Tive o gosto de, há um tempo, estar presente num encontro inter-religioso de jovens. Acalentou-me ver naquele grupo, ainda que pequeno, a possibilidade de diálogo entre pessoas de diferentes origens e diferentes crenças religiosas, e, principalmente, a demonstração de interesse por escutar o outro. Pude observar a surpresa com que muitos deles escutaram as visões diversas das suas e, por outro lado, encontraram tantas semelhanças nos seus valores mais profundos.
E, contudo, no momento da partilha de um momento artístico de cada religião, apercebi-me do desconforto de alguma parte do público, perante um cântico em Pali cantado pelo jovem representante do Budismo.
Após um momento de surpresa algo entristecida, pude facilmente conectar-me com aquele sentimento.

Temor do desconhecido. Foto © Sadaham Yathra / Pexels
Na verdade, todos nós, perante o desconhecido, sentimos algum tipo de temor, e o instinto, explica-nos a Psicologia, leva-nos a um daqueles movimentos de «fight or flee», luta ou fuga perante o que sentimos como uma ameaça ao nosso mundo conhecido e seguro.
A maior parte das culturas tende a transmitir aquela que é a sua verdade absoluta e nada mais que a verdade e tudo o que esteja para lá dessas baias consistirá, necessariamente, na perdição. Nesse sentido, é natural que, de facto, a apreensão, ou até mesmo o medo tome conta de nós.
Desconhecendo os princípios básicos dos ensinamentos de Siddharta Gautama, talvez tenham apenas vislumbrado uma daquelas imagens de um Buda gordo e prazeiroso, que corresponde ao imaginário cultural de determinadas áreas da Ásia que associam a gordura à prosperidade, e se encontram no extremo oposto daquelas que encontramos em locais como a Tailândia ou o Sri Lanka e que, essas sim, se conectam com a ética que ensinou e praticou. E é possível, de facto, que estejam a milhas mentais da sua verdadeira proposta e da sua vida 500 a.C.
Foi assim que, conectando-me com essa memória de temor que também eu habitei há décadas, optei pela única aproximação possível e plausível para quem, de verdade, deseja o bem de todos os seres, tal como nos propôs o Buda. E acabei a partilhar a tradução para português quotidiano daquelas palavras em Pali, que se julga ser uma língua aproximada da que terá falado Siddharta, tal como se proferíssemos uma oração cristã em latim, ou mesmo aramaico. A oração é extensa, mas deixo aqui apenas as primeiras linhas do “Cântico do Amor e Compaixão”, o Karanya Metta Sutta: “Eis o que se deve fazer, para cultivar a Bondade e seguir a via da Paz”. Acredito que terá sido suficiente.
*Buda significa aquele que atinge a iluminação, aquele que desperta, em Sânscrito, uma das mais antigas línguas do mundo.
Margarida Rocha e Melo é jornalista agora dedicada ao ensino; budista, mantém o respeito pela sua herança cristã, esperando poder contribuir para o encontro de religiões, de mentes e de seres humanos.










