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[Para lá da névoa, o possível, o possível... (2025)]. Foto © João Paulo Costa

[Crónica]

O tempo dos moderados

| 19/10/2025

 

Este é o tempo dos moderados.

É o tempo dos moderados resistirem à onda de extremismos e de indignações vociferais, e de permanecerem como elo efectivo de relação entre as pessoas.

É o tempo de os intelectuais moderados não fazerem do partidarismo o trampolim fácil e demagogo para as suas ideias, para o isolacionismo do pensamento, isolado de tudo e de todos.

É o tempo dos moderados sentirem o odor do país profundo, de que os privilégios urbanos ou académicos não são um dado adquirido ou garantido, pois a ilusão do sono dogmático dos direitos adquiridos é perigosa.

É o tempo dos moderados darem o seu tempo à causa pública e as suas ideias às instituições e lugares de participação cívica.

[Nos interstícios das margens, o homem moderado caminha (2025).]  Foto © João Paulo Costa

É o tempo dos moderados saírem da sua torre de marfim, sem riscos nem motivações de grande monta, onde protegidos por grandes muros ou janelas debitam umas quantas moralidades para os outros no seu sermão semanal mediático.

É o tempo dos filósofos moderados, sem filiação partidária ou sem a doença da partidarite, assumirem posições no espaço público, que fazem do pensamento a casa da linguagem, dos actos e gestos que instauram relações de verdade entre as pessoas.

Este é o tempo da moderação, de todos os moderados ainda existentes, daqueles e daquelas que procuram pacientemente a verdade das coisas, dos seres, do mundo, dos rostos, sem fanatismos nem intriguismos.

Este é o tempo dos moderados saírem à rua, às avenidas cruzadas do espaço público, de fundarem algo novo e fecundo, lugares de diálogo crítico, de presença concreta junto das realidades mais disformes ou distópicas, que carecem de apoio ou de voz para os seus problemas diários ou até questões existenciais.

[Do cume das dunas avistei a imoderação do mundo (2025)]. Foto © João Paulo Costa

Este é o tempo da moderação em tempos de radical imoderação e polarização violenta generalizada. É o tempo dos que aceitam que a realidade não é só preto e branco, é coloração, como são várias as cores das estações do ano.

É o tempo dos moderados, é o tempo da urgência de amar, como dizia o nosso poeta Eugénio de Andrade, de amar o absoluto distante e diverso de nós.

Este é o tempo dos moderados, dos que não separam o campo e a cidade, dos que não se consideram a si mesmos como os inteligentes e os outros os retardados, dos que não separam radicalmente a ecologia dos infortúnios da injustiça social, dos que cultivam a paisagem sem deixar de procurar compreender os que vivem quase só virtualmente.

É o tempo dos que procuram a dignidade para todos, dos que fazem do bem comum o verdadeiro palco da cidadania e da comunidade humana.

[Quando a oural luz moderada cresce, a imoderação vociferante decresce (2025)]. Foto © João Paulo Costa

É o tempo de voltar à realidade, ao concreto do mundo, à escola dos sentidos que nos fazem sentir e perceber que a beleza do mundo é efémera se não nos cuidarmos uns aos outros e da biodiversidade humana e natural.

É o tempo do cuidado, da preocupação pelo outro, pela causa pública, pelo bem comum, pelo equilíbrio, pela sanidade intelectual e espiritual.

É o tempo de todos os moderados saírem do exílio, das margens do mundo, para levar o centro à margem e a margem ao centro, num ritmo imparável de sístole e diástole, como a simbiose entre as ondas do mar e a areia da praia.

Este é o tempo dos moderados e da moderação, apesar destes tempos sombrios… É o tempo do encontro, do diálogo e da amizade social. Este é o tempo para fazermos algo, seja por via do pensamento ou das ideias, seja pela acção ou projectos que nos qualifiquem humanamente.

[Seres plurais, rastos anónimos chamam o teu nome (2025)]. Foto © João Paulo Costa

Este é o nosso tempo, o tempo que nos cabe deixar em herança aos vindouros. Mas o que deixaremos aos que vierem depois de nós? Este é o tempo para pensar… É o tempo do sonho, de que algo novo é possível, que o “encontro inesperado do diverso” (Llansol) é o caminho, porque diversos todos nós somos, como diverso é ainda o mundo natural, não obstante a tentativa obscurantista de homogeneização de tudo e de todas as coisas.

Este é o nosso tempo, o meu e o teu, o de todos. O que queremos ou podemos fazer nascer das ruínas deste tempo de escombros ou sombrios? Tudo, de novo. O possível, o possível, o possível, senão abafaremos, dizia o filósofo Kierkegaard.

É o tempo de dar corpo a esse grande apotegma de Jacques Elul: ‘Pensar universalmente, agir localmente’. De pensar localmente, agir universalmente, também.

Não serão os moderados já um espécime raro? Talvez, mas que ainda os há, há… É essa a nossa esperança, um resto que resiste no exílio do presentismo e nas margens da atmosfera epocal.

 

João Paulo Costa é presbítero católico e investigador em filosofia no CECH da Universidade de Coimbra. Autor de Indícios – à escuta dos traços de Deus (UCP editora, 2016) e de À Sombra do Invisível – fragmentos de um crer sapiencial (Documenta/Sistema Solar, 2020).

 

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