O Serviço na Igreja e a indisponibilidade dos cristãos

| 4 Jun 2024

A Parábola do Semeador. Ilustração (c. 1180) de Herrad de Landsberg no Hortus Deliciarum, da Abadia de Hohenburg (Alsácia).

“A indisponibilidade é tratada nos Evangelhos na parábola do Semeador. Ali, Jesus fala sobre sementes lançadas em diferentes tipos de solo, representando as diferentes respostas das pessoas em receber a Sua mensagem e permitir que ela frutifique nas suas vidas.” Ilustração: A Parábola do Semeador (c. 1180) de Herrad de Landsberg no Hortus Deliciarum, da Abadia de Hohenburg (Alsácia).

 

A indisponibilidade refere-se à incapacidade ou dificuldade de uma pessoa em se abrir a relacionamentos com outras pessoas, pela falta de recursos, oportunidade em participar socialmente, devido a barreiras como a mobilidade, ou discriminação, ou preconceito, ou falta de apoio; Mas também pode ser devido à falta de tempo livre devido a obrigações familiares, de trabalho ou outras, que afectam a capacidade das pessoas participarem na vida social.

Na religião, a indisponibilidade pode ser interpretada como falta de acesso a experiências espirituais, práticas religiosas, comunidade de fé ou respostas satisfatórias para questões espirituais e éticas. Essa falta de disponibilidade pode levar os crentes a enfrentar desafios na sua vida espiritual e religiosa e a procurar outros caminhos e até abandonar a religião organizada.

Historicamente as Igrejas experimentam a indisponibilidade das pessoas quando existe escassez de recursos económicos, de informação com censura interna, de acesso ao conhecimento religioso, de oportunidade de integração em grupo, ou restrição de liberdades individuais.

A indisponibilidade é tratada nos Evangelhos na parábola do Semeador (Mt. 13:1-23; Mc. 4:1-20; Lc. 8:4-15). Ali, Jesus fala sobre sementes lançadas em diferentes tipos de solo, representando as diferentes respostas das pessoas em receber a Sua mensagem e permitir que ela frutifique nas suas vidas.

Mateus deixou tudo para trás para seguir Jesus contrastando com outras personagens, devido a outras prioridades e interesses. (Mt. 9:9-13; Mc. 2:13-17; Lc. 5:27-32),(Mt. 22:1-14, Lc. 14:15-24).

Os bens materiais, quando se tornam prioridade nas preocupações, tornam indisponíveis essas pessoas (Mt. 19:16-30; Mc. 10:17-31; Lc. 18:18-30)

O Apóstolo Paulo, nas suas cartas, fala das atitudes e estados de coração que reflectem a falta de receptividade ao Evangelho, à verdade espiritual e ao serviço ao próximo.

Em Efésios 4:18-19, Paulo diz que as pessoas que estão alienadas de Deus, é devido à dureza dos seus corações, por indisponibilidade espiritual para entenderem e receberem os Evangelhos.

A indisponibilidade também é retratada por Paulo como resultado do pecado e afastamento do Espírito de Deus (Cl. 1:21).

Aquele afastamento, explica Paulo em 1Coríntios 2:14, pela diferença entre os que são carnais e espirituais, resultando na incapacidade em entender ou aceitar as verdades espirituais.

Mas também explica Paulo que há alguns que estão sempre a “aprender” mas não chegam à verdade porque manifestam resistência à instrução (2Tm. 3:7)

Isaías descreve numa passagem profética o Messias, como alguém desprezado e rejeitado pelos homens, indisponíveis para O reconhecer e aceitar – Is. 53:3

E Jeremias (5:23) refere que o povo de Deus é rebelde e obstinado recusando voltar-se para Deus e a viver segundo os seus mandamentos e indisponível para o arrependimento. Que são obstáculos de orgulho, idolatria ou simplesmente desinteresse.

Dito isto, podemos encontrar nas relações contemporâneas a diferença entre os que voluntariamente estão disponíveis para a Igreja, mesmo sob pressão social, porque encontram valor pessoal, satisfação e propósito no seu trabalho, mesmo que implique sacrificar parte da sua individualidade e tempo pessoal e aqueles que não sentem responsabilidade social em contribuir para o bem-estar da comunidade, mesmo num contexto individualista.

No entanto a indisponibilidade para cada um se voluntariar, tem dois sentidos:

Por um lado as Igrejas devem dar resposta às buscas pessoais, respeitar a autonomia e ajudar a priorizar e organizar o tempo e energias dos seus fiéis, num contexto social em que se dá ênfase crescente à individualidade.

O sentido de comunidade e pertença, deve ser estimulado e incentivado para que as pessoas se envolvam.

Por outro lado, os fiéis, devem reflectir nas suas agendas pessoais sobrecarregadas de actividades e incluir entre os seus interesses, os outros, começando na família, até à comunidade em geral.

Na sociedade contemporânea a gratificação instantânea é quase sempre valorizada, enquanto que o trabalho voluntário exige tempo e comprometimento a longo prazo, mas que no seu percurso as Igrejas devem sublinhar as pequenas coisas e acontecimentos como resultados imediatos da acção.

Para além do individualismo contemporâneo, a indisponibilidade para servir a religião pode ser explicada por diversos factores, tais como:

  • O declínio da religiosidade institucional, pela falta de participação e adesão a crenças e práticas tradicionais, por falta de identificação das pessoas com essas tradições.
  • A busca da espiritualidade individualizada, impede muita gente de se alinhar num grupo, construindo as suas próprias crenças e valores pessoais.
  • O avanço da secularização está a fazer-se pelo cepticismo, quando as pessoas se afastam da igreja e optam por uma visão secular de um mundo que cada vez mais se afirma pela tecnologia.
  • A ênfase na individualidade e na autonomia cultural levam as pessoas a priorizarem a sua própria felicidade, com liberdade de escolha sobre quaisquer compromissos com obrigações religiosas ou serviço à comunidade.
  • A emergência de grupos que se adaptam às necessidades e interesses das pessoas, contrasta com uma certa imobilidade das Igrejas tradicionais.

Estas minhas reflexões terminam com a tentativa de responder a uma questão crucial: O que pode ajudar uma religião a encontrar pessoas disponíveis para as suas Igrejas?

As seguintes estratégias podem ser adoptadas pelas Igrejas:

  • Uma comunicação eficaz sobre as oportunidades de serviço na Igreja. Divulgando regularmente oportunidades de voluntariado pelos meios à disposição;
  • Formação e desenvolvimento de ministérios atractivos, através de programas relevantes para que os fiéis se envolvam, seja a catequese, administração, jovens, caridade, etc…
  • Criação de um ambiente acolhedor e inclusivo na comunidade, recebendo calorosamente os novos membros e promovendo o seu envolvimento activo, cultivando relações significativas entre todos.
  • Oferecer oportunidade de formação e treino, para que possam desenvolver habilidades e a confiança necessária para as responsabilidades de voluntariado;
  • Reconhecer e valorizar o trabalho voluntário e o serviço, incentivando para que continuem comprometidos. Pode ir desde as manifestações de gratidão, reconhecimento público durante as celebrações ou cultos, ou simples palavras de incentivo e apoio.
  • A participação de famílias inteiras não deve ser esquecida, porque o sentido de pertença pode ser compartilhada nestes núcleos sociais mínimos. Evitando conflitos de interesse e, ou utilização do tempo a ter em conjunto.
  • A flexibilidade de adaptação às necessidades e interesses em evolução entre os membros da comunidade, para garantir oportunidades de serviço e atrair maior número de pessoas.

 

Ao adoptar estratégias, estas ou outras, cultivando uma cultura de serviço e participação activa, uma religião pode encontrar pessoas dispostas e entusiasmadas em servir a igreja e contribuir para a comunidade de forma significativa.

 

 Alberto Teixeira é cristão ortodoxo.

 

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