O ser e a liberdade (II)

| 2 Fev 2024

“É que o verdadeiro mistério fundamental não é o da morte, mas o da vida. Aliás, não há outro mistério senão o da vida. A morte, o que quer que ela seja, não é senão outro aspeto desse mistério.”

 

O que é o Ser Humano?
Tensão entre o Absoluto onde está enraizado e a finitude objetiva do mundo onde está mergulhado. Desejo e abertura para o Infinito. Alma e corpo.

O que é a Verdade?
Um ideal, antes de mais. Um ideal que aponta para o Absoluto. Um desejo.

O que é o Ser?
É aquilo que não se esgota jamais no sido. Porque não cessa de se consumar a partir do Infinito que lhe é próprio. Ser é para sempre mais verbo (ação) do que nome (coisa).

O que é o Pensamento?
Ato que busca continuamente a luz da evidência; movimento que tenta tirar de si próprio o seu próprio sentido e o sentido de todas as coisas. Pensar é procurar construir dentro de si o sentido do mundo e das coisas.

O que é a Vida?
Tudo.

O que é a morte?
Vida. É que o verdadeiro mistério fundamental não é o da morte, mas o da vida. Aliás, não há outro mistério senão o da vida. A morte, o que quer que ela seja, não é senão outro aspeto desse mistério. Porque morte é o nome que damos ao absoluto de uma consciência que deixou de ser para nós. Mas, em absoluto, poderá ela deixar de ser-para-si?

O que é a Pergunta?
É a brecha que se abre e por onde a luz entra. Nada nos aproxima mais da Verdade, nem sequer a melhor resposta, do que uma pergunta verdadeiramente honesta e radical. Diz um tal de Abraham Heschel: “Estamos mais perto de Deus quando fazemos perguntas do que quando pensamos que temos as respostas.” A pergunta é como a perspetiva da viagem que se abre, rompendo com o dado e a normalidade do autómato. É a perspetiva da aventura que começa.

A maior de todas as perguntas, a mais radical, é aquela que nos reduz ao Silêncio, ou aquela que tem o Silêncio como resposta. Porque nos põe na vizinhança do Mistério Último.

A existência e a esperança são irmãs
na imanência corre a transcendência
O levante donde o futuro desponta
é no coração; aí esperança é subsistência
alimento p´ra boca do peregrino do mundo
Ele pergunta: – O que é a Existência?
e de repente está sobre uma eminência
de onde o Infinito se contempla.

Admitir que se pode chegar a explicar completamente uma escolha, decisão ou comportamento de um indivíduo é transformá-lo num objeto. Não se salvaguardar uma região absoluta e inacessível à objetividade científica externa e às explicações deterministas é esvaziar o indivíduo da sua dignidade, pois esta consiste na possibilidade de ele ser a causa primeira e irredutível dos seus próprios atos. O determinismo radical para o qual apontam certas perspetivas fisicalistas da natureza humana, muitas vezes copiadas diretamente da física do mundo natural, suprime toda a responsabilidade individual, tanto no bom como no mau. Pretende assim suprimir o sentimento de culpabilidade e o remorso, mas com eles suprime também a satisfação que decorre da ação reta, e bem assim do exercício da própria virtude. Deste modo, despoja o indivíduo de todo o gosto e impulso para a elevação.

Viver sob valores e princípios, sendo o da verdade o primeiro, não é nada fácil, porque não traz recompensa imediata. Antes pelo contrário, traz frequentemente dor. Trata-se de uma aventura no desconhecido cujo resultado é sempre incerto.

 

O Ser Humano tem uma enorme facilidade para se esquecer do essencial. Precisa de ser dele continuamente lembrado. É nesse sentido que a disciplina da religião e do rito pode ser proveitosa, no sentido em que introduz a disciplina da memória.

Viver sob valores e princípios, sendo o da verdade o primeiro, não é nada fácil, porque não traz recompensa imediata. Antes pelo contrário, traz frequentemente dor. Trata-se de uma aventura no desconhecido cujo resultado é sempre incerto. Implica, portanto, logo à partida, uma forte convicção, que é uma fé, na verdade e justiça de tais valores e princípios. Porque, precisamente, os princípios dão-nos princípios que são, em si mesmos, os seus próprios fins. Kantianamente falando, é assim que devemos entender a ação moral, que é necessariamente ação por dever; porque não tem em vista esta ou aquela recompensa, este ou aquele benefício pessoal, mas apenas o cumprimento incondicional dos princípios. Mas o bem intelectualmente concebido, e como tal tido por essencial no governo da existência, soçobra se não for acompanhado por uma fé na sua verdade e justiça. Como não temos, no geral, a virtude platónica de conhecer o Bem diretamente na sua essência, ficando assim impossibilitados de agir mal (pois não há como ver o Bem face a face sem que, num certo sentido, nos tornemos nele), temos de, a cada circunstância particular, e quando o bem a realizar é relativamente claro, ter a coragem de lhe obedecer e não ceder ao apelo da conveniência do momento. Exige a coragem de ascender ao suprapessoal, acima do quesitos pessoais imediatos. Não é fácil renunciar, se não se crê na possibilidade real de uma justiça superior, de uma existência efetivamente mais real, porque moral.

É muito mais fácil agir moralmente quando se crê obedecer a uma ordem metafísica mais elevada, real e substantiva do que a ordem humana comum; e que essa obediência conduz a um grau superior de humanização, isto é, a uma elevação da existência humana, a uma salvação. É, portanto, mais fácil agir moralmente, ou seja, de acordo com o essencial, quando tal tem um sentido transcendente; o mesmo é dizer, quando tal é visto como o caminho para um aprofundamento e uma expansão da própria vida no sentido da sua plenitude e autenticidade.

Agir por dever no sentido kantiano é, num mundo desprovido de sentido transcendente, heróico, para dizer o mínimo. E mesmo nessa heroicidade vejo um desafio, que é uma exigência radical e muito humana de sentido.

É necessário ter fé na possibilidade de uma efetiva humanização do humano, quer dizer, no seu aperfeiçoamento ético. É preciso acreditar que há um fundamento metafísico para sustentar uma ética da renúncia, em oposição à ética multimilenar da força; porque a ética da força e do poder é extremamente tentadora. Quem tem força e poder raramente renuncia a ditar a sua lei; raramente renuncia ao que pode, se o pode; raramente resiste à tentação de ir até onde pode ir, porque os fins justificarão os meios, os resultados acabarão por falar por si, a História justificará. Trata-se de uma ética que parece estar de acordo com a vida, porque responde às pulsões da vitalidade, da vontade, da luta, e por isso se torna ainda mais tentadora. Mas a ética da renúncia é incerta e arriscada. A justiça, para aquele que a prática intrepidamente, servindo e pondo a dignidade humana no centro de toda a equação moral, é uma coroa de espinhos, uma pesada cruz. A ética da renúncia é uma espécie de morte. Mas é uma morte necessária para que o Ser Humano emirja do nada da inautenticidade e da mentira para a substância da verdadeira vida. Noutras palavras, para que o Ser Humano se torne verdadeiramente livre, e assim se cumpra. Há uma religião que tem, na sua essência, esta ética da renúncia: o Cristianismo. Sustenta-a na promessa da verdadeira vida, na vitória sobre o sofrimento e a morte. Introduz uma metafísica nova, aparentemente inimiga da vida, mas instauradora, na realidade, de um movimento de transformação moral da Humanidade, de conversão ética, fundada não no princípio estóico da virtude pela virtude, sem salvação possível, mas numa esperança universal de justiça e justificação num plano mais profundo e real da existência.

A modernidade declarou a morte de Deus, mas o Cristianismo havia declarado a morte da morte. A morte de Deus é o retorno da morte enquanto morte, ou seja, enquanto nada. É o retorno da morte substantiva, da morte total. E a morte total conduz à dissolução da realidade, primeiro na metafísica, depois na física, por fim na ética. Já não há absoluto, mas apenas realidade juncada de nada, permeada pelo não-ser, condenada por conseguinte à corrupção e à morte por nadificação. Só há relativo. Urge, por conseguinte, declarar novamente a morte da morte, para que a existência recupere o seu direito ao Absoluto, que é a sua substância, sua sede e seu sentido. E assim se faça caminho, porque se a vida não for caminho para a Vida, a moral não passa de moralismo, a virtude de virtuosismo; e a ética deixa de ser a construção da morada do homem, a edificação do templo da Humanidade, onde cada pedra descobre o seu sentido no seio do Todo.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

NR: Embora este seja o segundo texto de dois sobre o mesmo tema, o primeiro foi publicado em 20 de janeiro , a verdade é que por lapso nosso ou por comunicação deficiente invertemos a publicação dos textos. Assim, o presente texto seria o primeiro.

 

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