como o vento que foi e não veio, o traz outro amigo também…
  • O vector das figuras populares: o moçambicano Miguel Djéje a quem vinham para ouvir, a extraordinária beleza da mulher da erva que a dá à cabrinha mansa, mesmo a Catarina que deixou vermelha a campina…
  • O vector da linguagem poética tradicional e lírica, seja a dos versos camonianos, seja dos cantares populares plenos de imaginação criadora, como a tirana saudade açoriana…
  • Os conceitos simbólicos como propostas de transformação: a verde oliva de flor no ramo, o vira a proa minha galera, o dei-lhe uma rosa encarnada, o venham ver Maio nascer, o abre-te ó sol de verão, o venham de mãos dadas semear o amor. Aí está a maré cheia duma ideia p´ra nos empurrar, bem como o ouvem-se já os clamores da matinal canção. Lembremos: mensagem escrita nos anos 70…

 

Já agora, deixo aqui uma recomendação. Há por aí muita gente, bons cantores, a querer cantar as músicas de José Afonso. Recomendo que não cantem, porque quase todos os que querem imitar a sua forma de cantar podem ficar bem na fotografia da intenção, mas ficam quase sempre mal na fotografia do canto, ao inevitável confronto do original. Salvo raras exceções, um cantar de José Afonso não é imitável, e o querer fazê-lo tira qualidade a quem o faz. Por isso, deixem ouvir a voz do cantor: que seja ele, não o imitem. E as rádios que vão buscar o seu melhor, que é o melhor da nossa música popular, e que, verdade seja dita, não é muito da predileção da maioria. Ouve-se pouco José Afonso e geralmente sempre o mesmo, escondendo a riqueza do todo.

E por favor e bom senso, por respeito e memória, não lhe chamem Zeca, como na rua do Porto. Ele sempre assinou José Afonso.

 

Manuel Correia Fernandes é presbítero católico da Diocese do Porto, professor aposentado do ensino secundário e superior, diretor do semanário Voz Portucalense e autor de várias obras sobre literatura.

 

Psiquiatra Margarida Neto é a nova presidente da Associação dos Médicos Católicos Portugueses

Sucedendo a José Diogo Ferreira Martins

Psiquiatra Margarida Neto é a nova presidente da Associação dos Médicos Católicos Portugueses novidade

A psiquiatra Margarida Neto é a nova presidente da direção nacional da Associação dos Médicos Católicos Portugueses (AMCP). A médica, que trabalha na Casa de Saúde do Telhal (Sintra) e é uma das responsáveis pelo Gabinete de Escuta do Patriarcado de Lisboa, foi eleita por unanimidade no passado sábado, 13 de abril, para o triénio 2024-2026.

A “afinidade” entre a música de intervenção e a mensagem de libertação cristã

Alfredo Teixeira em conferência dia 16

A “afinidade” entre a música de intervenção e a mensagem de libertação cristã novidade

Podem algumas canções de intervenção ligadas à Revolução de 25 de Abril de 1974 relacionar-se com o catolicismo? O compositor e antropólogo Alfredo Teixeira vai procurar mostrar que há uma “afinidade” que une linguagem bíblica e cristã à música de Zeca, José Mário Branco, Lopes-Graça, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho e outros.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This