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Editorial

O Sínodo católico acabou em Portugal?

| 13/11/2023

Assembleia sinodal no Vaticano: depois da síntese entregue a todos os católicos, cabe a estes continuar o debate durante o próximo ano. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

A avaliar por aquilo que foi enunciado esta segunda-feira no início da assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) a propósito da continuação do processo sinodal da Igreja Católica, dir-se-ia que o Sínodo, em Portugal, será, nos próximos meses, assunto de “teólogos e especialistas”. No discurso de abertura do presidente da CEP, o bispo José Ornelas afirmou: “Esta Assembleia [sinodal] terá a sua continuação no próximo ano. Até lá, o resultado desta sessão, já comunicado à Igreja, será objecto da oração, da reflexão dos teólogos e especialistas de toda a Igreja, em modalidades que estão a ser organizadas a partir das sugestões da Assembleia de Outubro passado. Temos caminho para andar, mas o Espírito, implorado por todo o povo de Deus, nos dará a energia, a coragem e a paciência consistente para continuar a caminhada.” [ver notícia no 7MARGENS]

Talvez seja apenas porque estamos no início dos trabalhos e o presidente da CEP não quer antecipar-se ao debate que ocorrerá nestes três dias. O trabalho teológico é fundamental para os meses que aí vêm, como a própria síntese da assembleia de Outubro (entretanto já disponibilizada na sua tradução portuguesa) reconhece logo na introdução, quando afirma que, nos próximos meses, as conferências episcopais devem animar o “desenvolvimento da reflexão”, concentrando-se “nas questões e nas propostas mais relevantes e mais urgentes, favorecendo o seu aprofundamento teológico e pastoral e indicando as implicações no direito canónico”.

Mas justificava-se, no primeiro momento colectivo dos bispos pós-assembleia sinodal, um apelo a que a mobilização dos católicos não esmoreça agora: depois de dois anos a responderem com entusiasmo à proposta do Papa, estes correm o risco de desmoralizar com um processo que é naturalmente lento e que pode frustrar legítimas expectativas de mudança.

Ao invés, o tom deste início da assembleia episcopal parece confirmar o pouco entusiasmo que, ao longo dos últimos dois anos, a maior parte dos bispos portugueses e a CEP no seu conjunto devotou, na prática, ao tema proposto pelo Papa para esta assembleia sinodal em duas partes, que se concluirá em Outubro de 2024. Esse pouco entusiasmo foi remediado pela síntese nacional, cuja redacção foi entregue a uma equipa que produziu um bom documento a partir dos contributos diocesanos e outros – ao contrário de dioceses como Lisboa, onde a síntese diocesana omitiu importantes temas propostos por vários grupos e comunidades.

Adiante, pois, porque teremos de esperar por quinta-feira, quando se concluir a reunião dos bispos, para poder avaliar o que quer e o que fará a CEP. Mas no caderno de encargos terá de constar a explicação sobre o que está a acontecer na Igreja, porque ainda há muita gente fora do processo e para muitos os objectivos deste sínodo ainda não são claros.

Para diante, a Igreja e os católicos têm cerca de meio ano para retomar o debate sobre a síntese aprovada em 28 de Outubro, na assembleia sinodal que pela primeira vez teve uma percentagem significativa de mulheres e não bispos a votar em pleno direito num Sínodo de Bispos.

Poder, mulheres, ecumenismo, moral e ministérios, os temas para aprofundar no Sínodo

Dois anos depois do início de um processo que envolveu milhões de pessoas por todo o mundo, a assembleia de Outubro foi, em si, a afirmação da sinodalidade como dimensão constitutiva da Igreja. Com tal dinâmica se recuperaram perspectivas do II Concílio do Vaticano (1962-65), que lançou a reforma do catolicismo, e que tinham ficado a meio caminho – como a corresponsabilidade dos leigos, uma Igreja entendida sobretudo como “povo de Deus” e não predominantemente como instituição hierárquica, uma comunidade mergulhada nas “alegrias e esperanças, tristezas e angústias” da humanidade contemporânea.

A aula sinodal deixou de ser um anfiteatro com cardeais à frente, bispos a seguir, padres e leigos convidados atrás, para passar a um espaço amplo, com todos os participantes sentados e distribuídos em mesas redondas em que todos (e todas) estavam no mesmo plano. Uma mudança de organização espacial que traduziu, também, uma mudança de paradigma no sentido de uma Igreja mais conforme ao Evangelho.

Uma assembleia, também, na qual a diversidade de culturas mostrou que não há um caminho único para a tradução desse mesmo Evangelho nas comunidades e nas culturas locais. E que traduziu a vontade de trazer as feridas da humanidade para o centro da vida das comunidades católicas, através de três gestos promovidos pelo Papa: a publicação da exortação Laudate Deum (4 de Outubro, dia de Francisco de Assis), um último grito de desespero pela Terra, pela Criação e pelo clima; a oração pelos refugiados, que se seguiu a uma intervenção sentida de Luca Casarini, fundador de uma organização de socorro a refugiados; e o dia de jejum e oração pela paz, praticamente no fecho do sínodo.

Nos meses que aí vêm, tal como a síntese evidencia, há temas difíceis a afrontar: o poder e as estruturas da Igreja; o papel das mulheres; o diaconado feminino; o clericalismo; o diálogo ecuménico (a hospitalidade eucarística, um sínodo ecuménico); a moral individual (poligamia, identidade de género e orientação sexual, temas que levantam questões que as categorias antropológicas existentes nem sempre captam, mas para as quais o comportamento de Jesus indica o caminho a seguir); a liturgia e os ministérios; a possibilidade de as mulheres e não clérigos pregarem; o celibato obrigatório; os padres que abandonaram o ministério e querem colaborar nas estruturas da Igreja; a escolha dos bispos com processos de participação mais alargada; a formação dos seminaristas; o racismo e o colonialismo; os abusos sexuais.

Uma das mesas onde se sentavam cardeais, bispos, homens e mulheres todos no mesmo plano: uma mudança de paradigma. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

Todos estes são temas sobre os quais a teologia, a pastoral e o direito canónico têm de trabalhar. E também sobre os quais os católicos têm de continuar a debater, a aprofundar. Na perspectiva de uma consciência alargada da realidade, reconhecendo que pode haver caminhos diferentes para diferentes comunidades e fazendo a pedagogia da mudança.

No próximo ano, uma das coisas que terá de mudar é a estratégia de comunicação do sínodo. A vontade do Papa Francisco, de fazer um “diálogo no Espírito”, terá tido a ver sobretudo com a ideia de evitar a personalização do sínodo em figuras mais mediáticas, como aconteceu em assembleias anteriores. Mas esses desideratos foram mal traduzidos por uma comunicação que impediu os jornalistas de saber o que se passava na assembleia, com isso acabando por fazer com que muitos católicos não conhecessem a reflexão que a assembleia sinodal foi produzindo. O debate de um sínodo sobre a participação dos crentes na vida da Igreja não pode ficar restrita, da forma que ficou, aos que participam na assembleia.

Um jornalista que há muitos anos acompanha em Roma a vida da Santa Sé lembrava as grandes expectativas que o Sínodo gerou em muitos crentes na fase da consulta prévia. “O problema é que algumas destas esperanças, sobretudo se ficarem ligadas a possíveis mudanças doutrinais, podem ser defraudadas se não ficarem contempladas no documento que o Papa Francisco venha a elaborar.” E, do ponto de vista comunicativo, “é difícil explicar o facto de a informação” acerca de um sínodo que pretende tornar a Igreja mais participada e transparente “estar tão controlada”.

Voltando a Portugal, nenhuma das questões referidas na síntese, nenhum dos temas mais difíceis que têm de ser aprofundados e afrontados pode ficar de fora dos debates das comunidades locais, grupos e movimentos. Se a pergunta do título deste texto é provocatória, não se pode correr o risco de desmobilizar, pela inércia, os que durante dois anos tanto entusiasmo colocaram neste processo.

Muitas tarefas para os próximos meses.

 

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