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Luigi Priolo no edifício do então Colégio Pontifício Português, onde esteve refugiado. Imagem de Miguel Bretiano/reportagem A Lista do Padre Carreira

Evocação de Luigi Priolo (1930-2024)

O último refugiado do Colégio Português de Roma despediu-se com o aceno de uma vida inteira

| 06/09/2025

 

Luigi Priolo, último refugiado vivo dos que foram acolhidos pelo padre Joaquim Carreira no Colégio Português de Roma, morreu em Roma faz agora um ano. Uma evocação de uma vida cheia que se cruzou também com todos os grandes políticos italianos do pós-Guerra.

 

Foi um último aceno, que resumiu uma vida inteira: após cerca de hora e meia a percorrer os corredores, as salas, a antiga capela e o então refeitório do que tinha sido o Colégio Pontifício Português – no palacete Alberini-Senni, do século XVI, em Roma –, Luigi Priolo encontra no claustro alguns jovens funcionários da multinacional de moda que agora ali funciona. Era ele o último dos refugiados do Colégio ainda vivo a transportar a memória do padre Joaquim Carreira, e essa experiência era para partilhar, naquele início de Novembro de 2022, aos 92 anos – oito décadas depois de ali ter estado alojado.

“Eu vivi aqui quase um ano, escondido dos [nazis] alemães”, conta ele ao pequeno grupo, espantado com o ancião que se lhes dirigia. Eram tempos difíceis, acrescenta, levantando depois o braço, a despedir-se das pessoas e do edifício. Corrige imediatamente, baixando-o ligeiramente, como a querer lembrar gestos e recusas que voltam a ser importantes: “Assim não, que é a saudação fascista.”

Luigi Priolo morreu em Roma, em 6 de Setembro do ano passado, faz neste domingo um ano. Tinha 94 anos e uma vida cheia, depois de ter trabalhado no Senado italiano durante três décadas e meia, chegando a ser secretário-geral adjunto da câmara alta do Parlamento italiano. Ali conheceu e privou directamente com todos os mais conhecidos políticos italianos do pós-Guerra: entre muitos outros, Aldo Moro, Sandro Pertini, Giulio Andreotti, Francesco Cossiga, Amintore Fanfani, Giovanni Spadolini ou, mais atrás, Alcide De Gasperi, um dos pais fundadores da actual União Europeia – “era o mais importante deles todos”, dizia.

No dia 3 de Novembro de 2022, Luigi Priolo entrou de novo no edifício que tinha sido do Colégio Pontifício Português, onde esteve refugiado com a ajuda do padre Joaquim Carreira. Natural de Souto de Cima, freguesia da Caranguejeira (Leiria), o padre português nascido em 1908 foi reitor do Colégio entre 1941 e 1954.

Para Luigi Priolo, o padre Joaquim Carreira “era a pessoa mais extraordinária que alguma vez” conhecera. E os termos de comparação eram muitos, como se percebe pelas pessoas com quem se cruzou na sua vida. “Um homem que manifestava uma coragem incrível, porque para fazer aquilo que ele fez, a ajuda que deu aos outros, tem de se ter uma coragem infinita – porque os nossos ‘amigos’ alemães não brincavam”, dizia, na reportagem A Lista do Padre Carreira, realizada em conjunto pelo 7MARGENS e TVI, cujo vídeo pode ser visto na íntegra no final deste texto.

 

“Um acto de coragem”

Padre Joaquim Carreira, reitor do Colégio Pontifício Português durante a ocupação nazi de Roma. Foto: Direitos reservados.

 

Durante a ocupação nazi de Roma (Setembro de 1943-Junho de 1944), Joaquim Carreira acolheu secretamente dezenas de pessoas que fugiam da perseguição dos exércitos de Hitler. “O que o padre Carreira fez tinha de ser com uma coragem fora do normal. Ele seria o primeiro a ser fuzilado”, se os alemães descobrissem, dizia Luigi Priolo.

“É um acto de coragem, se se pensar nos riscos que estava a correr. Eu era o que corria menos riscos porque era um miúdo”, acrescentava, sorrindo, no edifício do antigo Colégio, situado no centro de Roma, a poucas centenas de metros do Vaticano e de onde se vê o Castel Sant’Angelo.

Priolo recordava alguns hábitos dos refugiados: “Jogávamos à sueca, aprendi a jogar à sueca” com os padres portugueses que ali residiam – o Colégio é a casa onde ficam alojados padres que, das dioceses, vão estudar na capital italiana. “Íamos para o terraço e havia um capitão dos carabinieri, que perdia sempre…”

Num relatório que publicou no final do ano lectivo 1943-44, já depois do fim da ocupação nazi, o padre Joaquim Carreira regista 39 nomes de fugitivos ali acolhidos, entre antifascistas, judeus, médicos, professores universitários e estudantes – além de Luigi, havia um outro adolescente, Elio Cittone, de uma família judia de Milão, cujo testemunho permitiu que o Yad Vashem de Jerusalém desse a Joaquim Carreira o título de Justo Entre as Nações.

Mas há refugiados que, em cartas posteriores, referem os números de 50 ou 42 pessoas refugiadas. Para lá do número, o padre Carreira dizia que tinha concedido “asilo e hospitalidade” a essas pessoas “perseguidas na base de leis injustas e desumanas”, como o próprio escreveu naquele documento. “Quando tomei esta decisão não avaliei bem as possíveis consequências”, acrescentava, confirmando a intuição de Priolo. “Pensei em fazê-lo, primeiro porque a responsabilidade era minha, na qualidade de superior, e não tinha de ser uma preocupação dos estudantes, e também porque pensei que, além de cumprir um dever de sacerdote, o da caridade viva e operante, fosse um ensinamento, e dos mais eficazes, a transmitir aos alunos.”

 

O massacre que chegou via rádio

Fossas Ardeatinas, Nazismo, Roma

Cemitério das Fossas Ardeatinas, em Roma, local onde os nazis fuzilaram 335 pessoas, depois do atentado na via Rasella, em 24 de Março de 1944. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

Nascido em Reggio Calabria, no sul de Itália, em 2 de Janeiro de 1930, Luigi era filho de Antonio Priolo, destacado dirigente socialista italiano, deputado e opositor do fascismo de Mussolini – que aliás o viria a prender e, depois, a colocar sob apertada vigilância policial e proibido de exercer política.

O pai e a mãe, Luigina Zagari, preocupavam-se com Luigi e a sua irmã Maria. Decidem então enviá-los para Roma, escondendo-os em instituições religiosas, provavelmente com a ajuda de Lycia Bartolomeo, amiga da mãe e freira doroteia, professora e muito dinâmica. No Colégio Português estava também um tio materno de Luigi, Mario Zagari, oficial do exército. “Era um dos poucos com quem eu falava, os outros eram grandes personagens…”, contava Luigi, sobre os seus dias portugueses.

(Na história da família, há ainda uma tia que pode vir a ser canonizada, cujo protagonismo nasceu também na altura da Segunda Guerra Mundial: em 1940, Letizia Zagari fundou em Nápoles, com algumas companheiras, a congregação das Filhas de Nossa Senhora da Eucaristia, criando orfanatos para crianças desamparadas e instituições de apoio a pobres e desfavorecidos.)

No Colégio, o quotidiano era feito de passatempos e monotonia: Luigi acordava cedo – foi “sempre assim, pelas 5h30/6h00) – “a tempo de deixar a cama feita” e sem sinais de que o quatro estivesse ocupado por pessoas que não os padres ali residentes. Além de jogar cartas, lia na biblioteca ou conversava com um ou outro refugiado. “Havia medo”, claro, e regras de segurança a cumprir, apesar de o Colégio ser considerado zona extra-territorial da Santa Sé e estar relativamente protegido das operações nazis em Roma: não chegar junto das janelas, quartos arrumados, lavatórios limpos e secos, roupa arrumada no meio da dos padres, uma via clandestina de saída pelo telhado se os alemães chegassem.

Por vezes, as notícias abalavam. Em 23 de Março de 1944, a rádio deu conta do atentado dos partigiani contra os alemães na via Rasella, no centro de Roma: 33 soldados foram atingidos por uma explosão e, como represália, Hitler ordenou pessoalmente o fuzilamento de 330 italianos, dez pessoas por cada um dos soldados mortos. No dia seguinte, 335 pessoas (incluindo três jovens de 15 e 17 anos e um homem de 74) foram conduzidas às Fossas Ardeatinas e ali fuziladas – por erro, os alemães tinham juntado mais cinco pessoas e nem essas foram poupadas. “Esse acontecimento provocou uma grande comoção”, recordava Luigi.

Em Roma, apesar das cautelas necessárias ao tempo, Luigi frequentou o liceu Torquato Tasso, tendo terminado o secundário aos 16 anos. No Sul, logo após o fim da guerra, Antonio Priolo regressa à vida política, tornando-se o primeiro presidente da Câmara de Reggio Calabria pós-fascista. Mas ainda em 1945 o Priolo pai é eleito deputado à Assembleia Constituinte e vai para Roma, sendo mais tarde eleito para o Senado.

 

Uma guerra em directo

Luigi Priolo, Padre Joaquim Carreira

Luigi Priolo fotografado no regresso ao antigo edifício do Colégio Português, em 3 de Novembro de 2022 para a reportagem A Lista do Padre Carreira. Foto © António Marujo/7Margens

 

Luigi segue um percurso paralelo ao pai, mas sem se envolver na política partidária directa: em 1951, termina cum laude a licenciatura em Direito na Universidade La Sapienza de Roma; torna-se advogado; em 1957 concorre ao Senado e torna-se conselheiro parlamentar, abandonando a advocacia.

Muito mais tarde, em 17 de Janeiro de 1991, Luigi Priolo bateria um recorde pessoal: “Eu tinha ido muito cedo para o trabalho, porque havia um debate. À meia-noite e meia, estava sozinho no Senado, já tinham ido todos embora. Quando vi em directo o início dos bombardeamentos da Guerra do Golfo, adverti o presidente [do Senado, Giovanni] Spadolini e telefonei a vários senadores. Vieram e estivemos juntos a ver as imagens até às cinco da manhã.” Estaria um dia e meio sem dormir: “Às cinco, interrompemos e convoca-se a discussão no Senado para duas horas depois. Voltei a casa para tomar um duche e regressei ao Senado.” Com uma coincidência: “De manhã, numa reportagem da televisão, um aviador inglês dizia que tinha cumprido a sua missão e acrescentava que ia tomar um duche e voltar. Eu fiz igual, mas com menos riscos…”

Em 1961, Luigi casara com Maria Luisa Manna (Marisa, no diminutivo familiar) e é nessa altura que o padre Joaquim Carreira volta a cruzar-se com ele: Luigi quer que seja o padre português a presidir à celebração religiosa.

“Eu estava apaixonado por uma cachopa, queria casar-me e disse-lhe: ‘Desculpa, mas eu quero que seja o padre Carreira a dar-nos a bênção’”, contava ele, em Novembro de 2022. Marisa confirma que acolheu bem a ideia: “Gostava muito do padre Carreira, era muito extrovertido e comunicativo. Eu não o conhecia de lado nenhum e tratou-me logo como família. Foi muito querido.”

As circunstâncias fizeram com que Luigi se tivesse cruzado com o antigo reitor apenas mais algumas vezes: “Trabalhei na universidade [cerca de um ano], tinha muitas obrigações. A princípio ia cumprimentá-lo, a cada dois, três dias, mas depois fui deixando de o fazer, porque a universidade me ocupava muito.” Luigi Priolo ia adiando a possibilidade de rever o seu antigo protector. Acabou por não o fazer e a certa altura pensou que ele tinha regressado a Portugal. De facto, Joaquim Carreira ficou em Roma até morrer, em 1981. Seria trasladado em 2001 para o cemitério da Caranguejeira. No vídeo com a reportagem já referida, o filho Anton Giulio e Elisa Eleonora Papandrea, a nora de Luigi, ambos músicos, tocam junto do túmulo do padre Carreira o tema de A Lista de Schindler.

 

“Os amigos são muito importantes”

Luigi Priolo, Joaquim Carreira,

Luigi Priolo fotografado em sua casa, com a esposa, Marisa, em 3 de Novembro de 2022, na entrevista para a reportagem A Lista do Padre Carreira. Foto © António Marujo/7Margens

 

Com Marisa, Luigi terá dois filhos: Anton Giulio (1966) e Pierandrea (1973). No Senado, onde a sua carreira profissional se foca cada vez mais, Luigi contacta com as figuras destacadas da Itália. E isso permitia-lhe ter muitos álbuns de fotografias para folhear e muitas histórias para contar. Francesco Cossiga, por exemplo, ministro do Interior quando o primeiro-ministro Aldo Moro foi sequestrado, teve muitos problemas de consciência com o sucedido: demitiu-se na sequência do posterior assassinato de Moro, em 1978. “Era muito divertido, mas nunca mais se perdoou por esse facto.”

Cossiga era também um “obcecado por canetas”, recordava Luigi. “Um dia, numa reunião, estava sem caneta e eu emprestei-lhe uma. No final, ia a despedir-se e eu disse: ‘Essa caneta deve ser minha’. E ele: ‘Como? A caneta é minha.’ Mas eu recordava que, depois de a ter deixado cair uma vez, ela fazia um pequeno barulho quando se abria. Então disse-lhe que, se a girasse, ela faria esse barulho e ele lá se convenceu…”

A família recorda que, nesses anos de chumbo da década de 1970, com o terrorismo das Brigadas Vermelhas a fazer vítimas em Itália, Luigi teria também sido incluído nas listas de possíveis alvos do grupo, tendo em conta o seu papel destacado na administração parlamentar.

No seu percurso no Senado, no início dos anos 1970, Luigi prepara documentos sobre ecologia e protecção do ambiente, temas inéditos na época. Na instituição parlamentar, vai assumindo progressivamente as funções de director do Cerimonial, da Contabilidade e depois, do Serviço da Questura.

A vida política agitada do Senado levou-o a procurar uma casa num lugar mais silencioso, uma opção que não agradou completamente à esposa: do seu terceiro andar robusto no Aventino, uma das colinas de Roma, avistava, para lá dos pinheiros à volta do prédio, a silhueta do Circo Massimo, os arcos do aqueduto que abastecia o Palatino, a torre do mosteiro Santi Quattro Coronati e, mais ao fundo, o Monte Esquilino. Para a esquerda, via um pouco da cúpula da Basílica de São Pedro. Santa Maria Maior já ficava tapada por pinheiros, tal como o Castel Sant’Angelo, próximo do lugar onde Luigi se refugiou em 1943-44.

Apesar de estar mais próximo dos socialistas, no Senado, Luigi Priolo era “amigo de todos”, desde os democratas-cristãos aos comunistas, contava. E em casa ficava “contente” por receber amigos. Em Novembro de 2022, o convite estendeu-se aos autores da reportagem: “Se vierem, ficam já a saber que são vocês que me fazem o gosto e não eu a vocês. Venham, há sempre almoço, arranja-se sempre qualquer coisa para os amigos.” E justificava: “Eu gosto de ter amigos como vocês. Aqui há sempre silêncio. Há quem goste e quem não goste, é assim. E há camas, se precisarem de cá dormir.” Ao lado, Marisa sorri: “Convite completo!” E Luigi confirma: “Os amigos são muito importantes.”

Até sempre, Amigo Luigi.

 

(Além dos elementos recolhidos na reportagem que pode ser vista a seguir, o texto recolhe pormenores já publicados no livro A Lista do Padre Carreira e vários outros fornecidos por Anton Giulio Priolo e pela família, a quem agradeço. Sobre a reportagem e a música, o 7MARGENS publicou também um outro texto.)

 

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