O tempo da Visitação (Pré-publicação do novo livro de Tomáš Halík)

| 5 Mar 21

Durante o tempo da Quaresma e Páscoa de 2020, já com a pandemia da covid-19 a assolar o mundo e também a República Checa, o padre Tomáš Halík, responsável da paróquia universitária de Praga e um dos mais importantes pensadores católicos contemporâneos, foi gravando as homilias relativas aos textos bíblicos da liturgia católica dos domingos e datas festivas. Essas homilias – apenas gravadas em vídeo para transmissão diferida, pelas razões que o próprio explica neste texto – eram depois colocadas na página da paróquia universitária. Do conjunto, resultou o livro O Tempo das Igrejas Vazias, que a Paulinas Editora publica agora em Portugal. O 7MARGENS apresenta, em pré-publicação, excertos do texto de abertura.

 

Começava a Quaresma de 2020. Passara a grande parte da Quarta-feira de Cinzas no avião; encontrava-me de regresso do Boston College, universidade jesuíta norte-americana, onde tinha feito, em janeiro e fevereiro, um ciclo de palestras sobre o tema “Identidade do Cristianismo na era pós-religiosa e pós-secular”, por outras palavras: num mundo em rápida mudança, o que faz do Cristianismo o Cristianismo? Menos de duas horas depois de aterrar em Praga encontrava-me no altar da Igreja de São Salvador a presidir à Missa que nos introduz no Ciclo Pascal. Naquele momento ainda não suspeitava quão rápidas e penetrantes iriam ser as mudanças que nas próximas semanas atingiriam todo o nosso Planeta nem previa que, neste contexto, a questão da identidade do Cristianismo iria tornar-se muito concreta e premente.

Desde o III Domingo da Quaresma até à festa de Pentecostes, a nossa igreja, que durante décadas se enchia até ao último lugar todos os domingos à noite, ficou vazia e fechada. Durante todo o tempo da quarentena colocava-me diante dos bancos vazios e olhava simplesmente para a lente da câmara. Para cada domingo e dia de festa gravei homilias e reflexões, que apresento neste livro apenas ligeiramente modificadas. (…)

Há muitos anos que a paróquia universitária de Praga está ao serviço de uma vasta comunidade de crentes e buscadores espirituais, para além das fronteiras de Igrejas e de Estados (1), através da disponibilização de homilias na internet, da publicação de livros de “autores de São Salvador” (2) e da presença dos membros da nossa equipa nos meios de comunicação social. A partir daqui configura-se um dos rostos mais marcantes do Cristianismo checo contemporâneo.  A paróquia universitária transformou-se progressivamente numa oficina e escola intelectual e espiritual, num lugar de diálogo com a ciência, a filosofia e a arte e num lugar de frutuosos encontros ecuménicos e inter-religiosos (3).  Nos trinta anos que se seguiram à queda do regime comunista, esta comunidade paroquial representou para muitos a porta de entrada na Igreja Católica (…).

O segredo da vitalidade desta comunidade paroquial, no entanto, não está, de todo, apenas nas homilias, como tentei exprimir na homilia final deste ciclo, a do Pentecostes. Consiste, sobretudo, nos esforços de unir três pilares do serviço pastoral: primeiro, cultivar uma fé refletida capaz de um diálogo intelectual com uma sociedade predominantemente agnóstica, “apateística”, anticlerical (contudo não ateísta); segundo, cultivar um constante crescimento pessoal espiritual, uma cultura de uma abordagem contemplativa à vida; terceiro, cultivar o compromisso dos cristãos na sociedade civil.

 

“A verdadeira chave da pastoral é o aprofundamento contínuo da vida espiritual pessoal.” Foto: Oração da fraternidade de Taizé em Mymensingh (Bangladesh), no Natal 2020, captada de transmissão vídeo.

 

O primeiro pilar (que o papa Bento XVI tanto enfatizou durante a sua visita pastoral à República Checa) é sustentado por cursos de longa duração sobre os fundamentos da fé, por homilias, por palestras e serões de debates.

Com o passar dos anos, torna-se claro, no entanto, que a verdadeira área-chave da pastoral é o segundo pilar: o aprofundamento contínuo da vida espiritual pessoal. Isto é fomentado por encontros regulares de meditação, ao serão, por acompanhamento espiritual pessoal e, sobretudo, por um rico programa de exercícios espirituais e cursos de contemplação (…).

Como terceiro pilar da existência cristã, considero a união entre ação e contemplação. Não queremos constituir comunidades fechadas, à maneira de guetos ou de “Igrejas como sociedades paralelas” (como aconselha, por exemplo, Rod Dreher no seu popular livro A opção beneditina (4), ou como acontece nalguns novos movimentos espirituais da Igreja fechados em si mesmos (5). Jovens cristãos da nossa comunidade paroquial tomam parte na vida da sociedade civil, comprometem-se especialmente em iniciativas sobre a ecologia, formação e cultura ou em movimentos de defesa da liberdade e da democracia, contra o populismo, o nacionalismo, a xenofobia (como o movimento Um Milhão de Momentos pela Democracia (6), bem como em projetos de ajuda aos refugiados ou aos países em vias de desenvolvimento. Foi precisamente durante a epidemia do coronavírus que muitos jovens cristãos, juntamente com outros jovens, aderiram a grupos de voluntariado em instituições de cuidados de saúde e no cuidado de idosos e outros grupos de risco.

Enquanto, no nosso país, durante a crise da pandemia, as autoridades da Igreja ficaram, em grande parte, em silêncio e os líderes do Estado, cometeram uma série de erros (7), a sociedade
civil, ao nível dos municípios e de iniciativas civis e de pequenos grupos de leigos cristãos, comprovou a sua vitalidade e eficácia. Da parte da hierarquia não se ouviu uma voz comum dirigida à população, que fosse testemunho de sabedoria pastoral, da responsabilidade e da preocupação com a sociedade no seu todo. Os pronunciamentos oficiais da Igreja exprimiram-se, como é típico, sobretudo sobre o seu interesse no “funcionamento da Igreja”. Por exemplo, durante o tempo das igrejas fechadas, foi aconselhado, sobretudo, assistir às missas através dos meios de comunicação da Igreja. Pelo menos numa diocese, os esquemas das liturgias domésticas foram acompanhados com uma advertência severa de que os leigos não tentassem interpretar o Evangelho ou acrescentar às leituras bíblicas comentários próprios. Contudo, foi precisamente a reflexão em comum sobre o Evangelho, feita nas famílias, durante as liturgias domésticas, que se revelou um dos frutos espirituais mais preciosos desse tempo: a coragem de ultrapassar o medo clerical e a própria timidez e de expressar e partilhar a própria experiência de fé, ajudou a descobrir os carismas dos mais próximos, assim como os tesouros da Escritura, tantas vezes sepultados sob a rotina das frases eclesiásticas.

 

Papa Francisco, durante a Oração pela Humanidade, na Praça de São Pedro.

“A oração em frente à Basílica de São Pedro, para a qual o Papa caminhou sozinho, à chuva, pela praça vazia, marcou-me mais do que as missas pontificais. Foto: Francisco durante a Oração pela Humanidade, a 27 de Março de 2020, retirada da transmissão vídeo.

 

Os meios de comunicação social cristãos e as redes sociais de muitas paróquias propunham, com abundância, as transmissões das missas. O ciberespaço na República Checa de repente transbordou de temas religiosos e emissões religiosas com índices recorde de audiência. Eu próprio assisti com emoção às transmissões das missas pascais do papa Francisco e fiquei grato por poder, pelo menos desta forma, olhar para o seu rosto, marcado pela dor e compaixão. Contudo, a transmissão da oração em frente à Basílica de São Pedro (em 27 de março de 2020), para a qual o Papa caminhou completamente sozinho, à chuva, pela praça vazia, marcou-me mais do que as missas pontificais. Penso que esta imagem ficará não só na minha memória, mas também na memória histórica de toda a Igreja. Fiquei grato ao Papa que, durante uma das missas transmitidas online, admitiu estar consciente da tentação de substituir a presença real dos fiéis na celebração da Eucaristia pelo consumo das missas no ecrã da televisão.

Na nossa paróquia não fizemos transmissões das missas; pelo contrário, exprimi várias vezes a minha convicção de que a presença real de Cristo na Eucaristia deve ser acompanhada pela presença real dos fiéis à volta da mesa do banquete sagrado. As redes sociais são uma ajuda bem-vinda na transmissão de dados e informações, entre as quais se incluem as tomadas de posição da Igreja, inclusive as homilias e as catequeses; mas não podem proporcionar uma celebração, muito menos a celebração da Eucaristia. O banquete não pode ser substituído por um “banquete à distância”. A Eucaristia é a fonte vivificante da Igreja, enquanto comunidade, é um meio de comunicação não só com Deus, mas também com os outros: a celebração da Eucaristia é um banquete em que a presença real de Cristo no sacramento está ligada à presença real (e não virtual) dos fiéis. É na Eucaristia que somos recebidos por Cristo e, ao mesmo tempo, recebemos os nossos irmãos e é por eles e neles que recebemos o próprio Cristo. (…)

Na nossa paróquia, decidimos aceitar com seriedade e com espírito de penitência este jejum eucarístico, imposto pelas circunstâncias; aceitá-lo como expressão da dor pela divisão das Igrejas e do anseio pela unidade dos cristãos a uma mesa comum; aceitá-lo também como expressão de solidariedade com muitos cristãos em situações ditas irregulares (por exemplo, aqueles que foram abandonados pelo parceiro e encontraram uma solução para a sua situação pessoal e familiar num segundo casamento), a quem o direito canónico atual não permite receber o auxílio da Eucaristia. Ao mesmo tempo, foi uma expressão da esperança de que a Igreja, neste tempo difícil, amadurecesse para uma maior coragem e generosidade no âmbito da aproximação ecuménica e que, no espírito da exortação apostólica Amoris laetitia, do papa Francisco, a sua atitude em relação às pessoas em situações de vida difíceis passasse do pensamento duro dos fariseus e escribas à misericórdia terapêutica e ao perdão de Jesus. Os críticos da atitude de Francisco na Amoris laetitia (8) lembram os amigos de Job, cuja atitude foi muito bem descrita por Richard Rohr: “A história de Job mostra que Deus não pode ser verdadeiramente conhecido através da teologia e o direito. […] Os amigos religiosos e conselheiros de Job têm a teoria correta, mas não têm nenhuma experiência; têm ideias sobre Deus, mas não o amor a Deus. Acreditam na sua teologia; Job acredita no Deus que eles com a sua teologia tentam descrever. Isto é uma grande diferença. O primeiro é informação, o segundo é sabedoria” (9).

 

Igreja matriz das Areias. Ferreira do Zêzere

“A ausência de celebrações públicas foi oportunidade para colocarmo questões essenciais. Foto: Igreja das Areias (Ferreira do Zêzere) vazia, durante a quarentena de Março-Abril 2020. © Arlindo Homem. 

 

A ausência de celebrações públicas foi uma oportunidade para mergulhar mais para o fundo e colocarmo-nos questões essenciais. Se para muitos católicos a ida à missa dominical era um dos principais pilares da sua identidade cristã, agora terão de se questionar sobre o que pode ser uma nova e mais profunda fonte da sua vida de fé. O que faz de um cristão um verdadeiro cristão, quando o “funcionamento da Igreja” tradicional de repente deixa de funcionar?

Será que não se cumpriu a visão do papa Francisco, na qual Cristo (que segundo as palavras da Escritura bate à nossa porta) bate desta vez no lado de dentro da porta da Igreja porque quer ir para fora? E não deveríamos nós segui-lo para além das fronteiras do nosso entendimento atual da Igreja e do Cristianismo, principalmente até ao mundo dos pobres, necessitados e marginalizados? Num ensaio (10) em que tentei, logo no início da pandemia, refletir teologicamente sobre este acontecimento, perguntava a mim mesmo se o tempo das igrejas fechadas não era um aviso profético para o futuro. Pois já há algum tempo, e não só no nosso país, as igrejas, os mosteiros e os seminários esvaziam-se ano após ano e os edifícios são fechados e vendidos pela Igreja.

Receio que, se a Igreja não levar a sério os apelos urgentes do papa Francisco por uma reforma interna, por uma viragem radical para o Evangelho, por um aprofundamento da sua teologia,
espiritualidade e prática pastoral, este tempo de igrejas vazias possa tornar-se uma imagem de advertência num futuro próximo.

As sociedades dos países pós-comunistas passaram por várias fases de secularização: uma secularização cultural “suave”, que acompanhou a modernização da maioria dos países europeus e da civilização ocidental em geral, e uma “secularização dura”, pelos regimes comunistas. Na “secularização suave”, o contexto sociocultural da religiosidade tradicional enfraquece gradualmente, a sociedade agrária rural e a vida movem-se para os centros industriais urbanos. Foi isto que aconteceu na Europa central, especialmente na República Checa. Foi possivelmente por isso que os estalinistas escolheram este país, relativamente secularizado, como campo de experimentação de uma ateização total e drástica da sociedade, da expulsão total da religião do espaço público. Mas nem sequer a “secularização dura” conseguiu em algum lugar deixar uma sociedade totalmente ateísta. (…) Após a queda do comunismo, não houve, contudo, um regresso à sociedade tradicional ou a um renascimento religioso geral, mas houve um desenvolvimento que nos aproximou da sociedade pluralista do Ocidente. Na República Checa, a Igreja desperdiçou rapidamente o capital de simpatia que tinha adquirido em toda a sociedade no limiar da nova era. Em vez de se tornar parte ativa do processo de humanização e democratização da sociedade, afogou-se em esforços pela restituição das condições anteriores, fechou-se em si mesma e, juntamente com os dissidentes doutrora, deixou aos poucos um espaço aberto que foi ocupado pelos proclamadores do fundamentalismo de mercado e da sua mão omnipotente. (…)

 

Desde os ataques de 11 de setembro de 2001, “a resistência à globalização tornou-se patente na ascensão do fundamentalismo, no populismo, no nacionalismo…” Foto © Michael Foran/ Flickr

 

Desde os atentados aos arranha-céus de Manhattan, em 11 de setembro de 2001, a resistência à globalização tornou-se patente na ascensão do fundamentalismo religioso, no populismo, no nacionalismo, na xenofobia, nas fake news e nas teorias de conspiração. O medo de um mundo complexo foi agora acentuado pelo medo de uma doença contagiosa e das suas consequências económicas e sociais. O assassínio do afroamericano George Floyd por um polícia brutal caiu neste terreno como uma faísca inflamável e desencadeou uma onda de violência e revolta em várias partes do mundo.

São os políticos populistas que tiram partido de uma atmosfera de medo e incerteza e que ganham os votos das pessoas idosas com baixo nível de instrução, em particular, não apenas nas democracias em desenvolvimento dos países pós-comunistas, mas também nos países que foram o berço da democracia moderna, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Os políticos populistas nos países pós-comunistas gostam de aproveitar-se da retórica e dos símbolos do Cristianismo e tentam corromper e domar de várias maneiras a hierarquia da Igreja Católica. Se os representantes da Igreja estabelecerem com eles diferentes tipos de alianças, prejudicam tragicamente a Igreja com esta miopia, pois os portadores do futuro destas sociedades, os jovens e as camadas com formação, em particular, começam a afastar-se da Igreja. (…)

A situação da Igreja Católica mundial faz lembrar fortemente o período que antecedeu imediatamente a Reforma, o cisma ocidental. A onda de revelações de escândalos de abusos sexuais psicológicos na Igreja, que eram tabu e foram encobertos durante muito tempo, desempenha um papel semelhante à última gota que, na Idade Média, desempenhou o escândalo com a venda das indulgências. Também então foram desvendados problemas fundamentais num fenómeno aparentemente marginal: o problema da relação entre a Igreja e o poder e da relação entre o clero e os leigos. Nos países da Europa central, um número recorde de crentes abandonou a Igreja nos últimos anos. Temos de ter consciência de que a maioria das pessoas que se afastam das Igrejas não se tornam ateus – algumas deixam-na precisamente porque levam a fé mais a sério do que a conheceram nas Igrejas.

A experiência da pandemia reforçou em mim uma opinião para a qual já me inclinava antes, ao estudar a situação religiosa atual: a secularização não consiste numa crise das certezas religiosas, mas de uma crise geral de certezas dos indivíduos de hoje, certezas religiosas e seculares. (…)

O número de pessoas que, na República Checa, dizem pertencer à Igreja Católica (e a outras Igrejas convencionais) está a diminuir há várias décadas a um ritmo tal, que, se não houver uma reforma fundamental, o número de membros ativos da Igreja ficará reduzido à escala de uma seita marginal. No entanto, não é correto considerar que a sociedade checa seja “ateísta”. O facto de muitos checos se considerarem ateus corresponde, sobretudo, a um distanciamento de um certo tipo de teísmo (o modo de apresentar a fé) e da instituição da Igreja (o anticlericalismo). O exemplo citado da paróquia universitária de Praga (e de outras paróquias e centros cristãos semelhantes) mostra claramente que a causa de um número reduzido de pessoas professar a sua pertença a uma Igreja não é a impiedade, o materialismo, o consumismo ou o liberalismo da sociedade checa, mas, antes, a incapacidade de uma grande parte da hierarquia e do clero entender a cultura e a sociedade contemporânea e de se dirigir a esta sociedade de forma compreensível e credível. (…) Durante muito tempo, considerei como única saída aquilo que o papa Bento, em particular, introduziu no coração da Igreja checa: a formação e o diálogo intelectual com a sociedade maioritariamente agnóstica. Hoje, porém, considero muito mais importante o cultivo da vida espiritual pessoal e o acompanhamento espiritual pessoal.

 

“A sociedade checa é fortemente ‘desigrejada’, mas não é ateísta.” Foto: Igreja da Mãe de Deus frente à Týn, Praga, Rep. Checa. © António Marujo

 

Nenhuma “nova evangelização” trará frutos se não for precedida por uma “pré-evangelização”, na forma de um cuidado sistemático pela cultura espiritual dos indivíduos e da sociedade, uma viragem de uma vida superficial acomodada (como “se vive” no mundo) para uma cultura de “discernimento espiritual”, responsabilidade por si próprio, pelos outros e pelo meio ambiente comum. (…)

Repito mais uma vez: a sociedade checa é fortemente “desigrejada”, mas não é ateísta. O maior número de pessoas que não pertencem às Igrejas são os “apateístas” (pessoas indiferentes à religião como a imaginam ou como a conheceram) e ainda os “buscadores espirituais”, os que creem “à sua maneira”. São pessoas que colocam a si próprias questões de cariz espiritual, mas que não encontram respostas nas Igrejas e, hoje, já nem as esperam delas. Costumam combinar elementos de diferentes religiões, “espiritualidades alternativas” ou adoram o “seu próprio deus” (12), ou ainda – como é típico na tradição intelectual checa – tentam dar uma verticalidade espiritual ao humanismo secular.(13)

A experiência da pandemia mostrou, no entanto, que em certas situações até as pessoas que eram indiferentes à religião ou que se distanciavam da “religião organizada” ficam, de repente, sensíveis a temas espirituais e têm interesse em saber o que os cristãos dizem nesses momentos. As suas atitudes de indiferença e distanciamento não são imutáveis. (…)

De que modo é que os cristãos responderam à situação provocada pela crise da pandemia do coronavírus, na primavera de 2020?

(…) Receava que abusassem da tragédia da pandemia e começassem imediatamente a apresentá-la como um castigo de Deus, concretizando finalmente o cenário horrífico que difundiam, fruto das suas depressões e desespero – aquilo que Søren Kierkegaard chamava a “doença mortal”. Quando a fé de alguns cristãos enfraquece, ao ver que o mundo não vai na direção por eles esperada, intensifica-se a tentação de substituir o Deus do amor, da fé e da esperança por um velho vingativo que do Além persegue os seus filhos com castigos cruéis, que levariam qualquer pai a ser justamente julgado. Esses crentes fazem de Deus um braço estendido da sua vingança, castigam aqueles que eles próprios odeiam e, precisamente, por aquilo que eles próprios condenam. Essas pregações podem ser vistas como o pecado de invocar o nome de Deus em vão.

Alguns padres passaram de mota com a hóstia numa custódia ou com relíquias pelos bairros de não-crentes, para expulsar o demónio da doença – inspirados provavelmente por conduta semelhante dos clérigos ortodoxos russos, que também usavam para esses efeitos pequenos aviões – demonstrando, teatralmente, esse retrocesso do Cristianismo para o mundo arcaico da magia, incapazes de distinguir um ato de fé da manipulação blasfema com o sagrado. Um bispo polaco, por sua vez, recusou-se a cumprir as orientações sanitárias ao distribuir a Eucaristia, referindo que o “Senhor Jesus não pode ser contagioso”; aparentemente nunca compreendeu a doutrina tradicional católica sobre a transubstanciação, a diferença entre substantia e accidens, entre o aspeto espiritual e material da Eucaristia. Revela-se que são precisamente os “tradicionalistas” que, muitas vezes, sofrem de ignorância da tradição que constantemente invocam.

 

Tomáš Halík

“Não fui o único a sentir a presença da Páscoa cristã na sociedade checa, paradoxalmente, muito mais intensamente do que nunca.” Foto: Tomáš Halík em entrevista ao 7Margens, em dezembro de 2018. Foto © Maria Wilton/Arquivo 7MARGENS.

 

Penso que não fui o único a sentir, durante a ausência de celebrações públicas, a presença da Páscoa cristã na sociedade checa, paradoxalmente, muito mais intensamente do que nunca. (…) As portas fechadas das igrejas lembraram que outras vezes, durante a Páscoa, acontecia algo atrás delas – e que aquilo que foi negado este ano a uma parte da sociedade, aos cristãos praticantes, afeta de alguma forma também todos os outros. (…)

No tempo da quarentena, quando escrevia estas homilias e as pregava para a câmara diante dos bancos vazios (15), tive mais tempo para pensar sobre o mundo, sobre Deus e sobre mim próprio. Tive de aceitar a possibilidade de que, pertencendo ao grupo de risco de idosos, também eu pudesse ficar infetado com o vírus, adoecer e eventualmente morrer. [De facto, o padre Halík contraiu covid-19, mas ficou curado.] Este pensamento sobre a possibilidade de uma morte iminente não provocou em mim medo, mas, sim, uma necessidade de recapitular, de prestar contas. Também nestas homilias se revelava a necessidade de estar consciente em que direção se move a nossa paróquia, a minha teologia, a minha vida, o que constitui, na verdade, o âmago da minha fé: o que significa para mim ser cristão.

Redescobri para mim o mistério da Páscoa, o mistério da morte e da ressurreição: algo tem de morrer (também na Igreja, em nós, na nossa fé) para que a ressurreição possa acontecer – e a ressurreição não é um regresso, mas, sim, uma transformação profunda. Este pensamento acompanhou-me durante todo este tempo estranho (e continua a viver em mim), por isso não é de se admirar que represente um tema recorrente e central de muitas das minhas alocuções.

Uma das pedras angulares da minha teologia é a ideia de ressurectio continua (“ressurreição contínua”), a continuação da vitória de Jesus sobre a morte, o medo e a culpa como um rio vivificante, que em certos momentos irrompe das profundezas até à superfície, nas histórias pessoais dos crentes e na história da Igreja em momentos de conversões e reformas, anunciados pelas crises e provações.

O tempo em que parou, por alguns momentos, a azáfama, o saltitar de uma tarefa para outra, tornou-se para mim o “tempo da visitação”. O Chronos, o tempo ritmado pelo poder dos ponteiros do relógio e de um emaranhado de anotações numa agenda sobrecarregada, tornou-se de repente num tempo de oportunidade – Kairós. Até a “introdução à kairologia”, na qual trabalho já há vários anos, ganhou novos impulsos.

Neste livro de homilias e reflexões apresento agora aos leitores alguns ecos e frutos da espantosa primavera de 2020.

 

Notas
(incluem-se apenas as relativas ao excerto publicado)

1 As gravações das homilias são acompanhadas também por ouvintes na Eslováquia, por estudantes checos e eslovacos no estrangeiro, por compatriotas checos e eslovacos, principalmente nos Estados Unidos e no Canadá. Durante a crise do coronavírus, os vídeos foram legendados em polaco e inglês, pelo que o número de ouvintes estrangeiros aumentou consideravelmente.

2 Entre outros autores da paróquia universitária inclui-se o vigário paroquial Marek Orko Vácha e os membros da equipa paroquial: a carmelita Denisa Červenková, o arquiteto Norbert Schmidt e o assistente pastoral Martin Staněk.

Na igreja da paróquia universitária, o Dalai Lama, na foto, foi uma das personalidades já convidadas.

 

3 A paróquia universitária organiza já há 25 anos as Cinzas dos artistas, proporcionando um encontro do mundo da fé com a arte contemporânea. Todos os anos, durante o tempo da Quaresma e do Advento, ocorrem, no espaço barroco da igreja, intervenções artísticas. Organizamos exposições de pintores, escultores ou fotógrafos, bem como concertos, peças de teatro, noites literárias, leituras autorais, etc. Na igreja decorrem também as celebrações ecuménicas e encontros durante as meditações conjuntas e conversas com representantes de várias religiões – participou nelas, entre outros, o Dalai Lama tibetano, o abade do mosteiro budista no Monte Hiei, no Japão, com os seus monges, o imã Ammar al-Hakim, representante do Conselho Supremo Islâmico do Iraque, Bunja Takatoshi, o presidente do santuário imperial xintoísta Goou Jinja de Quioto, o rabino David Rosen de Israel, etc.

4 Cf. R. Dreher, A Opção Beneditina, Ecclesiae, 2018. Dreher recorre equivocadamente à ideia de uma “polis paralela”, difundida nos anos setenta e oitenta do século passado pelo dissidente católico checo Václav Benda. O funcionamento da Igreja é algo completamente diferente num país com regime policial totalitário e numa sociedade livre e pluralista. A incapacidade de entender esta diferença fundamental e a incapacidade de “viver sem um inimigo” leva certos círculos de católicos conservadores a confundir o Catolicismo com uma mentalidade sectária e leva também à esterilidade espiritual.

5 Verifica-se que os ambientes fechados de alguns “novos movimentos da Igreja”, muitas vezes ligados ao culto do fundador e de outros “gurus” religiosos, têm sido um solo fértil para muitos casos de abuso sexual e psicológico, sobretudo contra mulheres e jovens.

6 Um Milhão de Momentos pela Democracia é um movimento checo que organiza manifestações e apela ao primeiro-ministro Andrej Babis para encontrar uma solução para os seus conflitos de interesses ou retirar-se (N. do T.).

7 As primeiras apresentações confusas dos políticos de topo nos meios de comunicação eram certamente compreensíveis e perdoáveis, e uma série de medidas higiénicas severas e atempadas talvez possam ser retroativamente avaliadas como eficazes. O facto de o presidente Miloš Zeman, desde há muito ausente da vida pública, ter ficado invisível e inaudível durante a crise, com exceção de uns comentários infelizes, também pode ser avaliado positivamente. Manifestou-se, porém, um servilismo típico da liderança política para com a China, que exigiu expressões ostentativas de gratidão pela venda do material médico caro e muitas vezes inutilizável.

8 Tenho em mente em particular os autores da “correção filial” dirigida ao papa Francisco por quatro cardeais e um grupo de teólogos conservadores.

9 Cf. R. Rohr, Job and the Mystery of Suffering, Nova Iorque, 1996, p. 141.

10 O sinal das igrejas vazias, e, a seguir, mais dois ensaios – A revolução da misericórdia e um novo ecumenismo e Pseudorreligião da palavra F: Um exemplo da pedagogia religiosa (download grátis). Ver também no 7MARGENS.

12 Uma excelente análise deste fenómeno foi apresentada, por exemplo, pelo sociólogo Ulrich Beck no livro O Deus de cada um, Tempo Brasileiro, 2016.

13 Como exemplo, podemos citar toda a galeria de importantes intelectuais checos desde o Iluminismo tardio até Karel Čapek e Václav Havel.

15 As gravações das homilias a reflexões estão disponíveis nas páginas web da paróquia universitária.

 

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