O terceiro ponto da ordem de trabalhos

| 25 Ago 2022

Mapa da Aldeia, Posto de Saúde de Jocotan, Guatemala © Luis Castanheira Pinto | 2022

Mapa da Aldeia, Posto de Saúde de Jocotan, Guatemala. Foto © Luis Castanheira Pinto | 2022.

 

Camotán é um município rural do departamento de Chiquimula, Guatemala. Situado a cerca de 200 kms da capital. Mesmo junto à fronteira com a vizinha Honduras. Aproximadamente 35.000 habitantes. Mais de 4 horas de carro. Estrada sinuosa. Descomposta. Uma das mais mortíferas da América Central, dizem. Paisagens verdes. Vulcões ao fundo. Alguns activos. Montes e vales. E montanhas. Plantações. Agricultura de subsistência. Níveis de desnutrição infantil elevadíssimos. Muito. Mesmo.

A Guatemala não é um país pobre. Não quando comparado com outros países com que trabalho. Trabalhamos. Ali se observa o chamado “paradoxo da nutrição”. Investimento em massa nas últimas décadas. Governos consecutivos, ONGs e organizações internacionais. Programas armados e orientados por muitos. Especialistas. Políticas públicas. Trabalho nos gabinetes e no terreno. Concertado. Aparentemente. 

Estamos agora no posto de saúde Jocotan. Uma aldeia do município de Camotán. Emília é ali a única enfermeira. E a única administrativa. A única funcionária. A única pessoa que ali trabalha, na verdade. Vacinas. Medicação. Consultas de obstetrícia. Sessões de planeamento familiar. Urgências. Registo de dados. À mão, evidentemente. Cadernos que leva semanalmente à vila, para processamento no computador que não existe no seu posto de saúde. Na parede da sala, o mapa feito à mão das habitações da aldeia. Cada utente conhecido e seguido criteriosamente. Cada criança. Cada mãe. Individualmente. Emília conhece-os todos. Nasceu ali.

Fazemos as perguntas possíveis. Ou impossíveis, não sei. Procuramos não ferir ainda mais. Emília responde a todas com empenho. Dir-se-ia que entusiasmadamente. Não esconde o orgulho. Há uma aura de alegria à sua volta. Será? O desafio maior chega por palavras, sem rodeios, apesar de envergonhadas. A falta de água para lavar as mãos. Está lá tudo. O lavatório portátil. O depósito à medida. O sistema engenhoso de activação. Mas falta a água. Do que Emília mais sente falta neste momento.

Regressamos à ‘cabeça do município’, como lhe chamam. A reunião é da COMUSAN. Um espaço de governação integrada, municipal. Preside o Alcaide. Sentam-se à mesa os demais representantes. Muitos. Quase todos os que de direito. Aldeias, ministérios, associações locais, projectos. A todos é devida a voz. O programa assim o determina. Trata-se nada menos que da Grande Cruzada pela Nutrição da Guatemala. 

A tenda improvisada teima em contrariar o ambiente formal que se impõe. O tom é solene. Estão cá convidados. De Washington. A agenda de trabalhos é longa. O primeiro ponto da agenda é a abertura. Palavras de cortesia do senhor Alcaide. O agradecimento atento, respeitoso e minucioso a cada representante. Conhece-os todos. Um a um. Na formalidade do momento destoa o sentimento de proximidade. Descobre-se uma beleza subtil nesta intimidade mal disfarçada. 

O segundo ponto da agenda é a aprovação da ordem de trabalhos. Simples. Curto. Sem margem para discussão, diríamos. E no entanto. Dois pontos adicionais propostos. Incluídos e aprovados de forma expedita. Nenhuma voz fica por ouvir.

Segue-se então a ordem estipulada da agenda. Ponto por ponto. E o seguinte estava lá escrito. Desde o início. Muito antes da reunião começar. A oração. O terceiro ponto da ordem de trabalhos.

O microfone pertence agora ao funcionário do município. Não ao Alcaide. Não ao padre. Não aos voluntários das associações religiosas presentes. Não. A oração cabe ao funcionário. Todos de pé. Todos. Cabeça baixa. Vertem-se então as palavras de agradecimento e de prece. Por este momento. Por todos os presentes. Pelo seu trabalho. Pelas crianças deste município. Pelos seus líderes. Pelo pão e água na mesa. Pelo fim último desta reunião. Agradece-se ao Pai. Numa prece tanto dita como sussurrada. E sobretudo sentida. 

Assalta-me uma comoção mal contida. Junto-me a esta oração que parece de todos e de cada um, ao mesmo tempo. Desajeitado, peço por Emília. Que este sopro divino lhe traga a água de que tanto precisa.

Luís Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

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