Visita guiada na exposição "Rosarium"

O soldado morto, o Cristo jacente, a Guerra Colonial e Fátima

| 30 Abr 2024

Clara Menéres, escultura, arte, Guerra colonial, soldado, Fátima, Fernando Pessoa

Jaz Morto e Arrefece o Menino de Sua Mãe, escultura de Clara Menéres (1973): Fátima foi também uma “manifestação silenciosa” contra a Guerra Colonial. Foto © António Marujo77MARGENS.

Um soldado morto e ainda fardado, como um Cristo jacente, uma escultura hiper-realista da autoria de Clara Menéres, intitulada Jaz morto e arrefece o menino de sua mãe, uma “manifestação silenciosa” contra a Guerra Colonial e pela paz que muitos soldados iam pedir a Fátima. Este é o mote para uma visita guiada e temática à exposição Rosarium, que se encontra patente no piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima. Será às 21h15 desta quarta-feira, 1 de Maio, sob orientação de Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário, que falará sobre Fátima e a guerra colonial, a partir da escultura da artista que morreu em 10 de Maio de 2018 e que leva o título do verso de Fernando Pessoa.

A obra da escultora portuguesa foi apresentada no final de 1973 e integra o acervo do Museu do Santuário de Fátima, que, numa nota de imprensa, a descreve como “um dos mais notáveis momentos artísticos do Portugal contemporâneo, não apenas por ser a primeira escultura hiper-realista do país, mas sobretudo por se constituir verdadeiro e corajoso manifesto político, testemunhando como esta peça escultórica se torna paradigma da sempre presente relação entre arte e política”.

A peça esteve exposta pela primeira vez na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), em Dezembro de 1973. Na altura, a instituição hesitou expô-la: já tinha sido encerrada pelo regime do Estado Novo por causa de outras manifestações artísticas e a escultura de Menéres retratando um soldado português morto na Guerra Colonial era mais um manifesto político contra o conflito. “O regime escondia os cadáveres dos soldados” que morriam em Angola, Moçambique ou Guiné-Bissau e que eram descarregados às escondidas quando chegavam a Portugal, explicava Marco Daniel Duarte há dias, numa visita organizada para um grupo de jornalistas, durante as jornadas de comunicação do santuário.

Considerando a escultura uma representação da “manifestação silenciosa” de muitas pessoas contra a guerra, que muitos soldados iam fazer a Fátima, Marco Daniel diz que a escultura de Clara Menéres manifesta “o contrário da política do regime”.

“A análise da peça a partir do plano iconológico mostra-a inovadora, mas também herdeira de uma erudita árvore icónica, cujos ramos radicam em arquétipos antropológicos ligados à morte do inocente de que já Fernando Pessoa dava conta quando escreve O Menino de Sua Mãe, título de que a autora se apropria para sublinhar, ainda mais, a dramaturgia da peça”, lê-se na nota do Museu do Santuário de Fátima.

O facto de em Fátima terem convergido muitos desejos de paz está presente também nas mensagens arquivadas no Correio de Nossa Senhora, que já ultrapassa oito milhões de mensagens de todo o género – cartas, desenhos, “ramalhetes espirituais”, pensamentos ou frases breves, etc. – que ali estão guardados sobretudo desde os anos 1950. O tema da paz e do anseio do fim das guerras, presente desde o início dos acontecimentos de 1917, é também um tema frequente nessas mensagens, sobretudo durante os anos da Guerra Colonial [ver texto da reportagem no 7MARGENS].

A escultura de Clara Menéres será o centro desta primeira visita temática guiada à exposição Rosarium: Alegria e Luz, Dor e Glória”. Patente o piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade, a mostra tem entrada livre e pode ser vista até ao próximo mês de outubro, das 9h às 12h30 e das 14h às 17h30. Segundo os serviços de comunicação do Santuário de Fátima, desde a sua inauguração, em novembro de 2022, a exposição já foi visitada por mais de 260 mil pessoas.

Texto com o contributo de Juliana Batista – Fátima Missionária/parceria 7MARGENS.

 

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