
Luís Miguel Cintra, apesar da doença, mantém uma visão de esperança. Foto © Luis Santos
Com 50 anos ininterruptos de palco e 72 de vida, sente-se animado pela “vontade de continuar”. Apesar do Parkinson que sorrateiramente o foi surpreendendo e o levou a deixar de atuar. Porque o corpo já não respondia nem com a qualidade nem com a presteza que entende serem as exigências do trabalho em cena. Prémio Pessoa em 2005 e prémio Árvore da Vida, da Pastoral da Cultura da Igreja Católica, em 2017, continua a intervir, a dar entrevistas, a repassar os documentos que pontuam a sua vida de ator e dramaturgo, a pensar e sonhar os desafios do teatro… e da vida.
Luís Miguel Cintra – pois é dele que falamos – tem agora mais tempo para olhar para os vestígios e marcas que pontuaram uma vida que passou “muito depressa”, sem deixar o tempo para a ir pensando. É agora, um ator fora do placo. “O que significa um compromisso com a verdade e um ódio visceral à mentira. Um ator é tanto melhor quanto mais for capaz de se expor na sua verdade perante as outras pessoas” – propõe.
A revista E, do Expresso, deste fim-de-semana traz em várias páginas a súmula de mais de duas horas de conversa com a jornalista Luciana Leiderfarb, com as imagens da objetiva do repórter António Pedro Ferreira. Destaca-se dela não só uma grande personalidade do teatro, mas também uma pessoa de enorme sensibilidade e riqueza humanas (acesso reservado a assinantes).
A doença, que se foi instalando, redundou naquilo que ele chama “um estreitamento de via”, que o deixou cada vez mais circunscrito à voz e ao olhar. Dessa via estreita, onde não se pode mover tão rapidamente como quereria, vê, apesar de tudo, o mundo sem desespero e, pelo contrário, com esperança. A “perspetiva cristã” que o habita leva-o a acreditar que não vem aí o apocalipse. Nunca os desenvolvimentos da História nos salvaram “dos trambolhões e dos erros”, nota. À pandemia, “não podemos reagir (…) fechando-nos no nosso destino individual, cada vez mais protegido dos perigos. Temos, pelo contrário, de nos juntar a outros na perigosa tarefa de reformar o mundo”.
Heranças: amor à liberdade e entrega total

Luís Miguel Cintra recebeu o prémio Árvore da Vida em 2017. Foto @SNPC
Luís Miguel Cintra conta, nesta entrevista, um pouco do seu itinerário religioso e cristão. Nota ter herdado (e seguido) do pai “o amor à liberdade, a honestidade consigo próprio” e, da mãe, “a entrega total e o entusiasmo face a todas as coisas”. Por achar que o filho aos 10 ou 11 anos não podia ter a noção do que significava fazer a profissão de fé, o pai só o deixou fazê-la aos 15. E com alguma ironia acrescenta o ator: “Se não tivesse tido esta educação religiosa, não me teria zangado com a Igreja como me zanguei”. E a zanga ficou a dever-se a ele, filho, ter achado que a Igreja não foi séria no modo como (não) valorizou como confessável o que ele um dia quis confessar. O confessor, achando que a matéria não tinha qualquer importância, respondeu-lhe: “Você tem uma ideia demasiado feminina de Deus.” O rapaz não podia entender esse tipo de comentários e afastou-se. Mas, acrescenta, sempre sentiu “necessidade de ter uma vida com uma componente espiritual importante”. Uma reacção sua a um gesto do pai, na missa de corpo presente do irmão, que vem descrita na entrevista, fê-lo voltar a abrir-se à reconciliação.
O encontro com o então padre Tolentino Mendonça, hoje cardeal, que começou com um episódio de leitura de poemas dele, foi também parte importante do processo de aproximação. De resto, o ator acabou convidado a prefaciar o livro Um Deus que Dança – Itinerários para a Oração, de Tolentino Mendonça. Neste processo, passou a frequentar as celebrações dominicais: no Mosteiro do Lumiar, das Monjas Dominicanas, de quem se tornou amigo, e na Capela do Rato, onde passou a ler o Evangelho, “empurrado pelo Tolentino”, diz ele, apesar de isso não ser não estar previsto nas normas.
Hoje, o que o inquieta e deixa desconcertado é “o pensamento utilitário e sem nuances”, em que “as coisas são brancas ou pretas”, em que não há cinzentos”.
No teatro, Luís Miguel Cinta sonha com “o regresso a uma relação pessoalizada com o espectador”. “A ideia de fazer espetáculos para salas muito grandes onde a voz chega às pessoas através do microfone limita as possibilidades do ator e não tem nada a ver com teatro”.
Para ele, o Papa Francisco é “o maior político que a Humanidade tem neste momento – e isso indica uma alteração profunda”. “Talvez ainda não nos saibamos mover dentro dessa mudança”, observa.
A doença que o afeta fá-lo “tomar mais consciência do desperdício que é a vida de cada pessoa”. E remata: “É como se cada coisa que vivo tivesse um valor superior. Isso leva-me a ter vontade de me reconciliar com pessoas com quem me zanguei. O perdão torna-se mais importante”.









