
” …os países de acolhimento não garantem passagens seguras para a Europa e, neste caso, dentro da própria Europa“.Refugiados cristãos sírios a chegar à Grécia. Foto © Paul Jeffrey/WCC-CMI
O mundo chora mais uma morte de um refugiado, uma morte sem sentido, uma morte não necessária, apenas porque os países de acolhimento não garantem passagens seguras para a Europa e, neste caso, dentro da própria Europa.
Esta é a carta escrita pelos amigos de um jovem que partiu para Deus e que estão na mesma situação em que ele se encontrava: na fronteira em Calais (França), esperando a oportunidade de passar, através do Canal da Mancha (em barcos ou camiões), para o Reino Unido, para aí pedirem asilo.
A 19 de Novembro de 2020, na autoestrada A16, um jovem sudanês de 20 anos, perdeu a vida e os seus sonhos. Ele era nosso compatriota, irmão, amigo.
Morreu atropelado por um carro enquanto tentava fugir do gás policial pela parte de trás do camião, veículo em que se encontrava para cumprir o desejo de chegar a Inglaterra o mais rapidamente possível. Tal como os amigos do seu país, Mohamed deixou a sua família presa no campo de refugiados de Darfur, no Sudão, e tentou com bravura a sua sorte na Europa. Procurar asilo em França, quando todos os seus compatriotas se sentem aí rejeitados, era inimaginável para ele. Trilhou assim um destino que se veio a tornar triste.
Mohamed Khamisse Zakaria é chorado pelos seus pais no Sudão e por nós, seus amigos, aqui na fronteira com o Reino Unido. Tivemos de contactar os seus pais para os informar da sua morte, ouvimos o desespero da sua mãe. As associações estão do nosso lado. Mohamed uniu-nos. Todos nós somos habitados pelo mesmo desejo de viver o sonho que era o seu.
Os seus 20 anos de vida gritam no nosso coração, nas nossas consciências e na consciência da humanidade. Eis o eco do nosso grito, dos exilados em Calais:
“Não sabemos o que fazer, gostaríamos de entrar legalmente no Reino Unido, sonhamos com uma vida digna, humana. As circunstâncias enfraquecem-nos, mas os nossos corações mantêm-se fortes e a esperança impele-nos a atravessar fronteiras.
“Vocês sabem-no bem, o nosso país conhece a guerra e a injustiça dos governos. Vocês sabem que estamos aqui por necessidade depois de termos passado por tanto sofrimento para aqui chegar. Que a polícia e o governo percebam: por que nos perseguem na autoestrada se detetores e agentes de segurança, com os seus cães, passam a pente fino todos os camiões aquando da entrada em Inglaterra?”
Oh Ausente, tão Presente
Damos Graças à tua Voz, à Grandeza da tua Alma
O Sopro de teus lábios vem até nós,
Das nossas mãos nasceram estas linhas
Preenchidas com as Cores da Liberdade, da Paz e da Justiça.
Os companheiros de estrada do Mohamed
Catarina Sá Couto é missionária leiga da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, “jovem líder” da Carta da Terra e representante em Portugal dos Green Anglicans – Rede Lusófona









