O ser e a liberdade

| 20 Jan 2024

Homem caminha no deserto do Sahara. Foto © Dmitry Pichughin

“O desejo metafísico, que se exprime essencialmente no desejo do Absoluto (porque somos seres-para-a-Transcendência), exprime-se correlativamente no desejo da liberdade metafísica, que é desejo pelo incondicionado, natureza do próprio Ser.” Foto © Dmitry Pichughin

 

A única contradição lógica (e ontológica) é afirmar que o Ser não é. Já dizer que o Ser é imóvel e simultaneamente móvel, necessário e absolutamente livre, não é contradição, porque, em ambos os casos, o Ser é. Dizer que sou o Ruben e não sou o Ruben é uma contradição. Dizer que sou tudo o que fui, sou e serei, todas as experiências e vivências possíveis, não é uma contradição. Porque, sob as mesmas condições, isto é, sob o olhar da eternidade, não há nada que eu não seja uma vez que o fui, sou e serei. A única real contradição seria afirmar que não sou. Também o Ser-Absoluto é; não é isto ou aquilo, mas é, quer dizer, nada o determina senão ele próprio; nenhum predicado ou categoria espaciotemporal pode defini-lo. Nada do que ele pudesse ou possa ser o esgota, porque ele é o próprio Infinito, e, nesse sentido, nele não haveria qualquer contradição possível, a não ser que fosse possível que ele não fosse.

Imutável e mutável; móvel e imóvel; livre e determinado; uno e múltiplo; posto absolutamente em si próprio e “outrando-se” na liberdade outra de uma consciência; tudo isso lhe é possível porque de tudo isso, e mais ainda, ele é o fundamento e a própria condição de possibilidade.

O desejo metafísico, que se exprime essencialmente no desejo do Absoluto (porque somos seres-para-a-Transcendência), exprime-se correlativamente no desejo da liberdade metafísica, que é desejo pelo incondicionado, natureza do próprio Ser.

Não há como esconjurar de nós a condição de seres-para-o-Infinito, com a qual e na qual temos de viver, a par da nossa finitude e da objetividade aparente das coisas.

Procuramos conciliar-nos com essa condição, difícil e até trágica, tentando conciliar o finito com o Infinito, o objeto com o Absoluto, por meio da criação, do pensamento e do amor. Dito de outro modo: exercendo a nossa liberdade. Porque por ela reconhecemo-nos na nossa verdadeira natureza – a de sujeitos –, seres-em-projeto (Heidegger), superando a inércia e a inconsciência do objeto. Assim, aproximamo-nos do Ser, pela ação e pelo conhecimento, porque o Ser é Existência. Ser sujeito é participar do Incondicionado, é existir enquanto abertura para o Infinito, aprendendo a exprimir objetivamente, no produto empírico da ação e da criação, o infinito na finitude, elevando-a à perfeição possível. Isso é beleza, verdade, justiça. Desde que se renuncie à idolatria, quer dizer, à ilusão de que o finito, o objeto, a ideia, podem alguma vez chegar a conter a totalidade aberta do Infinito, ou seja, a verdade última e total.

O Reino jamais virá pela supressão da liberdade – realidade aberta que exprime o Ser e o seu infinito latente na alma humana –, seja de quem for, do indivíduo ou das massas, mas pelo seu exercício pleno e esclarecido em cada ser humano, no caminho entre o possível e o impossível, o dado e o transcendente. A liberdade, exercida reta e justamente, trará o Reino até nós, porque é ele que vem a nós livremente, ele que é o reino da liberdade e a própria liberdade, impossível de condicionar. Por isso, só é possível possuir o Reino renunciando a ele. Renúncia – a face mais pura da liberdade e da autenticidade – a todas as formas de mentira; a tudo o que não signifique dádiva, serviço, pureza de expressão e comunicação, respeito pelo absoluto da dignidade humana.

No vazio cavado em nós por essa renúncia, torna-se possível em nós a existência enquanto sujeitos, porque se esclarecem em nós as nossas verdadeiras sedes; e então se torna possível fazer da sede um caminho (Tolentino Mendonça); quer dizer, construir uma existência orientada para um sentido mais de acordo com a nossa vocação mais íntima.

Como é que podemos conciliar-nos com o Infinito se não abrirmos espaço para ele dentro de nós? Se não o aceitarmos dentro de nós, em primeiro lugar, como vazio? Temos de abraçar esse vazio e essa sede, como quem abraça o vazio que o separa do horizonte, sem o perder de vista. Temos de abraçar a nossa condição de seres enraizados-desenraizados, a nossa contradição existencial inerente. Só assim o caminho se abre diante de nós, o caminho que pede para ser heroica e livremente percorrido, o caminho da própria liberdade, para que cheguemos a ter um vislumbre que seja do nosso verdadeiro rosto, do nosso nome escondido dentro de nós. É isso que significa lutar com o Absoluto, como Jacob na sua luta com Deus: abraçá-lo na sua plenitude, ferida aberta em nós, sem procurar subterfúgios ou falsos paliativos; abraçar a inteireza da liberdade, e seguir adiante, sem olhar para trás, até que o sentido se revele.

Se a Existência Absoluta existe necessariamente (pois não pode não existir, sendo absoluta), pode ela não ser livre? Se não é livre, obedece a uma lei. Mas a que lei pode ela obedecer senão à sua própria, visto não haver existência que lhe seja superior? A Existência Necessária é a sua própria Lei. Pode aqui não haver um querer?

 

Ser como Existência

deserto, pegadas, pés

“Ora, porque o Ser não é apenas objeto, mas existência em movimento eterno de autoconsumação, ele não é compreensível senão tomando parte nesse movimento na medida das possibilidades humanas – i.e. na liberdade retamente exercida.” Foto © Mier Chen/Unsplash

 

Por mais que certos filósofos procurem colocar-se “na vizinhança do Ser” no sentido de o transformar em conhecimento objetivo, a realidade é que tal conhecimento é impossível. Como diz Jaspers, jamais poderemos quebrar, pelo intelecto apenas, a “cisão sujeito-objeto”, quer dizer, atingir pela razão a unidade metafísica absoluta. Tudo o que logramos são aproximações, motivadas pelo desejo metafísico que nos constitui e que visa essa mesma unidade. Fora de todas as determinações ou categorias que constituem o objeto enquanto tal, ou fenómeno (Kant), ficamos perante o Ser, a pura Consciência, que à primeira vista não é senão pura indeterminação, vazio, escuridão. A consciência tenta ultrapassar a escuridão, encontrar-se para além do objeto na sua pureza substantiva, mas nunca o consegue, porque todo o objeto visado exige, para ser visto enquanto tal, determinação; mas o Ser visado pela consciência no ultrapassar do objeto é um infinito indeterminável, o próprio Infinito da Consciência. Tal Infinito escapar-nos-á sempre, pelo menos enquanto procurarmos atingi-lo apenas pela luz do intelecto. Nunca poderá ser concebido como conceito positivo, empírica ou intelectualmente observável, mas apenas negativamente como indeterminado, ilimitado, infinito, Ser, Absoluto, Uno. Noutras palavras, ideia que manifesta uma intuição: a Consciência sabe-se una e a mesma, absoluta na sua natureza; e portanto há nela uma abertura intrínseca que nunca se fecha completamente sobre o dado intelectual, nem sobre o conceito empírico, nem sobre o objeto determinado; uma abertura indissolúvel que é o Ser; por isso, a unidade metafísica essencial a que a consciência aspira, o todo absoluto, o Uno, e que se projeta como ideia de um fora de si infinito, de um Outro absoluto e eternamente Outro, “coisa em si” do mundo, não passa afinal do uno-absoluto da própria consciência. Este está inegavelmente presente em cada pensamento ou perceção, porque sem ele não haveria a minha perceção, inteiramente dada como tal, consciência dada a si própria no absoluto de uma interioridade.

Julgo que, de facto, superar a cisão sujeito-objeto para atingir o Ser implica, em certa medida, tornar-se nele, ou, noutras palavras, existi-lo. Porque, o que é a existência senão superação dinâmica de tal cisão, na medida em que o sujeito (subjectum ou essência) se realiza pela objetivação de si, isto é, pela realização ou atualização da sua interioridade profunda. Assim, pelo exercício reto da sua liberdade se reconhece no objeto de si próprio enquanto sujeito. A obra revela o ser humano a si próprio. Na liberdade retamente exercida, o Ser revela-se, não como objeto puro do intelecto, mas como vida ou existência.

Ora, na mónada absoluta (Deus), sujeito e objeto são plenamente o mesmo, quer na pura visão de si, quer na pura ação. Mas no ser humano, a pura visão de si não existe senão como ideal – o máximo que logra é consciência de si, intuição que comporta simultaneamente revelação e mistério absolutos. Quanto à ação passa-se o mesmo: a pura atualidade não é senão ideal de plena realização de si, plena liberdade e sentido existencial. Ora, porque o Ser não é apenas objeto, mas existência em movimento eterno de autoconsumação, ele não é compreensível senão tomando parte nesse movimento na medida das possibilidades humanas – i.e. na liberdade retamente exercida. Estaremos tão próximos da “vizinhança do Ser” quanto, pela consciência, aprofundarmos o discernimento da verdade (ou seja, daquilo que é) e, pela ação, a realizarmos na medida humanamente possível – pela beleza, pela verdade, pela justiça.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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