O Sínodo dos Bispos não é o sínodo da Igreja

| 25 Jan 2022

sinodo dos bispos, Foto sugerida pela FEC mas sem creditos

“Sínodo dos Bispos é dos Bispos, não é da Igreja, por muito esforço que façam para levar assuntos que a Igreja lhes coloca. Um Sínodo da Igreja, onde todos pudessem estar representados, seria diferente.” Foto: © Sugerida pela FEC, s/ créditos

 

Está a Igreja Católica Romana a caminhar para mais um Sínodo dos Bispos, a acontecer em 2023, e para isso toda uma máquina funciona no sentido da obtenção de mais diretivas ao serviço do Evangelho. Vamos lá lembrar o que está a acontecer: já não é a primeira vez que se realiza um Sínodo dos Bispos para refletir sobre algumas questões colocadas, sem que, no entanto, se sintam alterações substantivas ao funcionamento da Igreja, dando vitalidade ao seu caminhar.

Houve mesmo um cujo tema era os jovens, que tiveram oportunidade de darem os seus contributos, mas as consequências desse sínodo foram quase nulas. Talvez pelas práticas que se têm verificado ao longo destes sínodos é agora convocado um para reflexão sobre a sinodalidade, estando, espero, a desenvolver-se em todas as paróquias e movimentos os indispensáveis contributos para os bispos sentirem o pulsar da Igreja e decidirem em ordem ao que mais for da sua opinião.

Esperemos que o Espírito do Senhor esteja presente e ilumine as mentes dos bispos para decidirem de acordo com aquilo que a Igreja necessita para os dias de hoje. É louvável aquilo que o bispo de Roma e Papa Francisco tem proposto para o caminho de uma Igreja sinodal, e todo o movimento que se poderá sentir no envolvimento dos cristãos e dos não-cristãos nos assuntos a discutir. Porém, este não é um Sínodo da Igreja, mas um Sínodo dos Bispos da Igreja, o que constitui uma diferença inevitável. Não estou a dizer que o bispo de Roma não preferisse um Sínodo da Igreja, mas que este não o é.

Os bispos, por muita consideração que possamos ter deles, não representam nem o restante clero, nem a maioria dos milhões dos cristãos e das cristãs. Destas, então, não representam nada. Os sínodos partem sempre de ideias já congeminadas, não aparecem do nada. Veja-se o Sínodo da Amazónia: o que lá se discutiu e aprovou e aquilo que foi levado à prática; isto não é uma condenação de ninguém, mas sim uma constatação de uma realidade centrada, ainda, numa cúria central, com várias cúrias descentralizadas, as dioceses, que obedecem sempre a ideias conservadoras e obstrutivas do caminhar da Igreja sinodal.

Os catecismos e os direitos canónicos aí estarão para balizar os acontecimentos e as prospetivas a sair dum Sínodo dos Bispos, que não deixam de ser bispos e levarão para a reunião sinodal as suas opiniões, mais do que aquilo que os milhões de cristãos – onde chegar uma reflexão não-orientada – fizerem proclamar. Lembra-me sempre que uma ocasião onde se refletia as orientações do chamado “sínodo dos jovens” ao perguntarem ao senhor padre orientador da reunião qual era a opinião sobre a “ideologia do género”, não se coibiu de dizer que esse assunto não era discutível. Ora, por mais que possamos estar de acordo e tal assunto não ser do nosso parecer favorável, isso não significa que se anule a sua discussão. Então o sínodo não pretendia discutir tudo com todos?

O Sínodo dos Bispos que se vai realizar é realmente um Sínodo dos Bispos, levando pareceres – quando levam –, dos leigos. E isso, quer queiramos, quer não, não é um Sínodo da Igreja. Separemos as águas, Sínodo dos Bispos é dos Bispos, não é da Igreja, por muito esforço que façam para levar assuntos que a Igreja lhes coloca. Um Sínodo da Igreja, onde todos pudessem estar representados, seria diferente.

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Índia

Carnataca é o décimo Estado a aprovar lei anticonversão

O Estado de Carnataca, no sudoeste da Índia, tornou-se, no passado dia 15 de setembro, o décimo estado daquele país a adotar leis anticonversão no âmbito das quais cristãos e muçulmanos e outras minorias têm sido alvo de duras perseguições, noticiou nesta sexta-feira, 23, o Vatican News, portal de notícias do Vaticano.

Neste sábado, em Lisboa

“Famílias naturais” em convívio contra a ideologia de género

Prometem uma “tarde de convívio e proximidade”, um concerto, diversão e “múltiplas actividades para crianças e adultos: o “Encontro da Família no Parque” decorre esta tarde de sábado, 24 de Setembro, no Parque Eduardo VII (Lisboa), a partir das 15h45, e “pretende demonstrar um apoio incondicional à família natural e pela defesa das crianças”.

Fraternidade sem fronteiras

Fraternidade sem fronteiras novidade

A fraternidade é imprescindível na vida e na missão. No Congresso sobre o tema, a realizar nos dias 14 e 15 de Outubro, em Lisboa, queremos reflectir sobre a construção da fraternidade na sociedade, na política, na economia, na missão, no diálogo entre as religiões e na reconstrução da esperança.

Irmã Elis Santos: “São mais de 500 anos a sobreviver, e nós queremos existir”

Indígena do povo Mura em entrevista

Irmã Elis Santos: “São mais de 500 anos a sobreviver, e nós queremos existir” novidade

Aos 35 anos, Elis Santos, religiosa da Divina Providência, é uma das vozes mais ativas no Brasil na luta pelos direitos dos povos indígenas. Descendente do povo Mura e mestre em Antropologia Social, a irmã Elis falou ao 7MARGENS durante o encontro d’A Economia de Francisco, que decorreu na semana passada em Assis, e lamentou que no seu país continue a prevalecer “uma economia que mata”. 

Agenda

There are no upcoming events.

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This