
“Antes de mais, vamos reconhecer que precisamos uns dos outros se quisermos ser católicos”, pediu Timothy Radcliffe aos participantes do Sínodo. Foto © Ecclesia/OC
No segundo (e último) dia de retiro antes do início dos trabalhos da assembleia do Sínodo dos Bispos – que arrancam esta quarta-feira, 2 de outubro – o frade dominicano Timothy Radcliffe quis assegurar os participantes de que esta reunião não é inútil, como muitos possam pensar. E fez questão de esclarecer para que serve (ou não) o Sínodo.
Não se trata de um encontro “para negociar compromissos ou atacar oponentes”, assinalou na sua primeira meditação da manhã desta terça-feira, 1 de outubro. “Estamos aqui para aprender uns com os outros qual é o significado dessa estranha palavra ‘amor'”.
E recordando a passagem do Evangelho de João, em que Jesus aparece aos discípulos após uma noite de pesca infrutífera e lhes pede para voltarem a lançar as redes, Radcliffe fez um paralelismo com o que aconteceu aos membros da assembleia: “Viemos a este Sínodo em obediência. Para muitos, parece inútil. Trabalhamos dias e noites e talvez duvidemos que algo será alcançado. Mas a Igreja diz venha, e nós viemos. Lançamos a rede do outro lado do barco, mesmo quando alguns de nós pensam que não haverá pesca. Mas essa obediência pode ser frutífera de maneiras que não imaginamos”, assinalou.
Radcliffe explicou depois que, ao contrário do que ele próprio chegou a pensar, o grande desafio do Sínodo não é “superar a oposição venenosa entre tradicionalistas e progressistas”. O desafio fundamental é que a Igreja abrace “todas as culturas diversas do nosso mundo”. “Como podemos puxar a rede com os seus peixes de todas as culturas do mundo? Como pode a rede não se partir?”, questionou.
E deu pistas para as respostas. “Antes de mais, vamos reconhecer que precisamos uns dos outros se quisermos ser católicos. As diversas culturas reunidas nesta Assembleia oferecem cura umas às outras, desafiam os preconceitos umas das outras e convocam umas às outras para uma compreensão mais profunda do amor”.
“Ousaremos confiar uns nos outros, apesar de algumas falhas?”
Timothy Radcliffe regressou depois à imagem da rede para lembrar que esta é feita de “buracos vazios ligados por cordas. Espaços e laços”. Do mesmo modo, “quando as culturas se encontram, deve permanecer um espaço entre elas. Nenhuma deve devorar a outra, como está a acontecer com a globalização do consumismo”, alertou. E assim terminou a sua primeira meditação, pedindo “que Deus abençoe este sínodo com tais encontros culturais amorosos, nos quais os dois se tornam um, mas permanecem distintos. Nenhuma cultura pode dominar”.
Até porque, lembrou ainda, Jesus também não fazia parte de uma cultura dominante. “Então, vamos ouvir com atenção aguda aqueles que são crucificados hoje pelos poderes imperiais de nosso tempo. Vamos ouvir com humildade uns aos outros”, aconselhou, depois de no primeiro dia de retiro ter também insistido na importância da escuta.
E não apenas ouvir, mas confiar, pediu o pregador dominicano na segunda meditação do dia. Porque “a Igreja só se tornará uma comunidade confiável se corrermos o risco de confiar uns nos outros, mesmo que tenhamos sido feridos”, defendeu, dando o exemplo da “angústia e raiva” que o documento Fiducia Supplicans provocou “entre muitos bispos ao redor do mundo”. “Alguns membros deste Sínodo sentiram-se traídos”, afirmou Radcliffe, insistindo: “Ousaremos confiar uns nos outros, apesar de algumas falhas? Este Sínodo depende disso”.
E referiu-se depois à falta de confiança de tantos católicos na Igreja. “Milhões não confiam mais em nós e com razão. Precisamos de construir confiança novamente, começando uns com os outros nesta assembleia”, afirmou o padre dominicano.
E centrando-se no papel dos padres, que constituem a larga maioria dos participantes na assembleia sinodal, lembrou por fim que estes são chamados à amizade, à responsabilidade e à transparência. “Uma falha de transparência e responsabilidade corrompe o próprio coração da identidade sacerdotal”, pelo que “não pode haver encobrimento”, defendeu. “Não se espera que confessemos abertamente todos os nossos pecados, mas pelo menos não sejamos hipócritas. O Povo de Deus é rápido a perdoar tudo, exceto a hipocrisia”, avisou.









