Nas margens da filosofia (XXXVI)

O telemóvel como “instrumento absoluto”

| 13 Ago 2021

Sem uma compreensão da gramática dos meios de comunicação, é impossível ter esperança de se atingir uma consciência contemporânea do mundo em que vivemos.

Marshall Mc Luhan[1]

“A cultura do livro, dominante durante séculos, apelava à reflexão isolada mas Mc Luhan situou-se já no mundo do electrónico, um domínio onde imperam a imediatez, a globalização e a tribalização”. Foto © Camilo Jimenez / Unsplash

 

No século passado, Marshall Mc Luhan debruçou-se sobre os meios de comunicação. As suas teses inovadoras podem resumir-se numa frase lapidar que recorrentemente usou: “o meio é a mensagem” (the medium is the message).[2] Para este filósofo canadiano, os diferentes meios de comunicação eram extensões das capacidades humanas e embora as suas referências se circunscrevessem a jornais, filmes, telefones, rádio e televisão, a actualidade das suas observações continua a aplicar-se ao nosso mundo mediático onde irromperam outro tipo de mensagens, veiculadas por aparelhos muito mais sofisticados do que aqueles a que o autor se referira. Estudioso dos diferentes tipos de linguagem, Mc Luhan analisou pormenorizadamente os suportes materiais em que estes se processavam. Daí a sua atenção ao gesto, à palavra, à escrita, à imprensa e, de um modo geral, àquilo que no seu tempo era designado como media (meios de comunicação). Interessou-lhe sobretudo a literacia televisiva e o impacto que ela teve nas alterações da nossa vida. Tendo morrido em 1981, muito se passou entretanto no que respeita a inovações tecnológicas nos meios de comunicação. Mas inegavelmente que na sua obra há uma dimensão profética, especialmente evidente no seu livro Mutations onde sustenta que a tecnologia electrónica irá modelar o futuro da educação, prevendo mesmo que a educação escolar não teria necessariamente de ocorrer numa sala de aula.

A cultura do livro, dominante durante séculos, apelava à reflexão isolada mas Mc Luhan situou-se já no mundo do electrónico, um domínio onde imperam a imediatez, a globalização e a tribalização – para ele a humanidade transformara-se numa tribo em que todos participam na vida e nas acções de cada um.

As teses inovadoras de Mc Luhan fazem hoje parte do mundo em que vivemos, ou seja do regresso em força do Big Brother orwelliano no qual o uso do telemóvel ocupa um lugar central, obrigando-nos a uma disponibilidade a todas as horas, numa ligação permanente impeditiva de quaisquer ausências e adiamentos. O que levou o filósofo italiano Maurizio Ferraris a classificar este objecto como “instrumento absoluto.”[3]

Na verdade, ele hoje é o nosso duplo pois nele se integram partes essenciais da nossa memória, a identificação dos nossos contactos, o relato das nossas necessidades quotidianas. A perda ou extravio de um telemóvel representa o ruir do nosso mundo e das nossas seguranças, deixando-nos sem chão e sem referências. Muito mais do que um instrumento para falarmos uns com os outros –  a função a que nos habituara o telefone fixo – este novo objecto tornou-se imprescindível pelas suas múltiplas funções que de longe ultrapassam a comunicação através da fala.

De facto, ele é simultaneamente um instrumento de escrita, de envio de mensagens, de fotografia, de pesquisa, de aconselhamento, de organização e de diferentes tipos de entretenimento. Através dele podemos ouvir música, calcular, encontrar locais, participar em conferências, marcar consultas e viagens, fazer compras, frequentar as múltiplas redes sociais. Neste objecto, ridiculamente pequeno para as funções que detém, concentram-se uma quantidade de actividades que há anos nos levariam a utilizar diferentes meios de comunicação, com a consequente perda de tempo que tal dispersão provocava. Por isso constatamos a sua inegável ajuda na resolução de problemas de toda a ordem, impondo-se hoje como um instrumento de poder.

Curiosamente, com o uso permanente do telemóvel houve um regresso à escrita. Hoje as pessoas recomeçaram a escrever. E fazem-no na maior parte das vezes em mensagens mal construídas, acompanhadas por imagens significativas para enfatizar os pensamentos incompletos. Assistimos à invenção de uma nova grafia a nível de palavras, expressões e imagens. Os novos signos (likes, emojis, etc.) surgem como sinais de presença, reveladores da nossa adesão. Cultiva-se uma nova oralidade e o clássico “está lá”? é substituído pela pergunta “Onde estás?”, como se nos fosse imprescindível situar geograficamente quem nos contacta.

Há uma inegável aproximação das pessoas pois um mero clic permite-nos falar para a China ou para o Pólo Norte. Mas simultaneamente agrava-se o fosso entre as gerações pois a exigência de destreza técnica e a constante abertura à novidade cavam ainda mais o fosso entre novos e velhos, dada a dificuldade destes no acompanhamento da corrida e no esforço exigido pelas constantes alterações.

Confesso a minha relação ambivalente com o telemóvel. Inegavelmente que reconheço as suas vantagens e delas usufruo enquanto me é possível acompanhá-las. Nesse campo sou devedora da paciência dos meus netos que constantemente me explicam o funcionamento das diferentes redes sociais, resolvendo sem protestos as consequências das minhas muitas asneiras. Note-se que a vertigem que sinto perante as constantes inovações não anula a fruição que experimento quando as utilizo. No caso do telemóvel lembro sem saudades o esforço que era dar notícias a partir dos sítios longínquos por onde viajei. E apesar de ter consciência de que apenas recorro a uma pequena parte das suas funções, aceito sem reservas a classificação de Maurizio Ferraris ao designar o telemóvel como um “instrumento absoluto.”

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.

 

[1] Marshall Mc Luhan, Explorations in Communication, trad. portuguesa Revolução na Comunicação, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1980, p.16
[2] Marshall Mc Luhan, Understanding Media:The Extensions of Man, Harper, 1964.
[3] Maurizio Ferraris, T’es où? Ontologie du téléphone mobile, Paris, Albin Michel, 2006, p. 83.

 

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