O Sétimo Selo 2.0

| 25 Mar 20

A pandemia de covid-19 parece ser a nova peste negra da Idade Média. Se antes a Igreja aterrorizava os fiéis com o inferno, agora correm o risco de despersonalização através do isolamento social.

O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

Imagem de O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

 

Faleceu recentemente, aos noventa anos, o actor franco-sueco Max von Sydow, que interpretou em O Sétimo Selo um cavaleiro da Idade Média regressado das Cruzadas e foi confrontado com a peste negra na sua terra. O filme, a preto e branco, é de 1956 e foi dirigido pelo consagrado Ingmar Bergman.

O filme desenrola-se em quadro apocalíptico num dos períodos medievais mais negros. Claramente inspirado no livro bíblico do Apocalipse (ou Revelação de S. João), move-se sobre a ideia de que Deus tem na mão um livro selado com sete selos e que a abertura de cada um desses selos redunda num mal para os homens, sendo que o último deles dará lugar ao fim dos tempos, mergulhado no terror apocalíptico do fim do mundo, ou da morte e devastação provocadas pela peste.

Parece que Bergman utiliza o pano de fundo da Idade Média com a intenção de partilhar a angústia do tempo em que o mundo vivia quando escreveu a peça de teatro que veio a dar origem ao filme. Na altura em que esta obra cinematográfica viu a luz do dia ainda se lambiam as feridas da II Guerra Mundial e o medo duma hecatombe nuclear ensombrava seriamente a vida das populações da Europa.

Depois, ainda havia que digerir os traumas da guerra com o seu cortejo impressionante de mortos, feridos, destruição e desorganização social, assim como o escândalo do Holocausto nazi, bem como a postura comprometedora de boa parte das igrejas em toda essa loucura. Persistia uma sensação geral de que tudo isso fora uma espécie de aviso para a verdade embaraçosa, de que o ser humano seria o responsável pelo apocalipse final que estava para chegar.

O enredo da estória centra-se no medo da morte. Regressado das Cruzadas, o cavaleiro tem que lidar com a simbolização da morte através duma personagem cujos encontros não consegue evitar e a quem desafia para uma partida de xadrez, no intuito de conseguir ganhar tempo, de modo a tentar descortinar o sentido da vida e preparar-se para o desenlace final.

Sendo a religião a chave para o entendimento do mundo e da vida na época, a verdade é que ela vai sendo fortemente questionada através das figuras que a representam, como aqueles que, através do teatro, falam em nome de Deus e recorrem ao terror do inferno para submeter o povo aos ditames de uma Igreja decadente e oportunista que associa a epidemia à ira divina. Aliás, quem mais fala em nome de Deus é uma personagem cujo passatempo favorito é furtar joias dos mortos, e que dez anos antes tinha convencido o cavaleiro a partir para as Cruzadas.

O isolamento social a que temos estado obrigados, primeiro moralmente e depois por força de lei, a prolongar-se demasiado vai provocar uma série de perturbações emocionais e familiares que não são de desprezar, pois a natureza dos humanos é gregária. Por outro lado, já há notícia de um aumento vertiginoso de divórcios na região chinesa mais castigada pela covid-19. Mas os efeitos futuros do ponto de vista das relações sociais pós-quarentena permanecem uma incógnita, tanto quanto a evolução concreta desta nova doença.

O facto é que a experiência da pandemia tanto pode potenciar uma maior coesão relacional e solidariedade, na esteira de alguns sinais que se vão já percebendo, como o seu contrário, na sequência do egoísmo que se tem verificado aqui e ali, e que levou ao açambarcamento inexplicável de produtos alimentares e de higiene, ou às notícias falsas difundidas nas redes sociais no sentido de provocar o pânico generalizado, como, por exemplo, inventar um número alucinante de mortos que estariam a ser propositadamente escondidos da comunicação social e das populações.

Relativamente à presente pandemia diz Joaquim Franco: “Solta-se a ameaça do mitológico caos, que remete para a matéria primordial, como se a ordem das coisas implicasse a coexistência com uma desordem originária e simultaneamente restauradora.”

Assim, o Sétimo Selo na sua actual versão pandémica seria, na cabeça dos mais aflitos, uma espécie de instauração do caos, na linha apocalíptica do fim do mundo, e presta-se à necessidade de encontrar um sentido e uma leitura hermenêutica. Mas é apenas mais um evento dos muitos em que a História tem sido fértil, desde o bug do milénio às previsões do fim do mundo por Nostradamus (1999) ou do calendário Maya (2012), passando por toda a espécie de epidemias.

Porém, os cristãos deveriam ter em conta que Jesus Cristo apenas se referiu aos últimos tempos em privado, e em resposta a uma pergunta dos discípulos. Não o fez por sua iniciativa: “E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?” (Mateus 24:3). É curioso, até porque revela que ele tinha mais que fazer e o foco da sua mensagem nunca foi esse.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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